Como os números da economia confrontam o discurso de Guedes

Em março, ministro previa impacto pequeno da pandemia na atividade brasileira. Após queda histórica do PIB, ele desloca o otimismo para uma eventual recuperação

    Em 11 de março de 2020, a Organização Mundial da Saúde declarou a pandemia do novo coronavírus. Naquele momento, as bolsas de valores pelo mundo reagiam ao avanço da doença, registrando quedas históricas. Diante dos sinais negativos vindos dos primeiros países afetados pelo vírus, os agentes dos mercados consideravam em suas negociações a iminente onda recessiva que atingiria a economia global.

    O ministro da Economia do Brasil, no entanto, tinha um entendimento próprio sobre o assunto. Em 12 de março, Paulo Guedes afirmou que o país não estava “sincronizado com a economia mundial”. Na leitura do ministro, se em meados da década de 2010 o Brasil estava em recessão enquanto o restante do mundo crescia, o inverso ocorreria em 2020. A pandemia poderia atrapalhar um pouco, mas não a ponto de afetar de forma drástica a trajetória positiva da economia brasileira. Na mesma semana, o governo revisou sua projeção para o crescimento do PIB no ano de 2,4% para 2,1%. O pior dos casos, para Guedes, seria uma alta de 1%.

    “Nós estávamos em pleno voo, começando a decolar, quando fomos atingidos por essa onda. Temos capacidade e velocidade de escape para mantermos nossa decolagem. Nós não estamos sincronizados com a economia mundial”

    Paulo Guedes

    ministro da Economia, em 12 de março de 2020

    Quase seis meses depois, qualquer projeção de crescimento econômico brasileiro em 2020 está praticamente descartada. O país está em recessão e vive uma das piores crises econômicas de sua história, seguindo a mesma direção da maioria dos países pelo globo. No caso do Brasil, no entanto, os números mostram que o cenário ruim não é algo novo.

    Os números do PIB no primeiro semestre

    Na terça-feira (1°), o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgou os números do PIB (Produto Interno Bruto) do segundo trimestre de 2020. O PIB é o resultado da soma de todos os novos bens e serviços produzidos em um país em certo período de tempo. Por ser um indicador de quanto e como a economia produziu naquele intervalo, ele aponta se a atividade econômica expandiu, encolheu ou se manteve igual na comparação com outros momentos.

    Entre abril e junho, o PIB brasileiro caiu 9,7% na comparação com os primeiros três meses do ano. O resultado – de longe o pior registrado na série histórica do IBGE, iniciada em 1996 –, acompanhou os tombos observados no restante do mundo.

    Ao divulgar os resultados do segundo trimestre, o IBGE também revisou os números do primeiro. Originalmente, havia sido divulgada uma queda de 1,5% em relação ao trimestre anterior. O novo valor registrado é um recuo mais profundo, de 2,5%. É comum que o IBGE reveja números recentes.

    Os dados indicam que o impacto da pandemia na economia brasileira foram e são mais fortes do que o imaginado por Paulo Guedes – isso desde os primeiros momentos da crise. Mesmo antes dos efeitos da doença chegarem ao país, o cenário não era tão positivo como dizia o ministro.

    A trajetória da economia antes da pandemia

    A crise do coronavírus atingiu a economia brasileira em um momento ruim. O país saíra havia pouco tempo de uma forte recessão, que durou quase três anos. Entre o segundo trimestre de 2014 e o último de 2016, o PIB teve uma queda acumulada de 8%.

    Mesmo saindo da recessão no começo de 2017, a atividade econômica brasileira não desenhou uma recuperação robusta. Foram três anos consecutivos de crescimento baixo – 1,3% em 2017 e 2018, e 1,1% em 2019.

    TRAJETÓRIA EM 15 ANOS

    Evolução do PIB brasileiro – série trimestral dessazonalizada. Alta até 2014, com excessão de um breve vale entre 2008 e 2009. Depois de 2014, queda seguida de crescimento pequeno. Em 2020, queda muito forte.

    No gráfico acima, é possível ver que mesmo com três anos de crescimento, a economia brasileira ainda não havia se recuperado totalmente das perdas causadas pela recessão de 2014 a 2016. A chegada da pandemia em 2020 agravou a situação, levando a economia brasileira de volta ao nível de 2009. Os ganhos da década de 2010 foram perdidos.

    Os principais pontos de fragilidade

    A crise sanitária atingiu uma economia brasileira fragilizada. A indústria, por exemplo, estava estagnada desde o final de 2015. Foram quatro anos de oscilação em torno de um nível 11% abaixo do patamar pré-recessão.

    Além disso, os investimentos também não progrediam. Antes da eclosão da crise em 2014, eles representavam cerca de 20% do PIB. Durante a recessão, caíram para pouco menos de 15% do PIB. De 2017 em diante, apenas oscilaram nesse patamar.

    Outro fator de fragilidade da economia brasileira era o mercado de trabalho, onde o desemprego estava em alta, acima de 10% desde 2016. Além disso, a geração de novos empregos na segunda metade da década de 2010 baseou-se quase que exclusivamente em vagas informais. Ao final de 2019, 40% dos empregos do país eram informais, o que representa mais de 38 milhões de pessoas. Desses, quase metade trabalhava por conta própria.

    Nesse cenário, houve um crescimento forte da desigualdade de renda entre os brasileiros, associada à estrutura do mercado de trabalho no país. A desigualdade de renda cresceu por cinco anos consecutivos, de 2015 a 2019.

    É nesse contexto de economia fragilizada e vulnerável que a pandemia do novo coronavírus chegou ao Brasil. Além dos efeitos sobre o PIB, a crise teve forte impacto no mercado de trabalho. Quase 9 milhões de pessoas perderam o emprego no segundo trimestre de 2020. Os mais afetados foram os trabalhadores informais, que responderam por quase 70% dos postos perdidos. A posição de vulnerabilidade desses trabalhadores levou o Congresso a articular a criação do auxílio emergencial voltado para informais e autônomos, principal programa de suporte econômico do governo federal à população na pandemia.

    O novo foco de otimismo de Guedes

    Entre março e setembro em 2020, Paulo Guedes viu suas projeções iniciais sobre o impacto da pandemia na economia brasileira passarem longe de se concretizar. No segundo semestre, ele deslocou as atenções – e o discurso otimista – para a trajetória da recuperação econômica.

    Na terça-feira (1°), após a divulgação do PIB do segundo trimestre pelo IBGE, o ministro afirmou que a queda de 9,7% é algo já distante. Para o ministro, o país já traça uma trajetória de retomada rápida, e irá desenhar uma curva de recuperação econômica no formato da letra V.

    “Isso [o resultado do PIB no segundo trimestre] é lá atrás, isso é um impacto de lá atrás. Nós estamos decolando em ‘V’. Esse é o barulho do raio que caiu em abril”

    Paulo Guedes

    ministro da Economia, em 1° de setembro de 2020

    Economistas ouvidos pelo Nexo em 1° de setembro entendem que os números do PIB no segundo trimestre indicam que a recuperação da economia brasileira será lenta. Antes mesmo da divulgação do PIB, os dados econômicos brasileiros já davam sinais mistos sobre a recuperação rápida. Por um lado, no varejo, os meses de maio e junho apontaram para uma melhora considerável em relação a abril; já os serviços – que empregam uma parte significativa da população – mostraram apenas um princípio tímido de recuperação, indicando que a recuperação do setor deve ser mais lenta.

    A mudança na atuação do governo

    Outro fator que pode contribuir para uma trajetória mais lenta são mudanças promovidas pelo próprio governo a partir de setembro. O auxílio emergencial – tido como um fator determinante para impedir uma queda mais forte do PIB no segundo trimestre – será reduzido de R$ 600 para R$ 300 nos últimos quatro meses de 2020.

    Além disso, o governo deverá retomar uma política de rigidez de gastos a partir de 2021. Em 2020, por conta da pandemia, o Congresso Nacional declarou calamidade pública e aprovou o chamado orçamento de guerra, permitindo que o governo descumprisse regras fiscais como a regra de ouro – que proíbe o governo de contrair dívida para pagar despesas correntes, como salários, benefícios assistenciais e manutenção habitual da máquina pública – e o teto de gastos, norma que limita o aumento de gastos do governo.

    O projeto de Orçamento para 2021, apresentado pelo governo na segunda-feira (31), indica um retorno às diretrizes de contenção de gastos, defendidas por Guedes e sua equipe desde a campanha eleitoral de 2018. As regras fiscais voltarão à vigência, e diminuirá o espaço para gastos sociais do governo.

    O papel da política fiscal na economia como um todo é tema de debate intenso entre economistas. Resumidamente, há, por um lado, aqueles que pregam que é necessário conter as despesas para não perder controle sobre a trajetória da dívida pública – isso ajudaria a atrair investimentos privados que estimulariam o crescimento econômico. Por outro, há economistas que entendem que os gastos do governo têm papel importante para estímulo da economia, especialmente em momentos de crise.

    Paulo Guedes pertence ao primeiro grupo, apesar do aumento de gastos feito durante a pandemia. Na terça-feira (1°), ele reafirmou essa linha de pensamento. Guedes defendeu a descontinuidade em 2021 das medidas excepcionais de enfrentamento à pandemia, e pregou o avanço da pauta de reformas econômicas que limitam os gastos públicos como uma forma importante de enfrentar a crise.

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