O uso da covid-19 para estigmatizar quem volta à Venezuela

Nicolás Maduro diz que cidadãos venezuelanos que retornam da Colômbia são responsáveis por disseminar a pandemia no país

    O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, disse no dia 15 de julho que os “trocheros” são responsáveis por contaminar “boa parte do país” com a covid-19. O nome é dado aos venezuelanos que regressam ao seu país usando trilhas ocultas nos 2.200 quilômetros que separam a Venezuela da Colômbia.

    Desde 2017, 1,8 milhão de venezuelanos migraram para a vizinha Colômbia, fugindo da crise política, econômica e humanitária que assola o país caribenho. A partir de março, com a pandemia da covid-19 se alastrando pelo mundo, muitos começaram a retornar à Venezuela.

    Esse retorno foi motivado pela insegurança sanitária, pela preocupação com a saúde de familiares mais velhos que ficaram no país natal e principalmente pela escassez de trabalho e renda no exterior, à medida que pequenos comércios e o setor de serviços foram prejudicados com as prolongadas quarentenas decretadas para conter a circulação do vírus.

    Triagem sanitária e política

    O governo venezuelano determinou que todos os retornados passem por triagens na zona de fronteira, sob comando da polícia e das Forças Armadas. A partir daí, eles são enviados para centros de acolhida e quarentena, onde têm sua situação de saúde monitorada de perto.

    O plano sanitário, no entanto, é encarado por muitos dos retornados como uma malha fina montada pelos serviços de segurança para detectar dissidentes que possam ser vistos como uma ameaça política pelas autoridades.

    1,8 milhão

    é o número de venezuelanos que foram viver na Colômbia desde 2017

    80 mil

    é o número de venezuelanos que deixaram a Colômbia e voltaram a seu país de origem entre março, início da pandemia, e julho de 2020

    Para driblar essa malha fina, muitos preferem cruzar a fronteira pelos caminhos informais, conhecidos como “trochas” ou trilhas. Nessa travessia, é comum que haja a contratação de atravessadores que conhecem os caminhos. Para os retornados, esses atravessadores são uma ajuda indispensável. Porém, para o governo venezuelano, são traficantes internacionais de pessoas.

    Terrorismo e bioterrorismo

    O governo Maduro passou a usar a legislação antiterror contra os “trocheros”, sob o argumento de que esses “grupos criminosos organizados” cometem atos de bioterrorismo ao trazer o vírus para o país. Além disso, alguns dos retornados são obrigados a permanecer fechados em unidades reservadas para esse fim.

    Em resposta, o Centro de Direitos Humanos da Universidade Andrés Bello de Caracas publicou um estudo chamado “O drama dos retornados: da revitimização à recriminação”, no qual alerta para o abuso do recurso e para o uso de uma legislação de exceção para perseguir pessoas vulneráveis.

    “Ao tratar um nacional venezuelano como um estranho, coisificando a pessoa e despojando ela de direitos, o governo termina por convertê-la em alvo de ódio e de ataques, num contexto de nervosismo provocado por um ambiente social hipersensível diante do risco de contágio da covid-19”

    estudo “O drama dos retornados: da revitimização à recriminação”, do Centro de Direitos Humanos da Universidade Andrés Bello de Caracas

    O centro de estudos da Universidade Andrés Bello acusa o governo venezuelano de converter os centros de triagem de retornados em verdadeiras detenções, sem o devido acompanhamento das autoridades judiciais do país.

    O mesmo centro argumenta que não tem sentido punir venezuelanos que retornam a seu próprio país por pontos não controlados de migração, uma vez que eles não são cidadãos estrangeiros.

    Por fim, o Centro de Direitos Humanos alerta para o risco de estigmatização dos venezuelanos retornados, que, a partir do discurso governamental, passam a ser vistos como inimigos da saúde pública do país, passando por bode expiatório de uma situação, no fundo, muito mais complexa.

    Maduro e o presidente da Colômbia, Ivan Duque, são adversários políticos de longa data. O presidente venezuelano vem divulgando em suas contas de rede social vídeos nos quais mostra que a pandemia do lado colombiano da fronteira estaria fora de controle.

    Até 18 de agosto, a Colômbia contava com mais de 476 mil casos e 15 mil mortes. A Venezuela tinha mais de 34 mil contaminados e 288 mortos até a mesma data, segundo a contagem oficial. A Universidade John Hopkins, dos EUA, que computa dados globais da doença estima, no entanto, que o número real de mortos na Venezuela seja superior a 30 mil, por causa da subnotificação.

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