Quais as recomendações da Unicef para a volta às aulas

Agência da ONU diz que mais de 1 bilhão de estudantes estão fora da escola no mundo, mas retomada no meio da pandemia traz desafios inéditos

    Dos 193 países do mundo, 134 suspenderam as aulas durante a pandemia da covid-19. De março a agosto de 2020, mais de 1 bilhão de crianças e jovens ficaram longe da escola, de acordo com a Unicef, a agência das Nações Unidas para infância.

    Com o pico da pandemia arrefecendo na Europa a partir do segundo semestre do ano, 105 desses 134 países – o que equivale a 78% do total – tentam dar início à retomada das aulas. Pelo menos 59 já começaram essa jornada no final de agosto, ainda que diante do temor de uma segunda onda de contaminação.

    A mesma retomada é discutida em outras partes do mundo, incluindo o Brasil, onde governos estaduais estudam os melhores protocolos para a volta às aulas presenciais.

    O ineditismo dessa doença e de sua extensão coloca, entretanto, inúmeras questões que ainda não podem ser completamente respondidas. Uma delas é o próprio grau de eficácia das máscaras e dos anteparos faciais, considerados o meio mais comum e recomendável de prevenir a contaminação.

    A tentativa de adotar parâmetros

    Para diminuir as incertezas e ajudar no processo de retomada da educação escolar, a Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) publicou no dia 24 de agosto um material simples e didático, com dados e parâmetros para auxiliar nas decisões a serem tomadas por autoridades políticas, sanitárias e educacionais.

    A publicação do material acompanha a volta às aulas e o início de um novo ano letivo no Hemisfério Norte. França, Espanha, Rússia, Sérvia, Polônia e Reino Unido, por exemplo, voltaram às aulas na primeira semana de setembro. Itália, Portugal e Grécia retomarão ao longo do mês.

    “Ao pensar em reabrir escolas, as autoridades devem levar em conta os benefícios e os riscos para a educação, para a saúde pública e para a realidade socioeconômica no contexto específico. A defesa do interesse de cada criança deve estar no centro das decisões tomadas, usando para isso as melhores evidências disponíveis. Entretanto, a forma como essa retomada se dará vai variar de escola para escola”, diz o documento da Unicef.

    A agência nota que qualquer política de retomada das aulas só será segura e efetiva se estiver em sintonia com as demais políticas sanitárias adotadas em cada país. Por exemplo, não adianta a criança ir para uma escola onde vigorem protocolos rigorosos de distanciamento se, ao voltar para casa, o contexto é de aglomeração, de contato descontrolado com diversas pessoas e de descuido no uso de máscaras e com a higiene das mãos.

    Ideias concretas para a retomada

    A Unicef não apresenta recomendações de forma numerada, ou como uma lista de afazeres. A organização faz algumas ponderações sobre práticas recomendáveis e questões a considerar. Não é, portanto, um guia.

    Isso ocorre porque a agência não tem o poder de ditar regras e impor medidas aos diferentes governos do mundo. Isso nem seria possível tendo em vista as idiossincrasias culturais, econômicas e políticas dos 134 países que suspenderam as aulas nesse período.

    As recomendações vão, portanto, desde ideias simples – como realizar aulas ao ar livre, em vez de usar espaços fechados – até alterar características físicas das escolas, quando necessário e possível.

    Algumas das considerações já estão presentes no debate em curso nas escolas brasileiras, como a diminuição das turmas e a rotatividade dos alunos, para garantir o distanciamento entre as carteiras e prevenir aglomerações.

    Outras, entretanto, apontam para problemas permanentes em escolas de várias partes do mundo, como a dificuldade em garantir as condições de higiene nos banheiros de uso coletivo. A pandemia reforçou a necessidade de que as escolas tenham sabonete disponível em quantidade suficiente nos sanitários o tempo todo, o que é difícil encontrar, mesmo em escolas de países desenvolvidos.

    O peso da questão psicológica

    Um dos pontos que o documento realça é a importância de prestar atenção à carga emocional que essa situação excepcional traz aos alunos que regressam às aulas.

    Em relação aos pais, a Unicef chama a atenção para o fato de pessoas que vivem juntas e são parte da mesma família terem reações diferentes quando expostas às mesmas experiências. Cada criança demanda uma resposta particular.

    Outro ponto levantado é a necessidade de prestar apoio psicológico às crianças infectadas, para combater o estigma e o preconceito de colegas de classe durante o período de afastamento.

    É importante, diz o documento da Unicef, que as crianças saibam que não há nada de errado em sentir medo, angústia e ansiedade em relação a tantas e tão grandes mudanças nesse período.

    Para facilitar a detecção desses casos, a agência recomenda que as escolas mantenham comitês de pais e professores, que sejam capazes de facilitar o contato entre o que acontece em casa e na escola.

    Um dos problemas que esses comitês podem mediar é a queda no rendimento dos alunos. A Unicef antecipa que muitos estudantes precisarão de ajuda suplementar nos próximos meses, dado o caráter excepcional do momento. Nesses casos, são recomendadas iniciativas como retrospectivas de conteúdo, abertura de horários suplementares e lições de casa em maior quantidade e frequência.

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