O impasse sobre o Carnaval 2021 em meio à incerteza da pandemia

Cidades adiam festa que aconteceria em fevereiro, mas patinam para definir uma data. Eventos costumam movimentar milhões de reais para economias locais 

O prefeito de Salvador, Antônio Carlos Magalhães Neto, confirmou em 17 de agosto que o carnaval da cidade será adiado por causa da pandemia do novo coronavírus. Segundo ACM Neto, o evento ainda não tem uma nova data oficialmente definida.

No mesmo dia, uma reunião virtual entre o prefeito e empresários do setor cogitou a segunda quinzena do mês de julho como a época em que a festa deveria acontecer. De acordo com ACM Neto, “estamos tentando desenhar uma nova data, construir um novo calendário em 2021 para o Carnaval de Salvador e de outras praças do Brasil".

O objetivo é que o carnaval da capital baiana aconteça em alinhamento com as festas em outras capitais do país, como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Recife. Os prefeitos dessas cidades vêm conversando na tentativa de encontrar uma nova data comum. Originalmente, o Carnaval em 2021 aconteceria em fevereiro.

O carnaval de Salvador é um dos maiores do país. Em 2019, segundo dados da prefeitura, 1,7 milhão de foliões compareceram ao evento, o maior número já registrado.

Atualmente, o impacto da covid-19 na cidade segue intenso. Pelo menos 17 bairros registram mais de mil casos acumulados, conforme dados divulgados pela Secretaria municipal de Saúde em 18 de agosto. Entre 9 e 15 de agosto, a média móvel de novos casos subiu 28%, com 5.774 novas ocorrências.

Os números motivaram a prefeitura a anunciar, em 20 de agosto, o adiamento da terceira fase de flexibilização do comércio na capital, prevista para dia 24.

Assim como shows de música e baladas, o carnaval de rua é movido à aglomeração. A multidão de foliões em torno de um trio elétrico é uma imagem conhecida do carnaval soteropolitano. Na última década, diversas cidades do país presenciaram um crescimento vertiginoso do carnaval de rua, no qual inúmeros blocos reúnem milhares de seguidores no espaço público. Ainda que sejam ao ar livre, os eventos se caracterizam pela proximidade física.

Em diversos programas de reabertura de outros países, eventos culturais com grande público são posicionados na última etapa. Alguns lugares da Europa, como Alemanha e Reino Unido, realizaram os primeiros shows musicais com distanciamento social. O público é muito menor e diversas medidas têm de ser tomadas para garantir que frequentadores não tenham contato entre si. No meio de agosto, um festival com milhares de jovens em Wuhan, na China, primeiro epicentro da pandemia, só aconteceu porque a cidade está desde maio sem registrar transmissão local da doença, e fez uma campanha massiva de testagem que atingiu quase a totalidade dos seus 11 milhões de habitantes.

Os planos de outras cidades para o Carnaval

São Paulo

Em 24 de julho, a Prefeitura de São Paulo anunciou o adiamento do Carnaval de rua e dos desfiles das escolas de samba da cidade. Uma proposta de nova data ainda não foi apresentada, mas o prefeito Bruno Covas (PSDB) afirmou que ela não deve ser no mês de junho para não conflitar com os festivais de São João no Nordeste. No caso dos desfiles, a Liga das Escolas de Samba de São Paulo propôs o início de julho como época para sua realização. A exemplo do governador João Doria (PSDB), Covas mantém a posição de que, sem vacina disponível, é impossível realizar a festa.

Rio de Janeiro

Indefinição também no Carnaval carioca. Em 27 de julho, o prefeito Marcelo Crivella (Republicanos) afirmou que não há ainda previsão sobre quando acontecerá a festa na cidade. Crivella afirmou na época que, depois de consultar o comitê científico que o assessora, pretendia realizar uma pesquisa junto à população para saber se o evento deveria acontecer. No mesmo mês, a Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro) havia decidido esperar até setembro para tomar uma decisão a respeito da realização do próximo Carnaval. A posição da entidade é de que sem vacina contra a covid-19, o evento é inviável.

Recife e Olinda

Ainda não há previsão para uma nova data da folia nas duas cidades, de acordo com suas prefeituras municipais. Em 27 de julho, a vereadora Michelle Collins (PP) entrou com um requerimento na Câmara Municipal de Recife em que pede ao prefeito Geraldo Julio (PSB) que suspenda o Carnaval 2021 na cidade. Segundo a vereadora, enquanto não houver disponibilidade de vacina contra a covid-19, o Carnaval não deve acontecer por uma “questão de saúde pública”. A proposta dividiu opiniões na casa.

Belo Horizonte

Na capital mineira, que recentemente presenciou uma explosão no seu Carnaval de rua, ainda não há definição sobre novas datas para a festa. “Qualquer data é um chute. Falar que o Carnaval vai acontecer em maio, junho, julho. É um chute. Ninguém consegue garantir”, declarou à imprensa Gilberto Castro, presidente da Belotur, entidade turística oficial da cidade. Já a Lemg (Liga das Escolas de Samba de Minas Gerais), propõe que o evento aconteça em junho ou julho.

Prejuízos para o setor

O adiamento ou cancelamento das festas de Carnaval implicam prejuízos para os setores de turismo e varejo das cidades.

Em 2020, o Carnaval de Recife teve a participação de aproximadamente 2 milhões de pessoas e gerou receita de cerca de R$ 1,4 milhão para a cidade, segundo a prefeitura.

O cancelamento das festas juninas de 2020 no Nordeste oferece uma noção do tamanho da perda que a não realização do Carnaval pode acarretar. Segundo o governador da Bahia, Rui Costa (PT), a estimativa é de que o estado tenha tido um prejuízo de R$ 500 milhões com a derrubada dos eventos, a maior parte no interior do estado.

Segundo estatísticas da Prefeitura de São Paulo, o carnaval da cidade trouxe receitas de cerca de R$ 3 bilhões em 2020, um aumento de 31% em relação ao ano anterior. O público total do evento foi de 15 milhões de pessoas.

Estimativa da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo), divulgada no início de 2020, previa que a festa geraria mais empregos do que em 2019. Segundo a entidade, a expectativa era de 2,8% postos de trabalho a mais, com a contratação de 25,4 mil trabalhadores temporários entre janeiro e fevereiro. O setor de alimentação puxa a maior parte das vagas, respondendo por 7 em cada 10 oportunidades de emprego.

No Rio de Janeiro, a escola de samba Unidos do Viradouro, campeã do carnaval de 2020, comunicou em 18 de agosto a demissão de funcionários por conta da indefinição com relação ao carnaval de 2021. Em julho, a Mangueira havia anunciado a interrupção do pagamento de empregados e colaboradores.

Como tentativa de combater os efeitos da crise, carnavalescos de escolas cariocas criaram o projeto Barracão Solidário. A iniciativa arrecada doações que reverte em cestas básicas, remédios e pagamentos de contas de profissionais como carpinteiros, aderecistas, ferreiros, pintores, costureiros e cenógrafos.

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