O uso de testes para pensar a volta às aulas presenciais

Cidade de São Paulo adia retorno depois de checar índices de covid-19 entre alunos e professores. Iniciativas também são realizadas na Bahia, no Ceará e em Santa Catarina

No Brasil e em outros países uma das estratégias que vêm orientando autoridades da educação para a retomada das aulas é a realização de testes de covid-19 em alunos e professores. Por meio de exames, é possível ter um ideia do alcance do novo coronavírus e avaliar a viabilidade da reabertura das escolas.

Na cidade de São Paulo, o retorno às atividades presenciais foi adiado pela prefeitura depois que testes sorológicos, o tipo mais simples, revelaram um aumento de casos, assim como um baixo índice de estudantes com anticorpos contra o novo coronavírus, ou seja, que ainda não tinham entrado em contato com a doença. Menos de 20% dos cerca de 6.000 alunos testados tinham anticorpos para o vírus. Destes, 69,5% não apresentavam sintomas da doença.

O retorno às aulas presenciais na capital paulista havia sido previsto para 8 de setembro pelo governo estadual, mas a decisão final cabia aos municípios. Na segunda-feira (31), o secretário municipal de educação de São Paulo, Bruno Caetano, declarou que a prefeitura deve decidir até 20 de setembro se as aulas no município serão retomadas em 7 de outubro.

Uma das principais preocupações de pais de alunos, educadores e autoridades é a possibilidade de estudantes se infectarem na escola, não desenvolverem a doença e levarem o vírus para membros idosos da família que estão em casa. Segundo a prefeitura, 26,3% dos alunos da rede municipal moram com idosos.

São Paulo deverá realizar a terceira fase do programa de testes na rede municipal até o dia 15 de setembro. O levantamento apontou aumento da prevalência de ocorrências de anticorpos entre a primeira e a segunda fase, com o índice subindo de 16,1% para 18,3%.

Só a terceira fase, só o terceiro inquérito realizado com as crianças vai confirmar se há um aumento, se nós vamos estar com 19% ou 20%, ou o mesmo número. Ainda é muito cedo para cravar que é um aumento da prevalência na cidade de São Paulo, afirmou o prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB).

Os exames permitiram visualizar recortes de raça e classe com relação aos alunos que tiveram contato com o novo coronavírus. A prevalência de casos apareceu como maior entre pretos e pardos (20%) do que em brancos (16,1%). Entre estudantes das classes D e E, o índice foi de 19,5% contra 15,5% de estudantes na classe C. Não houve ocorrência de casos nas faixas A e B, que têm poucos alunos na rede municipal.

Um trabalho publicado na revista médica britânica The Lancet sugeriu que apenas por meio de altos índices de testagem de pessoas sintomáticas (entre 59% e 87%), além de rastreamento de contatos de alunos e isolamento, é possível assegurar um retorno às aulas com baixa probabilidade de ocorrer um novo surto.

A testagem nas escolas baianas

O governo do estado da Bahia anunciou a realização de testes em alunos, professores e funcionários de 12 unidades de ensino da rede estadual numa região de Salvador conhecida como subúrbio ferroviário, área periférica da capital baiana com cerca de 300 mil habitantes. O exame realizado será o RT-PCR, feito por meio de cotonetes que coletam secreção do nariz e garganta, e considerado mais preciso.

Segundo o governador Rui Costa (PT-BA), a testagem tem previsão de alcançar uma comunidade escolar de 11.103 pessoas, sendo 10.392 estudantes, 224 funcionários e 487 professores.

Na sexta-feira (28), o prefeito de Salvador, ACM Neto (DEM-BA), descartou o retorno às aulas na capital em setembro. “Neste momento, a gente ainda não tem conforto e segurança, e há uma unanimidade nos comitês municipal e estadual que não dá para pensar agora em retomada do ano letivo”, disse.

Testes sorológicos realizados em escolas no interior do estado, nas cidades de Ilhéus, Itabuna, Ipiaú, Itajuípe, Uruçuca e Jequié, mostraram índices de contaminação entre os estudantes muito superiores à média da população. De acordo com o governador, Ilhéus e Itabuna registraram, respectivamente, índices de 24% e 22% de resultados positivos entre os estudantes. Em média, a taxa de contaminação entre alunos dessas cidades foi de 12%.

No Ceará e em Santa Catarina

Na Grande Fortaleza, professores e funcionários de estabelecimentos particulares de ensino da educação infantil serão testados para a covid-19. As creches e pré-escolas privadas receberam autorização do governo do Ceará para retomar as aulas presenciais a partir de terça-feira (1º). O tipo de teste será o RT-PCR.

Posteriormente, os testes serão estendidos a professores e funcionários de escolas públicas. Isso deverá acontecer mais próximo da data da reabertura da rede pública de ensino, que ainda não tem data definida pelo governo estadual.

Em Joinville, Santa Catarina, um programa de testagem na rede municipal pretende examinar, em diferentes etapas, diretores, professores e uma amostra dos 70 mil alunos.

A reabertura em Manaus

O reinício das aulas do ensino médio na rede pública de Manaus, em 10 de agosto, foi um movimento pioneiro na retomada das atividades escolares no país. A experiência serviu para mostrar os riscos trazidos pelo retorno das aulas presenciais.

Em duas semanas desde o recomeço das aulas, um terço dos professores do ensino médio das escolas públicas apresentaram resultados positivos para o novo coronavírus. Em números, foram 342 professores de um total de 1.064 profissionais.

Com o surto, o governador Wilson Lima (PSC) adiou por tempo indeterminado o retorno dos estudantes do ensino fundamental, que tinham sua volta às aulas inicialmente agendada para 24 de agosto.

Experiências no exterior

Nos Estados Unidos, o Distrito Escolar Unificado de Los Angeles, anunciou que irá testar cerca de 600 mil alunos e 75 mil funcionários para avaliar o impacto da covid-19. A testagem será estendida para familiares de alunos e pessoal das escolas que tiverem resultado positivo no diagnóstico. Não há previsão para o retorno das aulas presenciais na área, que seguirá com o ensino online.

De acordo com as autoridades de saúde de Los Angeles, na segunda-feira (31), a cidade registrava uma média de 1.262 novos casos de covid-19 e 32 novas mortes por dia. A Califórnia é o estado americano com maior número de casos nos Estados Unidos, totalizando 6 milhões.

Segundo dados de associações de pediatria e hospitais infantis do país, pelo menos 97 mil crianças apresentaram testes positivos para o novo coronavírus nas duas últimas semanas de julho de 2020, um aumento de 40% no total de casos entre crianças até então.

No entanto, o CDC (Centro para Prevenção e Controle de Doenças) “não recomenda” realizar testagem extensiva em escolas pois não há comprovação científica de que a medida pode reduzir a transmissão. Além disso, o órgão citou obstáculos para sua realização como recursos, consentimento dos pais e privacidade dos estudantes.

Já a Itália, que chegou a ser epicentro mundial do vírus, pretende testar aproximadamente dois milhões de professores e funcionários de sua rede de ensino. Por lá, a medida vem na esteira de protestos de diretores de escola que temem ser processados na Justiça no caso de alunos se infectarem por covid-19 nas escolas. O país planeja reabrir a rede escolar em 14 de setembro.

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