O novo aumento da taxa de transmissão do coronavírus no Brasil

Depois de uma semana de queda em meados de agosto, país volta a registrar crescimento, segundo dados do Imperial College de Londres

    Dados da universidade Imperial College, de Londres, divulgados na segunda-feira (24) mostram que o número de reprodução do novo coronavírus no Brasil voltou a subir, depois do registro, na semana anterior, da primeira queda desde abril. O novo número foi calculado com informações consolidadas no domingo (23).

    O número efetivo de reprodução da infecção, conhecido como Rt, revela para quantas pessoas um infectado transmite o vírus. Ele é uma das ferramentas que podem ser usadas pelos gestores públicos para planejar medidas de isolamento social e também suas flexibilizações, como a reabertura de atividades não essenciais.

    Quando o índice é igual a 1, cada pessoa doente está infectando uma outra pessoa. Quando o número fica acima de 1, a quantidade de doentes vai crescer exponencialmente, o que caracteriza uma epidemia. Quando a taxa é 3, por exemplo, cada doente transmite o vírus para outras três pessoas com quem teve contato próximo. Quando o indicador fica abaixo de 1, como registrado na semana iniciada em 16 de agosto no Brasil, a tendência é que haja o desaparecimento da doença. Mas para isso o índice precisa ser mantido, algo que não aconteceu nesta semana.

    VAIVÉM

    1,01

    era a taxa de contágio do novo coronavírus no Brasil na semana iniciada em 9 de agosto, segundo o Imperial College

    0,98

    era a taxa de contágio do novo coronavírus no Brasil na semana iniciada em 16 de agosto, segundo o Imperial College

    1

    é a taxa de contágio do novo coronavírus no Brasil na semana iniciada em 23 de agosto, segundo o Imperial College

    Em abril, o Brasil chegou a ter a maior taxa de contágio do mundo, de 2,81. Isso significava que cada 100 doentes transmitiam o vírus para outras 281 pessoas. Essas 281 infectavam 789, que então transmitiam para 2.217, e assim por diante, num ritmo acelerado.

    O relatório do Imperial College divulgado na segunda-feira (24) afirma que a volta do aumento da taxa de transmissão no Brasil deve ser observada com cautela. Isso porque o Ministério da Saúde passou a registrar casos de infecção diagnosticados por exames de imagem, como tomografia, sem necessidade de confirmação por testes, algo que pode ter levado a um aumento atípico de notificações.

    O que o cálculo leva em conta

    Na epidemiologia, o primeiro índice a ser calculado é o R0 (lê-se “erre zero”), que é a capacidade inerente de transmissão do vírus quando ninguém ainda se tornou imune a ele e nada foi feito para evitar o contágio. O R0 do novo coronavírus varia de 2,5 a 3. Um infectado contamina, em média, de duas a três pessoas.

    Com o desenrolar da pandemia, esse R0 varia. A mudança se deve, por exemplo, à adoção de medidas de prevenção, como o distanciamento e o isolamento social e o uso de máscaras, já que o número de contatos do infectado é considerado no cálculo. O índice também leva em consideração o risco de transmissão em cada contato realizado e o tempo médio em que um doente pode transmitir o vírus.

    Em seus cálculos, em vez de usar o número de casos registrados da doença, o Imperial College se baseia na quantidade de mortes, que está menos sujeita a subnotificações. A instituição estima que o Brasil registra oficialmente apenas dois terços de todos os casos de covid-19. O restante fica de fora das estatísticas por falta de testes.

    A maneira como o R0 se comporta no tempo dá origem ao Rt, o número efetivo de reprodução da infecção. Ele muda constantemente, e uma variação aparentemente pequena em seu número na verdade pode significar centenas de milhares de novos casos numa cidade populosa como São Paulo.

    Para os epidemiologistas, medidas de flexibilização das quarentenas só deveriam ocorrer com o Rt abaixo de 0,8 ou 0,7, por exemplo. Muitos países europeus só voltaram a reabrir atividades não essenciais 40 dias após o pico de contágio, quando a doença já estava sob controle e os indicadores vinham caindo.

    No Brasil, a maioria dos estados autorizou a retomada do comércio a partir de junho mesmo com os casos e óbitos ainda em alta. Desde junho, a pandemia no país se estabilizou com uma média de mil mortos pela covid-19 por dia. O Brasil fica atrás apenas dos Estados Unidos em número total de casos e óbitos pela doença.

    3.717.156

    casos de covid-19 haviam sido confirmados no Brasil até quarta-feira (26), segundo o Ministério da Saúde

    117.665

    era o número de mortos pela doença no país até a mesma data, de acordo com o órgão

    Epidemiologistas lembram que o número medido pelo Imperial College serve para o Brasil todo, mas a realidade da pandemia é diferente em cada região do país. Enquanto estados que sofreram mais com a doença no início conseguiram estabilizar o número de casos e mortes e até apresentar alguma queda, a covid-19 ainda avança em outras regiões.

    Especialistas lembram também que o país continua sem uma política de ampla testagem e rastreamento de contatos dos doentes. Identificar, tratar e isolar doentes, e descobrir com quem eles entraram em contato para pôr em quarentena as pessoas mais próximas e cortar, assim, a cadeia de transmissão do vírus é justamente a maneira mais eficaz de frear a taxa de contágio.

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