Covid-19: como é o tratamento com transfusão de plasma 

Procedimento que usa líquido de pacientes recuperados da infecção do novo coronavírus é aprovado nos EUA em caráter emergencial

    Um tratamento experimental de transfusão de plasma de pacientes curados da covid-19 para pessoas que enfrentam a doença foi autorizado no domingo (23) pela FDA, agência regulatória americana equivalente à brasileira Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

    Após pressão do presidente americano Donald Trump, o órgão liberou em caráter emergencial o uso do chamado plasma convalescente para aplicação em pessoas infectadas pela doença do novo coronavírus. Por ser de emergência, a liberação é temporária.

    Não há comprovação científica da eficácia do tratamento, apenas evidências empíricas baseadas em casos individuais. Na segunda-feira (24), a Soumya Swaminathan, cientista-chefe da OMS (Organização Mundial da Saúde), afirmou à imprensa que “os estudos realizados [sobre plasma] foram relativamente pequenos. Em alguns casos, apontaram para alguns benefícios, mas ainda não são conclusivos. No momento, as evidências que existem ainda são de baixíssima qualidade.

    No entanto, Trump alardeou a terapia como sendo “poderosa” e com “incrível taxa de sucesso”. Segundo comunicado da FDA, os benefícios conhecidos e potenciais do tratamento seriam maiores que os seus riscos.

    A autorização da agência ocorreu depois que o presidente americano afirmou que ela estaria demorando para liberar testes e vacinas contra covid-19 por motivos políticos. “Obviamente, eles esperam adiar a resposta para depois de 3 de novembro. Devem focar na velocidade e salvar vidas!”, declarou Trump no Twitter no sábado (22), em referência à data da eleição americana, na qual ele vai tentar permanecer no cargo.

    Alguns dias antes, a FDA havia freado o processo de liberação do tratamento com plasma depois que autoridades de saúde graduadas do país afirmaram que as informações disponíveis sobre o tratamento ainda não eram suficientes, entre elas, Anthony Fauci, membro do comitê que assessora a Casa Branca no combate ao covid-19 e um dos maiores especialistas em doenças infecciosas dos EUA, e Francis Collins, diretor do Instituto Nacional de Saúde americano.

    Como é o tratamento com plasma

    O procedimento consiste da transfusão do plasma de uma pessoa recuperada da covid-19 para alguém com a doença. O plasma é a parte líquida do sangue. Pouco depois de curada, uma pessoa ainda carrega anticorpos em seu plasma. A ideia é levar esse anticorpos para um novo organismo infectado, fazendo com que eles combatam a doença.

    Esse tipo de tratamento tem pelo menos 100 anos. Durante a Gripe Espanhola, ele foi usado em pessoas infectadas. Mais recentemente, nos surtos das gripes Sars e H1N1, e da epidemia do vírus ebola, a aplicação de plasma registrou bons resultados.

    Não se trata, portanto, de um tratamento a partir de um medicamento que pode ser fabricado e distribuído para milhões de pessoas. A oferta de plasma convalescente depende de doadores. Trump convocou pessoas que se recuperaram do vírus a doarem seu plasma. Como nas transfusões de sangue, o procedimento pode levar a efeitos colaterais, como febre baixa e sobrecarga na circulação sanguínea.

    No estudo citado por Trump como evidência da eficácia do tratamento, 316 pacientes de oito hospitais no Texas foram avaliados. A conclusão do trabalho, publicado no American Journal of Pathology, foi que o tratamento melhorou em 35% as chances de sobrevivência de infectados com menos de 80 anos que receberam o plasma em até 72 horas depois do diagnóstico da covid-19. Já entre os que receberam a transfusão depois das 72 horas iniciais, não houve diferença na taxa de mortalidade.

    Em outro levantamento realizado nos EUA, resultados similares foram encontrados. Realizado pela Mayo Clinic, um estudo monitorou 71 mil pacientes que tiveram aplicação de plasma convalescente em 2.780 hospitais americanos. Os infectados que foram transfundidos nas primeiras 72 horas depois do diagnóstico apresentaram taxas menores de mortalidade 30 dias depois em relação aos que obtiveram o plasma mais tarde. Também foi observado que pessoas que receberam plasma com concentrações maiores de anticorpos registraram menos mortes do que aqueles que tiveram injetado líquido com concentrações menores dos anticorpos.

    Michael Joyner, pesquisador que encabeça o projeto, afirmou que o abrangente levantamento serviu para mostrar baixa incidência de efeitos adversos do procedimento e observar “potenciais sinais de eficácia” em uma população diversa.

    Uma reportagem da revista científica Nature explicou quais são as dificuldades de se colher e analisar dados relacionados a plasma convalescente e seus efeitos. De acordo com cientistas ouvidos pela publicação, o líquido apresenta grande variação de concentração de anticorpos de uma pessoa para outra. Medir a quantidade de anticorpos presente em uma amostra de plasma ainda é uma técnica custosa, inacessível para muitos hospitais em países mais pobres.

    Aplicação do plasma no Brasil

    O tratamento já vem sendo realizado em diversos hospitais do país. A coleta e a transfusão para uso experimental em pacientes com covid-19 já são permitidas pelo Ministério da Saúde e regulamentadas pela Anvisa desde o início de abril de 2020.

    No Paraná, o Hemepar (Centro de Hematologia e Hemoterapia do Paraná), da Secretaria de Estado de Saúde, vem realizando transfusões de plasma de pacientes curados da covid-19 em pessoas infectadas desde 1º de maio. O projeto conta com o apoio do Lacen (Laboratório Central do Estado) e Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz).

    O tratamento também vem sendo testado no Rio Grande do Sul. Desde meados de julho de 2020, o Hospital das Clínicas de Porto Alegre faz transfusões do material para fins de combate à covid-19.

    Em São Paulo, o Hospital das Clínicas iniciou testes com a substância no começo de junho, a primeira iniciativa na rede pública da capital. Antes, alguns hospitais da rede privada também vinham experimentando o procedimento.

    No estudo do hospital, 400 ml a 600 ml de plasma foram injetados em 40 pacientes. Um grupo de controle de outros 40 pacientes não irá receber o líquido. Os pesquisados são todos internados em enfermarias e UTIs que participam como voluntários e com autorização das famílias. Os resultados ainda não foram divulgados.

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