A queda histórica do PIB do Brasil na pandemia sob análise

Atividade recuou 9,7% em relação ao início do ano. Ao ‘Nexo’, economistas comentam o que os números revelam sobre o país hoje e quais as perspectivas de retomada

    A economia brasileira sofreu um tombo histórico no segundo trimestre de 2020, em meio à pandemia do novo coronavírus. O PIB (Produto Interno Bruto) recuou 9,7% em relação ao primeiro trimestre do ano. O número foi divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) na terça-feira (1°).

    9,7%

    foi a queda do PIB no segundo trimestre de 2020, na comparação com os primeiros três meses do ano

    Em relação ao mesmo período de 2019, a queda foi ainda mais profunda, de 11,4%. Em ambas comparações, é a pior queda da série histórica do IBGE, iniciada em 1996.

    O instituto também revisou para baixo o resultado do primeiro trimestre do ano. Originalmente, havia sido divulgada uma queda de 1,5% em relação ao trimestre anterior. O novo valor registrado é um recuo de 2,5%. É comum que o IBGE reveja os números de períodos passados. No semestre, a queda acumulada foi de 5,9% em relação ao mesmo período do semestre passado.

    O TOMBO EM 2020

    Variações trimestrais do PIB do Brasil. 2020 com duas quedas fortes, mas a do segundo trimestre muito maior do que qualquer outra.

    O PIB é o resultado da soma de todos os novos bens e serviços produzidos em um país em certo período de tempo. Por ser um indicador de quanto e como a economia produziu naquele intervalo, o PIB aponta se a atividade econômica expandiu, encolheu ou se manteve igual na comparação com outros momentos.

    A comparação histórica

    Na série histórica do IBGE, iniciada em 1996, nunca houve um trimestre tão ruim quanto o segundo de 2020. Antes dele, o pior período registrado havia sido o final de 2008, quando o PIB caiu 3,8%, acompanhando o movimento internacional em meio à crise financeira global.

    O segundo trimestre de 2020 também foi o pior da série na comparação com o mesmo período do ano anterior. Nessa ótica, a queda mais acentuada registrada havia sido no final de 2015, quando houve retração de 5,5% em relação a um ano antes. Naquele momento, o Brasil passava por uma recessão profunda, que durou do segundo trimestre de 2014 ao final de 2016, de acordo com o Codace.

    MAIOR QUEDA DA SÉRIE

    Variação trimestral do PIB do Brasil, de 1996 a 2020. 2020 com duas quedas fortes, mas a do segundo trimestre muito maior do que qualquer outra na série inteira.

    A crise da pandemia do novo coronavírus atingiu uma economia brasileira ainda frágil, que não havia se recuperado plenamente da recessão de 2014 a 2016. Com o resultado do PIB do segundo trimestre de 2020, a economia brasileira voltou ao patamar de 2009, perdendo todo o crescimento da década de 2010.

    Em 2020, o país está em recessão, em uma crise que deve se desenhar como uma das piores de sua história. Em junho, o Codace (Comitê de Datação de Ciclos Econômicos, ligado à Fundação Getulio Vargas), comunicou que o país havia entrado em recessão no primeiro trimestre do ano. O comitê se responsabiliza por identificar, no Brasil, os períodos de expansão e recessão da economia.

    O PIB brasileiro destrinchado

    A queda histórica do PIB do Brasil no segundo trimestre foi puxada pela indústria. O setor recuou 12,3% em relação ao primeiro trimestre. O resultado foi aprofundado pela indústria de transformação, que registrou tombo nas atividades de montadoras de carros, indústrias têxteis e fábricas de máquinas e equipamentos.

    12,3%

    foi a queda da indústria no segundo trimestre de 2020, na comparação com os primeiros três meses do ano

    Os serviços, que têm o maior peso sobre o PIB, tiveram também resultados ruins, registrando queda total de 9,7%. Em linha com o que já apontavam outros dados lançados mensalmente pelo IBGE, os serviços ligados a transporte e aqueles prestados às famílias tiveram as quedas mais fortes, pouco abaixo de 20%. O comércio, por sua vez, teve retração de 13%, menos acentuada que as demais.

    9,7%

    foi a queda dos serviços no segundo trimestre de 2020, na comparação com os primeiros três meses do ano

    Já a agropecuária, que responde por uma parcela bem menor do PIB – em torno de 5% –, teve crescimento de 0,4%.

    O lado da demanda

    Outra maneira de medir o PIB é pela ótica da demanda. Tudo o que os setores de serviços, indústria e agropecuária produzem é consumido pelo outro lado (o da demanda interna) ou vendido para o exterior.

    Por essa ótica, o pior resultado registrado veio nos investimentos. A “formação bruta de capital fixo” – nome técnico dado aos investimentos – caiu 15,4% em relação ao começo do ano.

    O consumo das famílias também recuou consideravelmente, com queda de 12,5% em relação ao primeiro trimestre. Por mais que tenha sido forte, o tombo poderia ter sido pior sem o auxílio emergencial de R$ 600, que teve amplo alcance dentro da população brasileira e impediu milhões de pessoas de entrarem em situação de pobreza ou extrema pobreza.

    Duas análises sobre o PIB

    O Nexo conversou com economistas para entender o que o PIB do segundo trimestre revela sobre a economia brasileira no contexto da pandemia:

    • Emerson Marçal, coordenador do Centro de Macroeconomia Aplicada da EESP-FGV (Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas);
    • Débora Freire, professora de economia do Cedeplar-UFMG (Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da Universidade Federal de Minas Gerais).

    O que o número do PIB do segundo trimestre de 2020 diz sobre a economia brasileira na pandemia?

    Emerson Marçal A queda foi um pouco mais forte do que o mercado estava esperando. Essa queda do segundo trimestre não foi tão grande, se comparada com alguns países, principalmente europeus. Parte disso vem dos efeitos do auxílio emergencial do governo, que representou um volume muito grande de recursos e evitou uma queda ainda maior.

    Os países que tiveram menor queda foram os países que conseguiram de alguma forma controlar a epidemia ou já estavam preparados para isso, como alguns asiáticos. Um exemplo é a Coreia do Sul, que teve uma queda de PIB, mas com um resultado bem menos ruim na comparação com o brasileiro.

    A queda, por qualquer padrão histórico, é um dos piores resultados em muito tempo. Olhando para trás, não conseguimos achar nada parecido. O resultado, então, é bem pesado e bem negativo. A questão agora é se você vai retomar atividade ou não, e como vai retomar.

    O dado do consumo das famílias é um dado importante em momentos de crise. Ele caiu bastante, mais do que a média do PIB. Isso indica que as famílias sentiram o tranco e reduziram bastante o consumo. Pode ser um indicador de que as famílias estão vendo a situação com pessimismo, porque ajustaram fortemente seu padrão de consumo.

    Débora Freire É uma crise que atinge tanto oferta quanto demanda. Afeta a demanda porque as famílias ficam em casa e deixam de consumir uma parte de produtos e bens, e afeta a oferta porque temos dificuldades na produção dos bens, por se tratar de uma crise sanitária. A queda era esperada, exatamente pela paralisação das atividades produtivas que vimos. Ela foi menor do que em outros países da América Latina, como México e Peru, exatamente por conta dos estímulos fiscais.

    Podemos apontar que o principal instrumento que deu certo para atenuar os efeitos da pandemia foi o auxílio emergencial. Essa queda só não foi maior por conta dos impactos do auxílio, que estimulou o consumo em setores como alimentação e farmácias. Sem ele, teríamos uma queda maior do que 9,7%.

    Em termos setoriais, a queda no PIB ocorreu principalmente por conta dos serviços. O setor retraiu muito, principalmente nos serviços pessoais, prestados às famílias, como turismo e recreação. É um setor com bastante peso no PIB e no emprego. Esse setor pode ter uma dificuldade maior para se recuperar, dado que ainda temos uma situação muito incerta quanto ao vírus. Essa dificuldade é muito problemática, porque é um setor que emprega muita mão de obra, especialmente a pouco qualificada. Então, podemos ter um impacto distributivo perverso e importante se a recuperação desse setor for lenta.

    Podemos dizer também que do lado das empresas, os instrumentos não foram exitosos, principalmente os instrumentos de crédito. As empresas estavam e continuam com muita dificuldade de acessar crédito. Isso pode ser um problema, inclusive, para a recuperação. Muitas empresas fecharam e, quando sairmos desse período, haverá muitas empresas com situação financeira delicada, que não conseguiram acessar crédito e que demitiram funcionários. Para termos reabertura de empresas e recontratação de profissionais, isso demora muito tempo.

    O que podemos esperar pela frente, no curto e no médio prazo?

    Emerson Marçal Os dados sugerem que as famílias estão mais pessimistas, o que coloca em dúvida a velocidade da qual vamos sair desse tombo. Eu tendo a ser mais pessimista, acho que vamos sair em uma velocidade mais lenta do que as pessoas estão achando.

    Acho que o terceiro trimestre ainda vai ser um trimestre difícil, e começamos a ter uma recuperação maior a partir do quarto trimestre. Mas tudo depende do que acontecerá em relação à emergência médica, e há muitas incertezas.

    Se as coisas continuarem na atual tendência, deve ocorrer um começo de retomada um pouco mais forte no quarto trimestre, o que faria com que o número deste ano fosse bem pior do que as pessoas estão pensando.

    Precisamos olhar para frente com um certo cuidado sobre a velocidade da retomada. [A pandemia] é um evento único na história: é difícil achar uma queda tão forte e tão geral, no mundo inteiro, ao mesmo tempo. Devemos começar a ter alguma retomada lá na frente, quando a situação médica se normalizar. A situação é dura, mas acho que haverá uma retomada.

    Débora Freire Vai depender muito da ação do governo. No curto prazo, temos ainda uma situação muito instável, de muita incerteza quanto ao próprio vírus. Essa incerteza inibe o investimento, muito embora tenhamos taxas de juros mais baixas.

    Outra característica é que o investimento precisa de perspectiva de rentabilidade. E isso vai ficar muito complicado com a eliminação ou diminuição dos incentivos. Por exemplo, o governo não colocou para o Orçamento de 2021 o Renda Brasil, que não sabemos se vai acontecer e com qual valor. Quando os auxílios forem sendo diminuídos – principalmente o auxílio emergencial, que foi uma política muito expressiva –, veremos de fato a face cruel dessa crise, que é o desemprego e a recuperação lenta que tende a acontecer no mercado de trabalho. Tende a haver uma perspectiva muito ruim de rentabilidade das empresas se estivermos com desemprego muito elevado, e se o governo não estiver dando nenhum tipo de estímulo fiscal para estimular o consumo.

    A perspectiva de médio prazo depende também dos estímulos fiscais no próximo ano. É difícil pensar o próximo ano com um espaço fiscal muito limitado, que não permita ao governo usar política anticíclica [de ampliação de gastos frente à retração econômica]. Acredito que as políticas anticíclicas serão fundamentais ainda no próximo ano, e não apenas até o final de 2020, como o governo muitas vezes parece sinalizar. Se tivermos estímulos fiscais muito limitados ou até mesmo inexistentes, a tendência de uma depressão econômica é bastante forte, principalmente porque já vínhamos de um período muito complicado, com uma recuperação muito lenta.

    Do mesmo modo, acredito que outras medidas seriam importantes para o médio prazo. Como a melhora dos custos de produção que poderia ser alcançada, por exemplo, com uma reforma tributária. O médio prazo também depende de melhorar a situação das empresas, que vão sair desta crise muito endividadas; depende de uma política de crédito mais efetiva para as empresas.

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