O estudo com crianças que fez a cidade de SP adiar a volta às aulas

Após testar 6.000 alunos da rede municipal de ensino no início de agosto, prefeito Bruno Covas descartou retorno às escolas em setembro

As aulas presenciais nas redes pública e privada da cidade de São Paulo não serão retomadas em setembro, segundo anúncio do prefeito Bruno Covas, na terça-feira (18). O retorno de atividades como acolhimento de alunos, recuperação, atividades físicas e aulas em laboratórios foi previsto para 8 de setembro pelo governo estadual, mas a decisão final cabia aos municípios. Covas descartou a data após os resultados de um estudo que avaliou quantas crianças já tiveram contato com a covid-19 na cidade. As aulas no país estão suspensas desde março.

Entre 6 e 10 de agosto, a prefeitura realizou testes sorológicos, por meio de amostras de sangue, em 6.000 alunos da rede municipal de ensino. Eles tinham entre 4 e 14 anos. Esse tipo de exame mostra se a pessoa possui anticorpos contra o novo coronavírus no organismo, ou seja, se já teve contato com o agente infeccioso no passado.

675.922

alunos de 4 a 14 anos estão matriculados na rede municipal de São Paulo

Os estudantes dos ensinos infantil e fundamental foram sorteados aleatoriamente, divididos em três grupos por faixas etárias, e também tiveram de responder a um formulário. O resultado desse inquérito epidemiológico mostrou que a taxa de crianças que já se contaminaram é maior do que a dos adultos, mostrado em outra pesquisa do final de julho.

16,1%

dos alunos da rede de ensino da Prefeitura de São Paulo já tiveram contato com o novo coronavírus; em julho, 11,1% do adultos na cidade já tinham sido infectados

Uma doença ‘invisível’

Além de apontar que o vírus circulou proporcionalmente mais em crianças do que em adultos, a pesquisa da prefeitura mostrou que a grande maioria dos alunos já infectados não apresentaram quaisquer sintomas da doença.

64,4%

dos estudantes que tiveram contato com o vírus não manifestaram a covid-19

O alto número de assintomáticos, segundo a prefeitura, pode ser um fator de disseminação no ambiente escolar, pois é muito mais difícil que as escolas identifiquem quem está doente se as crianças não manifestam sintomas.

“Nós estamos falando da possibilidade de duas a cada três crianças contaminadas com o vírus não apresentarem nenhum sintoma. A escola coloca medidor de temperatura na porta e a criança não vai apresentar que está febril, mas está contaminada, com a mesma carga viral de um adulto”

Bruno Covas

prefeito de São Paulo, durante apresentação dos resultados do inquérito epidemiológico, na terça-feira (18)

Outro fator que poderia levar ao aparecimento de novos surtos da doença em São Paulo com a volta às salas de aulas é a quantidade de crianças que dividem a mesma casa com pessoas idosas.

25,9%

dos estudantes da rede pública municipal vivem em domicílios com outros moradores com 60 anos ou mais

Segundo Covas, esse número significa algo em torno de 250 mil crianças em São Paulo que moram com avós ou outros familiares mais velhos. A volta às aulas, para o prefeito, poderia, portanto, representar um “grande vetor de contaminação, ampliação e disseminação da doença na cidade”.

A criança se infectaria na escola, teria grandes chances de não apresentar sintomas, transmitiria o vírus dentro de casa para familiares, muitos dos quais do grupo de risco da doença, e os próprios familiares poderiam aumentar o contágio dentro da comunidade em que vivem.

“O retorno dessas crianças às aulas seria temerário num momento como este. Nós estamos controlando a doença na cidade de São Paulo. Até porque é muito mais complicado manter um distanciamento social dentro da sala de aula e da escola do que em bares, restaurantes e supermercados”

Bruno Covas

prefeito de São Paulo

Para o prefeito, esses fatores são motivos suficientes para não voltar às aulas presenciais em setembro, como permite o governo estadual. Covas disse que a prefeitura ainda trabalha com o “horizonte de outubro”. O governador de São Paulo, João Doria, havia anunciado no início de agosto um retorno inicial de acolhimento em 8 de setembro e a volta às aulas em 7 de outubro, ainda de forma gradual.

Mas a prefeitura ressalta que isso vai depender dos resultados das próximas fases do inquérito. A cidade ainda irá pesquisar como tem se dado a circulação do vírus entre alunos das redes estadual e privada e entre os familiares dos alunos.

“É uma pandemia na qual a gente está conhecendo o comportamento do vírus no meio do processo. Esses dados são importantes para ajudar a prefeitura a tomar uma decisão como outros dados que virão daqui pra frente e, quando a gente tiver a tranquilidade de tomar a decisão, ela será feita. Coerência é respeitar a ciência, o conhecimento, e não seguir momento de aflição ou pressão política do grupo A ou B”, afirmou o prefeito.

79%

dos brasileiros dizem acreditar que a volta às aulas vai agravar a pandemia e que as escolas deveriam ficar fechadas por mais dois meses, segundo pesquisa Datafolha de 17 de agosto

A reação das escolas particulares

Sindicatos que representam estabelecimentos de ensino privado prometeram recorrer da decisão da prefeitura na Justiça. Segundo entidades do setor, as escolas privadas elaboraram protocolos para garantir a segurança dos alunos no retorno.

“Se o estado garante que pode [retomar atividades em setembro], porque ele [Bruno Covas] garante que não?”, questionou Benjamin Ribeiro da Silva, presidente do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Estado de São Paulo, ao jornal O Estado de S. Paulo, na terça-feira (18). A Associação Brasileira de Escolas Particulares também criticou a decisão e disse que as instituições privadas de ensino já estão prontas para receber os alunos.

Muitas escolas já definiram protocolos com medidas como a redução de alunos por sala, separação mínima de 1,5 metro entre as carteiras, obrigatoriedade do uso de máscara, fluxo de mão única nos corredores, redução do tempo de permanência na escola, controle de temperatura na entrada e acordos com hospitais para assumir enfermarias dentro da própria escola. As atividades presenciais seriam combinadas com as remotas, num modelo híbrido, e pais poderiam optar por manter os filhos no ensino a distância durante a pandemia.

As escolas, porém, não garantem que os protocolos sejam totalmente eficazes. Como a maioria dos casos são assintomáticos, o monitoramento da temperatura na porta das escolas, por exemplo, seria ineficaz em detectar novos doentes na maioria dos casos.

As experiências de retomada do ensino

Alguns países têm tentado retomar as aulas, mas surtos estão forçando escolas a recuar mesmo onde a transmissão do vírus foi controlada, como na Alemanha. No início de agosto, várias escolas alemãs voltaram para as atividades remotas poucos dias após uma tentativa de reabertura. O motivo foi a confirmação de contágio entre alunos e professores.

Em Atlanta, nos Estados Unidos, escolas tentaram voltar às aulas também em agosto, mas ao menos 1.200 alunos e funcionários tiveram que entrar em quarentena por causa da doença. Ao menos duas escolas decidiram fechar as portas novamente por mais algumas semanas.

Existe uma grande dificuldade de garantir que as regras, como o uso de máscaras, sejam seguidas, especialmente entre crianças pequenas. Durante as brincadeiras, elas param para beber água ou assoam o nariz. Há risco também durante a alimentação. Em Jerusalém, uma escola permitiu que os alunos retirassem as máscaras por causa do calor, e isso foi o suficiente para o aparecimento de novos casos.

No Brasil, o Amazonas autorizou a volta das redes privada e pública de ensino. Na rede pública, as escolas reabriram em 10 de agosto, com baixa adesão dos alunos. Em uma semana, foram registrados oito casos de infecção entre professores e dois entre alunos. Os professores protestaram contra o retorno em Manaus.

No Maranhão, onde apenas as particulares foram autorizadas a funcionar, ao menos duas escolas também registraram casos do novo coronavírus. Um dos colégios decidiu fechar novamente. Já no Distrito Federal, a volta foi suspensa por decisão da Justiça. Outros estados estudam protocolos para o retorno, mas não definiram datas para isso.

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