Como o movimento anticonfinamento faz barulho na Europa

Grupos conspiracionistas e de extrema direita ganham espaço em onda de contestações às políticas sanitárias impostas pela pandemia

    Mais de 38 mil pessoas saíram às ruas de Berlim, capital da Alemanha, no sábado (29), para protestar contra restrições impostas pelas autoridades no combate à covid-19.

    A manifestação foi composta por uma mistura de militantes de grupos de esquerda, de direita e de extrema direita que tinham em comum a defesa da liberdade individual contra o crescimento do poder do Estado na imposição de restrições sociais e sanitárias durante a pandemia do novo coronavírus.

    Pelo menos 300 pessoas foram presas na manifestação depois que uma parte do grupo tentou invadir o Palácio do Reichstag, edifício-sede do Parlamento Alemão, num ato classificado como “inaceitável” e “vergonhoso” pelas autoridades.

    “Tivemos um exemplo da maneira como a liberdade de manifestação pode sofrer abusos. Naturalmente, o direito de manifestação pacífica é uma conquista preciosa, inclusive em tempos de pandemia do novo coronavírus, mas este direito foi claramente ultrajado”

    Steffen Seibert

    porta-voz do governo, em declaração no dia 31 de agosto de 2020

    Além da Alemanha – que já havia sido palco de protesto semelhante em maio – outros países da Europa, como Bulgária, Áustria, Espanha e Irlanda, além da Argentina, na América do Sul, viram recentemente manifestações semelhantes, embora em movimentos muito menores.

    Os militantes desses protestos já foram apelidados de “coronacéticos”, por duvidarem da gravidade da pandemia que, até o fim de agosto, já havia deixado mais de 850 mil mortos em todo o mundo. Além da aglomeração provocada por esses protestos, muitos dos manifestantes comparecem sem máscaras, o que aumenta o risco de contágio.

    A Europa foi o segundo maior epicentro da epidemia logo depois da explosão dos casos da doença na China. O fechamento das fronteiras, associado à adoção de políticas de distanciamento social e confinamento, ajudaram a reduzir as contaminações depois de os sistemas de saúde de países como Espanha, Itália e França terem colapsado.

    Após o pico, as medidas foram relaxadas. Porém, as autoridades pedem cautela e dizem que os cidadãos devem estar preparados para voltar a adotar medidas de segurança, caso haja uma segunda onda de covid-19 no continente.

    Mistura de bandeiras na Alemanha

    Mesmo cientistas políticos alemães dizem que é difícil traçar um perfil claro dos participantes desses protestos. Eles são movidos por uma mistura de preocupações que vão do debate sobre os limites do poder do Estado até a teoria de que os satélites espaciais e as antenas usadas para as redes 5G são responsáveis pela pandemia.

    Quando o primeiro protesto do tipo eclodiu em Berlim, em maio, a diretora de programas que estuda o Futuro da Democracia no Centro de Estudos Progressistas DPZ, na Alemanha, Paulina Fröhlich, explicou ao Nexo que todos esses grupos são unificados por “um mindset [um jeito de pensar] anti-establishment, marcado por uma profunda desconfiança em relação às estruturas governamentais. Há ainda uma interessante similaridade no que diz respeito às crenças esotéricas, num tipo de entendimento peculiar da natureza, dos humanos e da saúde”.

    No final de agosto, uma pesquisa publicada pela rede de TV pública alemã mostrou que 60% da população apoia as medidas sanitárias tomadas pelo governo – que, ao contrário de outros países da Europa, sequer tornou o confinamento obrigatório. Para 28% dos alemães, essas medidas deveriam ter sido ainda mais rigorosas. Apenas 10% consideram que a política adotada foi exagerada.

    Embora o percentual seja pequeno, esses grupos exercem pressão cada vez maior nas ruas, chamando atenção da imprensa internacional tanto por sua pauta excêntrica quanto pelo potencial de descambar para atos de maior gravidade, como a tentativa de entrada à força no Parlamento alemão.

    Presença de neonazistas

    De todos os protestos europeus contra as políticas sanitárias ligadas à covid-19, o caso da Alemanha é o que mais chama a atenção. Isso acontece por causa da presença de grupos de extrema direita – alguns deles abertamente neonazistas – durante as manifestações.

    No protesto anterior, em abril, Martin Schröeder, doutor em sociologia e professor na Universidade de Marburgo, na Alemanha, já advertia, em entrevista ao Nexo que “está claro que existe um grande número de pessoas tentando capturar o movimento, especialmente extremistas de direita”.

    No protesto mais recente, em 29 de agosto, isso se tornou mais claro quando militantes do movimento Reichsbürger – cujos membros rejeitam a atual configuração da República Federal Alemã, e exaltam o antigo Reich que vigorou no período imperial e foi reabilitado por Adolf Hitler no século 20 – exibiram suas bandeiras em praça pública, em Berlim.

    “Símbolos nazistas, assim como bandeiras do Reichsbürger e da Alemanha Imperial não têm lugar no Bundestag [a Câmara do Parlamento Alemão]”, disse Olaf Scholz, vice da chanceler Angela Merkel.

    Teorias conspiratórias

    Além dos membros Reichsbürger, militantes e simpatizantes do partido de extrema direita AfD (Alternativa para a Alemanha) também participaram da marcha, além de um grupo conspiracionista chamado Querdenken 711 (Pensadores Não-Conformistas 711), fundado por um microempresário do ramo de softwares chamado Michael Ballweg, da cidade de Stuttgart.

    Outra presença marcante é a de seguidores de Attila Hildmann, um influenciador das redes sociais que começou dando receitas veganas e converteu-se num dos maiores vetores de teorias conspiracionistas de extrema direita no país.

    Em artigo publicado no jornal americano The New York Times no dia 31 de agosto, a jornalista Anna Sauerbrey, especialista na cobertura da política e da cultura alemã, classificou as manifestações como uma “escalada aterrorizante” num contexto em que “há pouco contra o que protestar”, à medida que o governo alemão é um dos que menos restrições impôs à população durante a pandemia.

    Sauerbrey nota nos discursos de líderes como Ballweg e Hildmann elementos em comum com grupos conspiracionistas americanos de extrema direita como o QAnon, que espalha teses infundadas por meio das quais atribui à imprensa, à academia e a líderes políticos que não sejam de extrema direita um plano espúrio para controlar o mundo, que envolve comunismo e pedofilia.

    Alastramento pelas ruas

    Em cada país europeu, essa onda se manifesta com nuances locais que diferem entre si. Na Irlanda, no dia 22 de agosto, manifestantes saíram às ruas de Dublin, puxados por um grupo que se chama Coletes Amarelos Irlanda, em alusão ao grupo francês de mesmo nome.

    Na Espanha, os protestos são coordenados pelo movimento Stop Confinamento, que diz rechaçar o “confinamento criminoso” imposto pelo governo e à “nova ordem mundial”.

    Na França, por exemplo, houve contestações à polícia no início da pandemia, ainda em março. Moradores da periferia consideraram que o Estado agia com mais rigor nessas regiões, ao impor o uso de máscaras e proibir aglomerações, enquanto a mesma imposição não ocorria nos bairros centrais.

    Mais recentemente, em agosto, a imprensa local registrou o que foi classificado na França como o primeiro protesto contra o uso de máscaras no país. De acordo com a agência de notícias France Presse, 300 pessoas se juntaram na capital para reclamar “do uso do medo como uma ferramenta política”.

    O país prevê aplicação de multa equivalente a R$ 876 (135 euros) para quem anda sem máscara na rua. É raro, entretanto, que isso aconteça, sobretudo depois da passagem da primeira onda de contaminação, que começou a arrefecer em junho.

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