Por que a Índia pode se tornar o novo epicentro da covid-19

Segundo país mais populoso do mundo lidera ranking de casos inéditos e teme colapso de seu sistema de saúde

A Índia se tornou no dia 3 de agosto o líder mundial em novos casos diários de contaminação e morte pela covid-19, ultrapassando os EUA e o Brasil – respectivamente o primeiro e o segundo países do ranking mantido pela universidade americana Johns Hopkins que registra os números acumulados da pandemia.

O país asiático vem batendo recordes diários de contaminação e morte desde então. Na quinta-feira (13), foram computados 70 mil novas infecções em 24 horas – um novo recorde mundial. A média de novos registros nos 15 dias anteriores a essa marca foi de 50 mil novos casos por dia.

O dado diz respeito à velocidade de propagação diária da doença, não ao número absoluto de casos acumulados. O crescimento acelerado da pandemia entre os indianos confirma previsão feita por especialistas ainda em junho e indica que o país asiático pode se tornar em breve o novo epicentro mundial da covid-19, tomando o lugar que hoje é dos EUA e do Brasil.

A Índia é o segundo país mais populoso do mundo, atrás apenas da China. São mais de 1,3 bilhão de indianos, o que corresponde a 17,9% da população mundial. Apesar da magnitude populacional, o país ainda era, até o início de agosto, o terceiro país em número absoluto de contaminados (atrás de EUA e Brasil) e o quarto em número absoluto de mortos (atrás de EUA, Brasil e México).

2,3 milhões

era o número de contaminados por covid-19 na Índia em 13 de agosto de 2020

47 mil

era o número de mortos até a mesma data

Os dados são computados a partir de informações fornecidas pelos serviços de saúde dos próprios países. No caso indiano, assim como no brasileiro, há suspeita de subnotificação, o que significa que os números, que já são altos, podem, na verdade, ser ainda superiores ao que vem sendo divulgado.

Na Índia, a taxa reportada de mortalidade é de 2,9 por grupo de 100 mil pessoas. Nos EUA é de 47,5 por 100 mil. No Brasil, é de 45,2. A discrepância pode estar associada à baixa notificação de casos num país de território vasto e precariedade na rede de saúde. Ainda assim, a curva de contaminação e morte é ascendente, enquanto nos EUA ela se estabiliza. No Brasil, segue crescendo.

A Índia tem, em tese, um sistema de saúde pública gerido de maneira descentralizada pelas administrações regionais. O que acontece na prática, porém, é que grande parte dos atendimentos é feita em hospitais privados, com pagamentos efetuados no ato do tratamento, e não por meio de planos de saúde.

O país gasta 3,5% do próprio PIB (Produto Interno Bruto) em saúde, contra 5,1% gasto pela vizinha China e 9,4% gasto pelo Brasil, por exemplo. O número de leitos disponíveis é baixo e a demanda deve ser crescente nos próximos meses.

Na Índia, há um médico para cada grupo de 11.082 pessoas – número dez vezes inferior ao recomendado pela Organização Mundial da Saúde.

Maior confinamento do mundo

O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, decretou no dia 24 de março o maior confinamento do mundo para tentar conter o alastramento da covid-19.

A decisão foi tomada de maneira precoce, quando o país registrava somente 10 mortos e 562 contaminados. O governo adotou uma política intransigente, com casos de prisão e uso da força contra quem desobedecesse o confinamento.

Depois de 50 dias submetidos a esse sistema rigoroso, o país começou a se reabrir. Em 13 de maio, um importante passo foi dado, quando o governo autorizou a volta ao funcionamento de parte da malha ferroviária que transporta 8,6 milhões de passageiros por ano no país.

Quando o desconfinamento teve início, a Índia registrava 70 mil pessoas contaminadas pela covid-19 ao todo – número que exatamente três meses depois, em 13 de agosto, corresponderia ao total de novos casos registrados num intervalo de apenas 24 horas.

O país se manteve fechado o quanto pôde. A data final do confinamento foi prorrogada três vezes em dois meses, levando milhares de comerciantes e outros trabalhadores à falência nesse período.

No foco de Bolsonaro

O fato de a Índia ter um número relativamente baixo de mortos por grupo de 100 mil habitantes alimenta especulações sobre como o combate à doença é conduzido no país.

Enquanto a OMS (Organização Mundial da Saúde) chama atenção para a possibilidade de as subnotificações provocarem uma distorção nesses dados, o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, especula, sem base em estudos científicos, sobre os efeitos do uso da cloroquina no país asiático. O remédio não tem eficácia comprovada contra a covid-19.

“Eu pedi para o [chanceler brasileiro] Ernesto Araújo me informar de verdade, junto com embaixadores nossos na África, qual foi a quantidade de mortes em cada Estado, porque lá o pessoal tomou isso aqui [a cloroquina] direto. Pedi também, junto ao nosso embaixador na Índia, o número de óbitos. Pessoal pobre, sem energia, sem muitos anticorpos, e o número de mortes foi lá embaixo”, disse Bolsonaro numa transmissão de vídeo em rede social no dia 6 de agosto.

Ao contrário do que o presidente brasileiro disse, a Índia não estava com o número de mortos “lá embaixo” naquele momento, mesmo com o sistema local de saúde administrando cloroquina aos pacientes. O país já era então o quinto no ranking em número absoluto de casos no mundo, e o crescimento da doença era tão acelerado que, em pouco tempo, a Índia assumiria a terceira colocação em que se encontra atualmente.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

Já é assinante? x

Entre aqui

Continue sua leitura

Inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: