O maior festival de cinema do Brasil. Em meio a uma pandemia

Evento está previsto para setembro em diversas partes do país, sem previsão de controle do avanço da covid-19. Criador compara iniciativa à reabertura de restaurantes e salões de beleza

    Desde março, cinemas estão sem funcionar em todo o Brasil devido à pandemia do novo coronavírus. Por serem espaços fechados e de aglomeração, as salas são ambientes propícios para a propagação do vírus.

    Para manter os negócios em pé, exibidores buscaram alternativas, que vão desde um maior investimento em plataformas de streaming à transformação de estacionamentos em cinemas do tipo drive-in, onde o público assiste ao filme de dentro de seus carros.

    Embora haja iniciativas de governos estaduais para a retomada das atividades nas salas de cinema, a recomendação da OMS (Organização Mundial da Saúde) ainda é a de se evitar aglomerações e se manter o distanciamento social, até que o avanço do vírus seja freado. Algo distante de acontecer no Brasil, que registrou, até o dia 18 de agosto, mais de 108 mil mortes pela covid-19, doença causada pelo novo coronavírus. Desde meados de junho, o país tem uma média diária de aproximadamente mil mortes por dia, com pequenas variações para cima ou para baixo.

    O festival ‘De volta para o cinema’. E as críticas a ele

    Em meio a esse cenário, exibidores, produtoras e distribuidoras se uniram, em julho, para a iniciativa Juntos pelo cinema, um movimento para articular a retomada da atividade nas salas de todo o país.

    Nesta terça-feira (18), a iniciativa anunciou a realização do festival “De volta para o cinema”, que vai acontecer em 1.200 salas do país a partir do dia 3 de setembro, com a promessa de ser “o maior festival de cinema que o Brasil já viu”.

    Com preços reduzidos, o evento vai exibir filmes como “Tubarão” (1972), “O exorcista” (1973), “O iluminado” (1980), “Harry Potter e a pedra filosofal” (2001), “Crepúsculo” (2008) e “Os vingadores” (2012).

    No Twitter, o jornalista e empresário Érico Borgo, que capitaneou a curadoria do festival, afirmou que os cinemas participantes vão cumprir todas as recomendações de segurança sanitária, incluindo a obrigatoriedade do uso de máscara, a oferta de álcool em gel para o público, intervalos maiores entre as sessões e o uso de equipamento de proteção individual por parte dos funcionários.

    Borgo ainda disse que, com o passar dos meses, o festival vai ser levado para mais salas do Brasil, de acordo com os estágios de reabertura e o avanço da covid-19 em diferentes estados e municípios.

    Na tarde de 18 de agosto, a única capital brasileira que já contava com cinemas abertos era Manaus. Na data, a capital do Amazonas concentrava 35% dos casos no estado – um dos que têm apresentado queda nos números da pandemia. A autorização foi assinada pelo governador Wilson Lima (PSC), sob o argumento de que a cidade já passou pelo pico da doença, em maio.

    A expectativa de polos como Rio de Janeiro e São Paulo é de que uma reabertura dos cinemas seja organizada até o final de agosto.

    Apesar da promessa de adequação às medidas de segurança, o festival “De volta para o cinema” foi alvo de críticas nas redes sociais.

    “Festival ‘De volta para o cinema’ é para se fazer depois que acabar a pandemia mundial, não durante”, escreveu no Twitter o youtuber e crítico de cinema Max Valarezo, idealizador do canal Entre Planos.

    “Não faz sentido colocar várias pessoas com hábitos de higiene desconhecidos em uma sala fechada por puro lazer de ver um filme ‘repetido’”, afirmou, também no Twitter, o crítico de cinema PH Santos, do site Cinema com Rapadura. A maior parte dos filmes da programação pode ser encontrada em serviços de streaming.

    Em resposta a uma crítica, Borgo se defendeu afirmando que o fechamento prejudicou milhares de trabalhadores, e que o festival é uma forma de incentivar o segmento.

    “Por que os cinemas deveriam estar fechados enquanto companhias aéreas estão com voos lotados, transporte coletivo segue lotado, academias abertas, salões, bares e restaurantes atendendo?”, questionou.

    Críticas similares foram feitas quando alguns dos setores citados pelo curador retomaram suas operações, já que são considerados atividades não-essenciais e alguns deles são lugares propícios para uma disseminação mais ampla do vírus.

    A retomada dos cinemas no mundo

    De acordo com dados da empresa britânica de análise de mercado Gower Street Analytics, havia, no começo de agosto de 2020, cerca de 12.400 salas de cinema abertas no mundo todo.

    Do total, 64% – ou 7.936 – estão localizadas na China, país que foi o primeiro epicentro da pandemia mas que, após adotar uma série de medidas de restrição, conseguiu reduzir a transmissão, e consequentemente o número de mortos. Na tarde do dia 18 de agosto, o país asiático contava com cerca de 590 casos ativos em meio a uma população de 1,4 bilhão de pessoas.

    Já os 56% restantes das salas estão espalhadas no mundo todo, em especial países da Europa que já conseguiram estabilizar o avanço da doença, como França, Reino Unido e Alemanha. Parte delas também está na América do Norte, em estados dos EUA em que o aumento de casos foi controlado e no Canadá, que conseguiu frear significativamente os números da covid-19.

    Mesmo com o controle, a capacidade máxima das salas foi reduzida, há um intervalo mais amplo entre as sessões e foram tomadas outras medidas para garantir a segurança do público.

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