Covid-19: por que os números em queda no Brasil exigem cautela

Quantidade de óbitos no país em agosto foi 12% menor que o mês anterior. Especialistas afirmam que ainda é preciso esperar até que dados registrem redução sustentada 

    Menos pessoas morreram de covid-19 no Brasil em agosto de 2020 em comparação ao mês anterior. Se em julho o país registrou 32.912 óbitos, agosto totalizou 28.947. A redução foi de 12%.

    A média móvel de sete dias também registrou queda, de 11%. Nesse caso, a comparação é entre o dado divulgado na segunda-feira (31) e o de 17 de agosto. Foram 971 mortes na data anterior contra 866 no dado mais recente. A média móvel é obtida quando se soma o resultado dos últimos sete dias e se divide por sete, e é usada para nivelar discrepâncias nos registros de óbitos, que costumam cair nos fins de semana.

    São dados positivos para um país que ainda apresenta o segundo pior quadro do mundo na pandemia do novo coronavírus, em números totais de mortes e infectados.

    123.780

    é o número de mortos por covid-19 no Brasil até 2 de setembro de 2020, segundo o Ministério da Saúde

    3.997.865

    é o número de casos confirmados da doença no país até a mesma data

    Em junho, foram 30.315 mortes pela covid-19 enquanto maio registrou 23.335 óbitos. A média móvel calculada em 31 de agosto, de 866 mortes, é o menor número desde 21 de maio, quando ela foi de 870 óbitos.

    As reduções nos dados não são homogêneas quando se observa diferentes estados e cidades. Tomando-se a comparação entre a média móvel de 31 de agosto com a de 17 do mesmo mês, o Rio Grande do Sul apresentou uma redução de 20% nos óbitos e o Rio de Janeiro, uma alta de 64%.

    Os dados foram obtidos junto a secretarias de Saúde estaduais por um consórcio entre os jornais Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo, Extra, O Globo, G1 e UOL.

    Na quarta-feira (2), o Imperial College, centro britânico de análise de epidemias, divulgou que a taxa de transmissão (Rt) do Brasil é a menor desde o final de abril. De acordo com a instituição, o índice é de 0,94, ou seja, cada 100 contaminados transmitem o novo coronavírus para outros 94. Estes 94 passam para outros 88, em um movimento de declínio do contágio.

    Na segunda-feira (31), o governador de São Paulo, João Doria (PSDB) anunciou que o estado teve a terceira semana seguida de diminuição de mortes e internações hospitalares por covid-19. Entre 23 e 29 de agosto, a diminuição foi de 4% nos óbitos e 4,4% nas hospitalizações, na comparação com o período entre 16 e 22 de agosto.

    Os resultados acontecem em meio à reabertura do comércio e à retomada de atividades presenciais por todo o país. A adesão ao isolamento social também vem caindo. De acordo com pesquisa do Datafolha publicada em 18 de agosto, apenas 8% dos entrevistados seguiam realizando isolamento total. Em abril, eram 16%. Outros 43% evitam sair de casa, em comparação com 53% em abril.

    O que os números indicam

    O Brasil começou a apresentar indícios de estabilização da pandemia em meados de junho. O diretor-executivo da OMS (Organização Mundial da Saúde), Michael Ryan, reconheceu a tendência na época, afirmando que no país “o crescimento não é tão exponencial como era anteriormente”.

    A partir desse período, os números da doença no Brasil formaram um “platô” da covid-19, nome dado à estabilização de mortes em um determinado patamar. No entanto, esse patamar foi de elevado número de mortes.

    Em 19 de maio, o Brasil registrou pela primeira vez mais de mil mortes por covid-19 em um único dia. Demoraria até 4 de agosto para que o país tivesse um período de 24 horas com um total de óbitos menor que mil. Dias com registros abaixo desse patamar voltaram a acontecer ao longo do mês.

    As estatísticas mais recentes que mostram diminuição no número de mortes e na média móvel do país, no entanto, ainda não são suficientes para classificar o quadro como de queda consolidada, segundo especialistas.

    Para Estevão Urbano, diretor da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia), se os números continuarem caindo é possível que o país saia de uma fase de epidemia para uma fase endêmica. Isso significaria ter “um número menor de casos, mas constantes, até que tenhamos a vacina”, disse ao Nexo.

    “Podemos, no máximo, ser cautelosamente otimistas. Não ter aumentado é uma boa notícia, mas ainda representa muito pouco”, declarou Celso Granato, infectologista e diretor clínico do Grupo Fleury, à Folha de S.Paulo.

    “No país inteiro ainda existe muita gente suscetível. No Rio de Janeiro, tivemos um pico grande entre maio e junho, depois em julho começou a cair, mas as mortes voltaram a crescer assustadoramente agora”, assinalou Alberto Chebabo, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, ao jornal O Globo.

    “Podemos ainda ter novas ondas em alguns estados e ter que nos preocupar de novo com aumento de mortalidade e maior rigidez no distanciamento. Se novas ondas aparecerem, significa que teremos que conviver com essas idas e vindas por mais tempo, até termos a vacina”, explicou Urbano ao Nexo.

    As hipóteses sobre a queda

    Especialistas arriscam hipóteses que explicam um início de queda no impacto da covid-19 em meio a um período de reabertura, mas ainda não é possível chegar a conclusões.

    “A queda atual possivelmente está relacionada a alguma imunidade de rebanho que se estabeleceu no país, já que temos vários meses de pandemia e milhões de infectados e milhares de mortos. A dúvida é: teremos uma segunda onda? A imunidade de rebanho é suficiente para segurar isso?”, afirmou Estevão Urbano, da SBI, ao Nexo.

    De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), a imunidade de rebanho acontece quando entre 65% e 70% da população desenvolve anticorpos contra o novo coronavírus. Outros estudos estabelecem taxas menores, como 43%.

    Na cidade de São Paulo, segundo dados da prefeitura, 10,9% da população tem anticorpos. No Brasil, a estimativa mais recente disponível, do início de julho, calculava 4% de brasileiros imunizados. No Maranhão, um estudo da UFMA (Universidade Federal do Maranhão) surpreendeu ao revelar que 40% da população do estado já havia sido contaminada.

    Outra explicação para a queda em São Paulo seria o surgimento de “bolhas de proteção”, em que se esgotam as redes de contágio. Nesse modelo, pessoas que ainda não foram contaminadas acabam protegidas por uma barreira de indivíduos que já estão imunes. O distanciamento social também contribui para esse fenômeno.

    A teoria é dos pesquisadores Patrícia Magalhães, da Universidade de Bristol, na Inglaterra, e José Paulo Guedes Pinto, da Universidade Federal do ABC, que integram o grupo Ação Covid-19.

    Em julho de 2020, um estudo publicado pela revista científica americana Science constatou que as medidas de isolamento social nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro reduziram pela metade a transmissão do vírus. O levantamento da Universidade de Oxford, da USP (Universidade de São Paulo) e da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) apontou que a taxa de transmissão das duas cidades era maior que 3 antes do isolamento e depois caiu para um intervalo entre 1 e 1,6.

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