Qual a potência do discurso bolsonarista na eleição municipal

Cientista política explica ao ‘Nexo’ quais podem ser os impactos da associação entre o presidente da República e pré-candidatos que disputam seu espólio eleitoral

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Jair Bolsonaro está sem partido desde que deixou o PSL, em novembro de 2019, após atritos com Luciano Bivar, que comanda nacionalmente a sigla. Os atritos ocorreram em meio às suspeitas de utilização de candidaturas laranjas nas eleições de 2018. O presidente ensaiou a construção do Aliança Brasil, mas o projeto não conseguiu se viabilizar a tempo das eleições municipais.

A ausência do Aliança Brasil dilui bolsonaristas em outros partidos no pleito marcado para 15 de novembro. O presidente já disse que não pretende apoiar ninguém abertamente. Ainda assim, candidatos da direita e extrema direita tentam se associar ao governo federal.

Em 2018, Bolsonaro chegou ao Palácio do Planalto apostando em pautas como o uso de armas pela população, no aumento do uso da força policial como solução para a violência, entre outros temas. As proposições acabaram encampadas por outros candidatos, que surfaram a onda bolsonarista e conquistaram cargos importantes, como os governadores Romeu Zema (Novo), em Minas Gerais, e Wilson Witzel (PSC-RJ), no Rio de Janeiro, ambos novatos na política.

Nas eleições municipais de 2020, alguns pré-candidatos já dão sinais de que pretendem se aproximar de Bolsonaro. Em São Paulo, por exemplo, nomes como Andrea Matarazzo, do PSD, e Filipe Sabará, do Novo, apontam para essa tendência. Ex-tucano, Matarazzo já disse que “não vai rejeitar” apoios e que o futuro prefeito precisa “se dar bem” com o presidente. Sabará afirmou ser “direita raiz”. Segundo jornal Folha de S.Paulo, nenhum desses nomes empolga aliados do presidente.

No Rio de Janeiro, o prefeito Marcello Crivella, do Republicanos, vai tentar reeleição num momento de aproximação da família Bolsonaro. Seu partido abriga o primogênito do presidente, o senador Flávio Bolsonaro. O deputado federal Otoni de Paula (PSC), desafeto do governador Witzel e aliado de Bolsonaro, cogita se candidatar.

Em Minas Gerais, o deputado estadual Bruno Engler, que se elegeu pelo PSL, mas hoje está no PRTB, partido do vice-presidente Hamilton Mourão, é o candidato do presidente, segundo o jornal O Estado de Minas. Além dele, disputam o eleitorado bolsonarista o deputado federal Lafayette Andrada (Republicanos) e o candidato do Novo, Rodrigo Paiva, que conta com o apoio do governador do estado.

Para entender qual pode ser o impacto do discurso bolsonarista e da associação com o presidente nas eleições municipais, o Nexo conversou com a antropóloga e cientista política Isabela Kalil, pesquisadora da Escola de Sociologia e Política e do Observatório da Extrema Direita.

É uma boa estratégia para candidatos à direita e mesmo à extrema direita se associarem com Bolsonaro nas eleições municipais?

Isabela Kalil Não é preciso necessariamente se associar ao Bolsonaro. É possível que muitos políticos adotem a estratégia do presidente, com defesa de pautas da segurança pública, baseados na atuação militarizada de Bolsonaro, e também com temas ligados à religião. Essa combinação se provou muito eficiente no Brasil nas últimas eleições e deve se repetir entre os candidatos que estão mais próximos das ideias do presidente.

Esse discurso tem potência mesmo numa eleição cujos cargos em jogo tratam de questões locais?

Isabela Kalil Sim, esse discurso tem potência. Eu fiz um trabalho recente mapeando leis municipais sobre a ideologia de gênero e o Escola Sem Partido. Esse tipo de matéria não pode ser discutida em uma Câmara Municipal, porque é algo que deve ser debatido em âmbito federal, mas os vereadores se detiveram sobre o tema. Ou seja: não significa ter uma atitude do ponto de vista prático, no campo político de fato, mas realizar a manutenção desse debate, do apoio dele decorrente e do voto que advém daí.

Quais questões de competência municipal passam pelo discurso da direita e da extrema direita?

Isabela Kalil Algumas coisas. Na educação, com o ensino básico nas creches, por exemplo, há uma intensificação do discurso sobre a família, com os alunos e os pais. Há essa glorificação dos valores, do perigo da pedofilia se determinadas crenças não forem seguidas. É um discurso que incide sobre a população.

Já na segurança pública, isso fica mais complicado, porque as polícias são administradas pelos estados. Existem as guardas municipais, mas elas não têm a mesma estrutura e têm menor visibilidade perante a população. Ainda assim, muitos políticos utilizam esse discurso militarizado, que é abstrato no caso do candidato a prefeito, para mobilizar apoiadores interessados no tema.

A promessa de Bolsonaro de não se envolver com as eleições municipais diretamente pode ter qual impacto nos candidatos que assumirem seu discurso?

Isabela Kalil Depende. O que pode acontecer é que determinados políticos utilizem Bolsonaro ou a performance do presidente para ter apoio. Mas isso não tem a ver com o apoio formal de Bolsonaro. Isso esteve presente nas eleições de 2018. Basta estar alinhado ao discurso e estar próximo daquilo que ele representa. Mas ainda é difícil mapear qual pode ser o impacto dessa ausência para os candidatos que assumirem a defesa das suas pautas.

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