O avanço do fogo no Pantanal. E seu poder de destruição

Chamas consumiram cerca de 200 mil hectares em três semanas, ameaçando a fauna local

Estamos com acesso livre temporariamente em todos os conteúdos como uma cortesia para você experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Conheça nossos planos de assinatura. Assine o Nexo.

    Desde a última semana de julho, o Pantanal arde em chamas. O bioma, declarado um patrimônio mundial pela ONU (Organização das Nações Unidas), enfrenta o que é considerado seu maior incêndio desde 2006, com a origem do fogo ainda desconhecida.

    Em três semanas, as chamas destruíram em torno de 200 mil hectares de vegetação – uma área com 50 mil hectares a menos do que o tamanho da cidade de São Paulo. Não há previsão para que a situação seja controlada.

    Os governos dos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul – que abrigam a totalidade do Pantanal em território brasileiro (há pequenas porções no Paraguai e na Bolívia), mobilizam forças de seus Corpos de Bombeiros e da defesa civil para incursões de combate às chamas.

    Nas operações, bombeiros e defensores civis usam caminhões pipa, mangueiras e outros utensílios para tentar minimizar os focos de incêndio.

    A nível federal, a ajuda veio por parte do Ministério da Defesa, que mobilizou pessoal e equipamento das Forças Armadas para auxiliar as ações idealizadas pelos governos estaduais.

    Na sexta-feira (14), militares que estavam atuando no combate ao fogo ficaram cercados pelas labaredas e precisaram pedir ajuda. Para resgatá-los, foram usados um avião e um helicóptero da FAB (Força Aérea Brasileira).

    O Ministério do Meio Ambiente afirmou ao jornal Correio Braziliense que contratou cerca de 3 mil brigadistas temporários para auxiliar o corpo de bombeiros estaduais no combate e na prevenção de incêndios.

    Por que as chamas são tão destrutivas

    O fogo é reflexo direto dos meses de seca na região. Não chove no Pantanal desde maio.

    O período de seca vai de maio a setembro. Normalmente, as chuvas dos meses anteriores são o suficiente para impedir que incêndios de grandes proporções aconteçam, mas, em 2020, o volume de chuvas entre janeiro e maio foi 50% menor do que o esperado, de acordo com dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

    A falta de chuva levou a um aumento nas queimadas registradas nos seis primeiros meses do ano: foram, ao todo, 548 focos de calor, um aumento de 530% em relação ao mesmo período em 2019, quando ocorreram 87 queimadas no bioma.

    Apesar da origem desconhecida, sabe-se que os incêndios tiveram origem humana, já que o fogo natural, em grande maioria, surge a partir de raios – como não há chuva, não há raio. O que não se sabe é se o fogo teve origem acidental ou criminosa.

    Além da seca, o vento também tem influenciado o avanço dos incêndios no Pantanal. “O vento é o maior vilão”, disse ao jornal Folha de S.Paulo o sargento Rogério Perdigão, do Corpo de Bombeiros do Mato Grosso do Sul.

    Segundo ele, o combate ao fogo pode ser comparado ao ato infrutífero de se tentar enxugar gelo, já que as correntes de ar fazem com que as chamas se espalhem mais rapidamente, cobrindo áreas maiores.

    “O vento e a umidade do ar são os fatores mais complicadores junto com a temperatura”, afirmou ao Jornal Nacional o bombeiro Isaac Wihbi.

    O que o fogo ameaça

    Um dos principais focos de incêndio é a fazenda São Francisco do Perigara, localizada a 150 km de Cuiabá, capital do estado de Mato Grosso.

    A fazenda conta com o maior santuário de araras-azuis do mundo, abrigando 15% da população livre da espécie, que está ameaçada de extinção.

    Ao jornal Folha de S.Paulo, o Instituto Arara Azul, que monitora as aves desde 2001, afirmou que, das cerca de 6.500 araras que estão na natureza, 700 vivem na fazenda.

    De acordo com Neiva Guedes, presidente do instituto, a concentração no local se dá porque as araras costumam comer os restos de acuri, fruto típico da região, deixados pelo gado da fazenda.

    O incêndio também queimou cerca de um terço da reserva Sesc Pantanal, que conta, ao todo, com 108 mil hectares de área. Segundo a Folha de S.Paulo, no local foi possível ver restos mortais de animais como macacos-prego e veados.

    O fogo também preocupa porque a perda de determinadas espécies vegetais pode vir a impedir importantes desenvolvimentos científicos no futuro.

    “Ecossistemas naturais são como grandes bibliotecas, que desconhecemos e que podem se tornar fármacos, produtos alimentícios. E está sendo queimado, literalmente”, disse ao jornal Correio Braziliense Cassio Bernardino, analista de conservação da ONG WWF.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.