Covid-19: como a pressão política interfere na busca pela vacina

Russos e americanos escancaram corrida por imunizante, ampliando as chances de sucesso e os riscos sanitários de regulações mais frouxas

    O prestígio político ligado à descoberta de uma vacina para a covid-19 está levando os presidentes dos EUA, Donald Trump, e da Rússia, Vladimir Putin, a passarem por cima de protocolos científicos rigorosos para anunciar o quanto antes a cura da doença.

    Em agosto, ambos deram declarações e tomaram atitudes que despertaram a preocupação de que etapas de verificação da segurança de novas drogas sejam abreviadas na busca pela primazia de um anúncio que é aguardado no mundo todo.

    A disputa entre os líderes das duas potências rivais relembra o espírito da corrida espacial travada entre americanos e soviéticos na Guerra Fria (1945-1991). Em ambos casos, o investimento em pesquisa científica e a pressão por avanços tecnológicos são vistos como caminhos para obter maior prestígio político tanto no campo interno quanto internacional, além de ganhos financeiros para suas próprias economias, em escala global.

    Se por um lado a disputa pode acelerar a cura para uma pandemia que já matou mais de 800 mil pessoas em todo o mundo, por outro, ela levanta questões sobre riscos sanitários ainda não completamente conhecidos até que todas as fases de teste tenham sido concluídas.

    O primeiro passo de Putin

    O primeiro e mais ousado passo dado até agora foi o de Putin. O presidente da Rússia anunciou no dia 11 de agosto ter autorizado a produção e o uso de uma vacina batizada Sputnik-5, que, de acordo com ele, teria demonstrado segurança e eficácia no tratamento da covid-19.

    Putin disse que a própria filha foi submetida a testes com a vacina, que teria comprovado alto grau de confiabilidade, a ponto de começar a ser não apenas administrada no país, mas também exportada em parceria com empresas e governos de outras partes do mundo. No Brasil, o governo do Estado do Paraná anunciou tratativas para trabalhar em parceria com os russos.

    O anúncio, no entanto, foi recebido com desconfiança pela OMS (Organização Mundial da Saúde), que afirmou não ter tido acesso a todos os protocolos de testes. Além disso, o procedimento seguido pelo Instituto Gamaleya de Moscou, responsável pela produção da Sputnik-5, não foi aberto e checado por outros pesquisadores independentes, como manda o protocolo nessas situações.

    A própria escolha do nome, Sputnik-5, soou provocativo. O batismo foi uma referência explícita ao satélite homônimo que os soviéticos colocaram em órbita em 1957, quando impuseram uma derrota aos americanos na corrida espacial.

    A vacina russa vai circular desde já. O anúncio do governo russo foi ambíguo – diz que tem a cura, mas que a circulação da vacina aos milhões é parte de uma fase final de testes.

    A resposta de Donald Trump

    Dez dias depois do anúncio de Putin, o presidente dos EUA ordenou que a FDA (sigla em inglês para Administração de Drogas e Alimentos), agência responsável pela chancela dessa classe de produtos no país, relaxasse o controle sobre laboratórios e clínicas privadas que vêm realizando pesquisas sobre a covid-19.

    Embora a busca pela vacina ocorra de forma descentralizada no país, a FDA acaba funcionando como um gargalo. É ela que autoriza ou não a realização de testes e o uso de novas drogas. A pressão das empresas privadas por maior liberdade nas pesquisas médicas em geral sempre existiu. Mas, com a covid-19, ela se tornou muito maior.

    O anúncio do relaxamento “é profundamente preocupante e sugere que a administração Trump está mais uma vez interferindo na regulação de produtos médicos que é feita pela FDA”, disse ao jornal The New York Times o deputado democrata Frank Pallone, que é membro do Comitê de Comércio e Energia do Congresso dos EUA, responsável por parte das atribuições da agência em questão.

    No domingo, o londrino Financial Times disse que a pressão de Trump sobre a FDA tem a intenção de liberar até outubro, em “caráter emergencial” uma vacina desenvolvida em parceria entre a empresa farmacêutica AstraZeneca e a Universidade de Oxford, a partir de testes considerados reduzidos demais para os padrões vigentes. O experimento foi conduzido com 10 mil pessoas, quando o padrão normal recomenda pelo menos 30 mil.

    Ganhos internos e internacionais

    A pressa se justifica, no caso de Trump, pela proximidade das eleições. Ele aparece atrás do rival democrata, Joe Biden, em todos os cenários para a eleição de 3 de novembro, e a proclamação de qualquer coisa que se assemelhe a uma cura da covid-19 poderia reverter essa situação.

    Biden se esforça para colar em Trump a pecha de um presidente que adotou um comportamento temerário e irresponsável em relação à pandemia, fazendo dos EUA o líder mundial em número de mortos e contaminados.

    Já no caso da Rússia, o ganho maior de Putin é na seara internacional. Domesticamente, o presidente russo – que está ininterruptamente no poder desde 1999, entre os cargos de presidente e primeiro-ministro – não tem rival à altura. Porém, seu prestígio fora da Rússia e em alguns países do Leste Europeu é baixo. Aportar a cura da pandemia, ou uma das curas, poderia ajudar a mudar essa situação.

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