A influência dos Racionais MCs no ativismo da periferia

Nova versão de ‘Voz ativa’, música lançada originalmente em 1992, conversa com um contexto de luta que foi fortemente inspirado pelo trabalho do grupo de rap

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    A música “Voz ativa” é um clássico do início da carreira dos Racionais MCs. Foi lançada em 1992, parte do EP “Escolha seu caminho”. Sua mensagem procura incentivar a confiança e o potencial das pessoas negras, lembrando ao ouvinte que “mais da metade do país é negra e se esquece/Que tem acesso apenas ao resto que ele oferece”.

    Uma nova versão da faixa foi lançada em 21 de agosto, em interpretação dos rappers Dexter, Djonga e Coruja BC1. No começo do videoclipe, uma mensagem lembra que a música original foi composta quando a Zona Sul de São Paulo era “considerada pela ONU o lugar mais violento da Terra” e que, de lá para cá, “pouca coisa mudou”.

    Dirigido por João Wainer, o clipe traz imagens de protestos contra assassinatos recentes de negros por policiais, como o americano George Floyd e o adolescente brasileiro João Pedro Mattos. Em agosto de 2020, um relatório da Rede de Observatórios da Segurança, grupo que pesquisa a violência nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Ceará e Pernambuco, apontou que 75% das pessoas mortas pela polícia são negras.

    “Me preocupo muito com o futuro, com o que está acontecendo com aquilo que veio da periferia e é nosso. Isso me despertou o interesse em resgatar algo do passado que pudesse conversar com as pessoas sobre a responsabilidade de ser e fazer”, afirmou Dexter ao site Alma Preta sobre as motivações para a regravação.

    A proposta dos Racionais

    Ao site Alma Preta, o rapper Mano Brown, dos Racionais, explicou que se inspirou em textos do ativista antirracista Malcolm X para compor “Voz ativa”. “A letra sou eu conversando com ele no livro, dizendo que aqui no Brasil as coisas estavam do mesmo jeito, mas que agora o negro tinha voz ativa e disposição de lutar”, afirmou.

    O americano, assassinado em 1965, foi uma influência chave para a proposta dos Racionais. Malcolm X também foi uma fonte primordial para as ideias do grupo de rap americano Public Enemy, referência importante para os Racionais quando surgiram, em 1988.

    “Quando li Malcolm X, senti que era negro mesmo”, disse Brown à revista Rolling Stone em 2013. As coisas começaram a fazer sentido. Foi um murro na cara. Eu pensava: ‘Vou ser igual ao Malcolm X. Quero ser o Chuck D’ [rapper do Public Enemy].”

    Naquela década, como resultado de uma urbanização descontrolada, a periferia de São Paulo vivia a intensificação de problemas como índices de violência e carência de serviços públicos.

    O Capão Redondo, bairro em que surgiram os Racionais, era palco da atuação de policiais justiceiros que matavam jovens negros com a justificativa de que seriam criminosos. Ali perto ficava o Jardim Ângela, apontado pela ONU (Organização das Nações Unidas) como o lugar mais violento do planeta, com uma taxa anual de 116,23 assassinatos para cada 100 mil habitantes em 1996.

    A música “Pânico na Zona Sul”, estreia dos Racionais em disco, de 1988, traz uma letra que acusa a polícia de ser conivente com os crimes dos “justiceiros que matam, humilham e dão tiros a esmo”.

    Para além da denúncia e das crônicas “do inferno”, a mensagem dos Racionais também procurava elevar e enaltecer a potência do indivíduo periférico. “Aos seus ouvintes, os Racionais ofereceram não só identificação, mas também propostas de saída para esse desafio, na forma de batidas e rimas. Com reflexão e sentimento”, escreveu no Nexo Gabriel Gutierrez, mestre em ciência política pelo Iuperj (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro) e pesquisador do Centro de Arte e Cidade da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro).

    Ativismo da periferia

    O movimento hip hop ocupou lugar central na construção de uma nova identidade periférica em São Paulo na década de 1990. Essa identidade era orgulhosa da origem, empreendedora e socialmente consciente, e concretizava-se por meio de iniciativas que vão desde a marca de roupas 1dasul, do escritor Ferréz, à Cooperifa (Cooperativa Cultural da Periferia), do poeta Sérgio Vaz.

    “Há muitos tipos de rap, mas o rap de verdade tem um lado mais político. O rap ligado ao hip hop fala de autoestima, do valor das pessoas de um modo positivo”, explicou o rapper pioneiro Thaíde, em entrevista à Folha de S.Paulo em 1999.

    Em entrevista de 2011, Preto Zezé, presidente da Cufa (Central Única das Favelas) lembrou a maneira como foi impactado pela faixa “Negro limitado”, dos Racionais MCs, do mesmo EP que contém “Voz ativa”. “Até falei pro Mano Brown quando conheci ele: cara, você fez aquela música pra mim! O cara falava pro preto que o preto não escutava, chamava ele de otário. Aí, pronto, foi o transtorno. Aí vem Malcolm X, o interesse pela leitura”, disse à revista Carta Capital. Uma das primeiras iniciativas em que Zezé se envolveu foi a criação de um projeto de assistência a usuários de drogas chamado Rapterapia.

    Na esteira da mensagem consciente do rap, em especial dos Racionais, a década de 1990 viu o surgimento das chamadas “posses”, coletivos que unem criação artística e ações sociais. A primeira foi a Aliança Negra, de Cidade Tiradentes, que em 2000 se tornou uma ONG (Organização Não-Governamental) e continua na ativa em 2020. Outro nome importante foi a Conceitos de Rua, que reunia os grupos ZÁfrika Brasil, Conclusão Final e Face Original.

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