As pesquisas que mostram o impacto neurológico da covid-19

Cientistas avançam no entendimento do que leva pacientes com o novo coronavírus a ter problemas como perda de olfato e paladar, confusão mental e derrames

    A covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, foi descrita inicialmente como uma síndrome respiratória. Após alguns meses de pandemia, no entanto, ficou claro para pesquisadores que essa classificação não era suficiente para abarcar todos os seus possíveis impactos no organismo de uma pessoa infectada.

    De forma crescente, surgiram evidências e pesquisas que examinam os efeitos da doença em partes do corpo como os rins, intestino e os sistemas circulatório e nervoso central.

    Um novo estudo de dois pesquisadores italianos da Clínica de Neurologia da Universidade de Brescia revela que manifestações neurológicas que podem estar relacionadas ao vírus estão entre os principais sintomas fora do sistema respiratório. De acordo com os autores, essa associação vem sendo relatada com cada vez mais frequência em artigos e estudos.

    Publicado na segunda-feira (24), o estudo revisou dezenas de itens de literatura científica que abordam a relação entre a covid-19 e ocorrências neurológicas. Os autores apresentam evidências de pesquisas pré-clínicas (um estágio anterior à investigação em humanos) de que a covid-19 pode ser responsável por essas manifestações e resumem os percursos biológicos que podem estar por trás de cada sintoma neurológico.

    O artigo lembra que os coronavírus que causaram as epidemias de Mers (síndrome respiratória do Oriente Médio) e Sars (síndrome respiratória aguda grave) também reconhecidamente atuam nos sistemas nervosos central e periférico. Na visão dos pesquisadores, entender os mecanismos que resultam nessas manifestações neurológicas em pacientes da covid-19 é um caminho para o desenvolvimento de estratégias de tratamento.

    Tipos de manifestações neurológicas

    De acordo com os pesquisadores, essas ocorrências neurológicas variam de sintomas não-específicos da covid-19, como fraqueza muscular, tontura ou dor de cabeça, a sintomas mais específicos. É o caso de anosmia e ageusia (termos médicos para a perda do olfato e perda do paladar), confusão mental, encefalopatia (termo usado para doenças que influenciam no funcionamento ou estrutura do cérebro), convulsões ou derrame (com destaque para isquemia cerebral aguda). A maior parte dos sintomas específicos, com exceção das perdas de olfato e paladar, foram reportados em indivíduos que desenvolveram quadros graves de covid-19.

    Entre os relatórios analisados, estão dados de centros clínicos e hospitais na China, EUA, Espanha e Turquia. A porcentagem de pacientes com sintomas neurológicos variou bastante. Na primeira leva de casos em Wuhan, na China, 78 de 214 pacientes (36,4%) apresentaram manifestações neurológicas. Na Espanha, em um registro com informações de dois hospitais, o índice foi de 57,4%. Já em Chicago, nos EUA, a taxa foi de 7,7%.

    Os neurologistas advertem, no entanto, que é necessário ter cuidado com os números pois não há uma definição padronizada para “sintomas neurológicos”, o que pode levar à variabilidade entre os estudos. Por exemplo, um relatório chinês que apresentou um índice de apenas 4,2% de ocorrências neurológicas não levava em conta sintomas não-específicos como dor de cabeça, fadiga e tontura, incluídos em outros conjuntos de dados.

    Alguns dados de exames de imagens também contribuíram para o levantamento dos pesquisadores italianos. Segundo os autores, embora ainda sejam escassos os trabalhos baseados em exames de ressonância magnética de pacientes de covid-19, existem diversos indícios de lesões hemorrágicas e lesões cerebrais que podem ter sido ocasionados pelo novo coronavírus.

    Os pesquisadores sugerem três categorias de ocorrências no sistema nervoso central relacionadas à covid-19. Essas categorias se baseiam no que eles presumem que seja o mecanismo envolvido na manifestação neurológica.

    • Sintomas neurológicos que não são diretamente causados pelo vírus em si, mas por doenças pulmonares ou doenças sistêmicas associadas (como síndrome da resposta inflamatória sistêmica, sepse e falência de múltiplos órgãos). Nesta categoria, estão a encefalopatia e o acidente vascular cerebral;
    • Eventos neurológicos causados pela invasão direta do sistema nervoso central pelo vírus. Esta categoria pode incluir encefalite;
    • Manifestações neurológicas ocasionadas por complicações surgidas depois de superada a infecção por covid-19. Relacionadas a distúrbios do sistema imunológico, incluem a síndrome de Guillain Barré e suas variantes, como a ENA (encefalopatia necrotizante aguda) e Adem (encefalomielite aguda disseminada).

    Como o vírus chega ao sistema nervoso

    Em geral, há duas maneiras possíveis de vírus atingirem o sistema neurológico. Na primeira, o vírus se espalha pelo corpo pela corrente sanguínea e acaba conseguindo “atravessar” a chamada barreira hematoencefálica, que separa o sangue do cérebro.

    A segunda alternativa seria a infecção inicial pelo vírus de neurônios no sistema nervoso periférico para, em um segundo momento, chegar ao sistema nervoso central.

    Os pesquisadores lembram que, embora a capacidade do novo coronavírus de invadir o sistema nervoso ainda precise de confirmação científica, diversos estudos oferecem evidências de que isso é possível.

    Um dos primeiros trabalhos a indicar isso foi realizado por pesquisadores japoneses em maio de 2020. Na análise, foi detectada a presença do Sars-CoV-2 no fluido do cérebro espinhal de um paciente com encefalopatia e covid-19. Diversos estudos posteriores também mostraram casos similares. Além disso, há um acúmulo de evidências de que outros coronavírus chegaram ao sistema nervoso de humanos pelas duas rotas descritas acima.

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