Depois do ‘fundo do poço’, o que esperar de comércio e serviços

Dados de junho mostram recuperação em ritmos discrepantes em setores diferentes da economia. O ‘Nexo’ ouviu duas economistas para entender para onde os números apontam

    No final de junho de 2020, o ministro da Economia, Paulo Guedes, disse que abril foi o mês em que a economia brasileira atingiu o “fundo do poço”. Na visão de Guedes, o país tinha condições de “surpreender o mundo” e recuperar-se rapidamente do tombo sofrido.

    Entre economistas, o raciocínio começava da mesma forma, mas terminava diferente. Uma reportagem publicada em 16 de junho pelo jornal Folha de S.Paulo ouviu diversos economistas, que concordavam que abril seria o ponto mais baixo da crise. A expectativa quanto à recuperação, no entanto, era de uma trajetória mais lenta do que aquela prevista por Guedes.

    Na semana útil de 10 a 14 de agosto – cinco meses após o início da pandemia – o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgou dados relativos ao mês de junho no comércio e nos serviços. E os números mostram trajetórias diferentes para cada um dos setores.

    Essas atividades representam parcela significativa do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro, que soma todos os novos bens e serviços produzidos em um país em certo período de tempo. Uma recuperação dos serviços e do comércio não é suficiente, por si só, para garantir que o PIB voltará a se expandir, mas ajuda a empurrar a economia brasileira em direção ao crescimento.

    A trajetória do varejo

    Os dados do IBGE mostram que abril foi o ponto mais baixo das atividades do varejo no período até junho. E mais: dois meses depois, o varejo já voltou ao nível anterior à crise. Considera-se aqui o varejo restrito, que não inclui veículos e materiais de construção. O gráfico abaixo mostra como o volume de vendas do varejo em junho chegou ao mesmo patamar de fevereiro.

    DE VOLTA AO NÍVEL PRÉ-CRISE

    Trajetória do volume de vendas do varejo no Brasil. Recuperação aparentemente em V em 2020

    Os números detalhados do IBGE mostram que a recuperação foi especialmente forte no setor de supermercados e produtos alimentícios, além da área de venda de eletrodomésticos.

    O varejo brasileiro traçou, até junho, uma curva com formato similar à letra V. Trata-se de uma recuperação rápida, em linha com a evolução do varejo em outros países, como a Coreia do Sul e membros da zona do euro.

    O andamento dos serviços

    Nos serviços, a trajetória é diferente. A recuperação se dá de forma mais lenta e, até junho, as atividades seguiam longe do patamar pré-crise. A curva dos serviços até junho esboça um formato mais semelhante à letra “U” do que à letra “V”.

    RECUPERAÇÃO MAIS LENTA

    Trajetória do volume de serviços no Brasil. Recuperação mais lenta em 2020

    O mês de junho foi o primeiro com crescimento dos serviços após quatro meses consecutivos de queda. O crescimento de 5% em junho passou longe de compensar a perda de quase 20% acumulada entre fevereiro e maio.

    Pandemia e flexibilização no Brasil

    O Brasil é um dos locais mais atingidos do mundo pelo novo coronavírus. Em 8 de agosto, o país atingiu a marca de 100 mil mortes pela covid-19. No mesmo dia, o número total de brasileiros infectados ultrapassou 3 milhões.

    Por iniciativa de governadores e prefeitos, diversos locais do Brasil aderiram em março ao isolamento social e à quarentena, restringindo a circulação de pessoas e paralisando parcialmente a atividade econômica local. A adoção dessas medidas veio na contramão do discurso do presidente Jair Bolsonaro e de sua equipe, que argumentavam que a economia não poderia parar.

    Em maio e, de forma mais intensa, a partir de junho, muitas cidades iniciaram um processo de flexibilização das medidas restritivas. Aos poucos, atividades como o comércio de rua começaram a ser liberadas em diversos pontos do país.

    Enquanto isso, a pandemia se estabilizou no Brasil – e não em um bom sentido. Desde o início de junho, o Brasil registra em média mil mortes por dia pelo vírus. Não se sabe por quanto tempo o ritmo de contágio pela covid-19 se manterá nesse patamar alto. O controle do vírus é algo que a maioria dos economistas considera central para que a atividade econômica como um todo possa adentrar uma trajetória consistente de recuperação.

    Duas análises sobre a trajetória de comércio e serviços

    O Nexo conversou com duas economistas para entender o que as trajetórias do comércio e dos serviços sinalizam para a economia brasileira.

    • Cristina Helena de Mello, professora de economia da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica)
    • Juliana Inhasz, professora de economia do Insper

    Por que os serviços estão demorando mais que o comércio para se reerguer?

    Cristina Helena de Mello Porque a gente tem serviços que são vinculados a atividades familiares. E esses basicamente foram os que não tiveram uma retomada, não tiveram uma boa reação. São serviços de alojamento, turismo, alimentação, que ainda não retomaram. Acho que esse é o maior impacto na questão dos serviços.

    Alguns dos serviços que tiveram uma retomada é o que chamamos de “outros serviços”, que tiveram um sinal positivo – corretoras de títulos, valores imobiliários, serviços financeiros em geral, coleta de resíduos. Outros que reagiram bem foram os serviços de informação e tecnologia de informação, que tiveram também uma variação positiva. Mas, por exemplo, temos ainda uma retração significativa nos transportes, serviços administrativos, telecomunicações.

    Juliana Inhasz Muito por conta da característica da prestação de serviços. As pessoas ainda estão com a necessidade de distanciamento social para tentar controlar a pandemia. Muitos serviços não são factíveis ou possíveis [com distanciamento], e isso dificulta bastante. É diferente do caso do varejo, do comércio, onde parte significativa das vendas pode ser substituída por entrega ou venda pela internet.

    A confiança do consumidor começou a ser retomada. As pessoas começaram a voltar a circular nas ruas; voltaram a consumir, mas garantindo esse distanciamento. Por isso temos esse fôlego no varejo. Mas serviços ainda sofrem bastante por conta dessa necessidade muito forte de manter o isolamento.

    Vemos muita gente que já voltou a trabalhar [presencialmente], mas que continua, por exemplo, não indo ao cabeleireiro, à podóloga, à manicure – continuam não consumindo serviços que antes eram muito comuns. Isso tem feito com que esse setor demore mais a voltar para essa rota de recuperação.

    A que se deve a retomada das atividades de comércio e serviços?

    Cristina Helena de Mello Acredito que se deva basicamente à flexibilização [das medidas de isolamento social]. A flexibilização deu um novo ânimo. Já deveríamos ter percebido antes, por exemplo, as ações do Banco Central e as ações do Tesouro Nacional, de renda mínima [auxílio emergencial]. Elas se fizeram sentir antes [de maio e junho]. Então não faz sentido que o impacto viesse depois.

    A curva [de impacto] dessas ações não é uma curva longa. Quando você cria, por exemplo, uma expansão de crédito, em 30 dias você já consegue verificar esses impactos. Não precisa de tanto tempo. Credito esse movimento basicamente à flexibilização.

    Juliana Inhasz Acho que a reabertura é um fator muito importante porque faz com que as pessoas comecem a consumir coisas que não consumiram durante um bom tempo. Enquanto você está no home office, você não vê necessidade, por exemplo, de voltar a comprar roupas de trabalho. Voltar a circular faz com que algumas demandas voltem a ser necessárias.

    Mas acho que tem também um fator importante que é a percepção de que a economia começa a se reativar. Essa reativação muda a percepção do consumidor e do investidor frente à evolução da economia. As pessoas melhoram suas perspectivas. Indicadores de confiança do consumidor e do investidor, mesmo que estejam muito bons, começam a evoluir de uma forma mais positiva. E isso naturalmente vai dando dinâmicas cada vez maiores. Você começa a voltar a circular, a renda começa a circular mais, a demanda começa a aumentar. As pessoas começam a consumir. Isso tudo cria um cenário de consumo maior, de vendas maiores.

    E não podemos esquecer que dentro desse período há todos os programas sociais — dentre eles o auxílio emergencial, que injetou renda dentro da economia. E muita gente está ainda recebendo parcelas, que têm feito com que esse dinheiro tenha toda uma dinâmica dentro da economia e continue impulsionando o consumo. Isso tudo tem ajudado o comércio a se reaquecer, e ajudado a empurrar um pouco a economia.

    Podemos cravar que já passamos pelo fundo do poço?

    Cristina Helena de Mello Acho muito difícil fazer esse tipo de afirmação. Principalmente porque faz pouco tempo que começamos com a flexibilização. E há uma possibilidade não desprezível de termos que voltar a fazer um fechamento. Precisamos ver se as pessoas de fato estão se cuidando com a flexibilização e se não teremos um outro pico pandêmico; é uma possibilidade concreta. Isso pode impactar de novo o varejo e os serviços no curto prazo.

    A recuperação dos serviços como valor agregado, que mostra um sinal positivo, vai acontecer de forma diferente do que acontecia antes. Vamos ver uma recomposição. Temos um efeito renda e um efeito substituição. O efeito renda é: à medida que formos flexibilizando, haverá um aumento da demanda e uma retomada do setor. Varejo e serviços vão crescer. Mas há um efeito substituição: as pessoas mudaram seus estilos de vida, mudaram seus comportamentos de consumo. Alguns serviços que antes tinham um mercado expressivo vão ver encolher essa demanda, e alguns serviços que batalhavam muito para conseguir um espaço de mercado estão, hoje, se colocando com um crescimento bastante substantivo.

    Por exemplo, essa demanda por tecnologia de informação era menor, tende a ser maior a partir de agora. Reformas domésticas e o cuidado com o espaço de moradia tendem a ser maiores. A demanda por produtos que são sustentáveis também tem crescido bastante. Imagino que alguns serviços imagino demorem um pouco para ter uma retomada. E alguns serviços provavelmente vão simplesmente deixar de existir. Tem outra questão que acho importante que é a oferta por meio digital e eletrônico, que veio para ficar.

    Juliana Inhasz Podemos pensar neste momento [13 de agosto] que, dentro dessa primeira onda – que esperamos que seja única –, já passamos pela situação mais crítica. Mas é muito difícil dizer que o fundo do poço já passou. Porque o momento que vivemos é um momento de muita incógnita e incerteza.

    Naturalmente, vamos precisar começar a repensar políticas de ajuste, políticas estruturais. E o desemprego ainda é muito alto. Corremos o risco de essa situação que vivemos hoje – que é um momento extremo – criar fragilidades econômicas e sociais que podem, daqui um ou dois anos, piorar muito a situação das pessoas. O grande medo é que esse desemprego muito alto comece a piorar a distribuição de renda, piore ainda mais a produtividade, e isso comece a criar cicatrizes muito profundas dentro da sociedade.

    É difícil dizermos que o fundo do poço já passou. Dentro do cenário deste ano, aparentemente sim – começamos a tomar uma trajetória de retomada, que não é muito rápida, mas é uma retomada. Mas é difícil dizer se esse episódio não pode se desdobrar ainda num cenário pessimista lá para frente. A economia brasileira não estava bem antes da pandemia, trazíamos uma herança de um momento bem delicado. É muito difícil fechar um diagnóstico e acreditar que, quando tudo isso estiver de fato bem controlado, a gente vai conseguir respirar muito aliviado. Parece que em 2020 o pior ficou para trás, mas é bom manter a atenção e ficar vigilante para não ser pego de surpresa.

    A reabertura econômica, da forma que está ocorrendo (com protocolos mas sem o contágio estar controlado), é capaz de sustentar um crescimento prolongado do comércio e dos serviços? Que fatores podem interferir nessa trajetória?

    Cristina Helena de Mello Temos um tipo de impacto na economia que é o chamado once and for all [de uma vez por todas, em português], em que há um aumento e esse aumento se estabiliza. Não caracteriza uma tendência de crescimento. A flexibilização tem esse tipo de impacto: ela vai levar a um crescimento, uma retomada, mas deve estabilizar.

    Com a flexibilização, aumentamos o consumo das famílias, que é uma variável que depende do desempenho da economia. Ela [a atividade] reage porque flexibilizamos [as medidas de isolamento social] – as pessoas podem voltar a comprar fisicamente. Mas é uma variável dependente do comportamento da renda. Ela vai até um determinado patamar e estabiliza.

    O que pode fazer esse crescimento aumentar como tendência seria uma retomada dos investimentos produtivos, dos gastos públicos e das exportações. Por outro lado, cortes nos investimentos ou nos gastos públicos, ou uma retração das exportações podem imprimir uma tendência negativa.

    Juliana Inhasz Por um lado, me parece que sim, porque você tem uma reativação da economia. Há uma abertura que é cuidadosa, mas ao mesmo tempo não se furta de fazer a economia funcionar. Mas, por outro lado, não podemos esquecer que uma parte muito importante para esse efeito acontecer é a percepção do consumidor. Não adianta a reabertura acontecer se as pessoas não estiverem seguras de que podem estar na rua e consumir.

    Se essa população que está hoje retomando as atividades, voltando às ruas, começar a perceber que tudo está piorando e voluntariamente voltar para casa, fechar a porta e não querer mais sair, perdemos a possibilidade de conseguir seguir nessa rota.

    O consumidor também olha a retomada da economia frente ao desemprego. Se os números do desemprego começarem a ceder – e eles só vão ceder se o investidor tiver um aumento da sua confiança –, as coisas começam a melhorar. O investidor só vai apostar na economia brasileira se ver que as políticas econômicas estão sendo feitas para colocar as coisas nos eixos.

    Acho que o brasileiro vai se sentir mais confortável para consumir se perceber que o emprego dele está relativamente garantido, que existem políticas públicas sendo feitas no sentido de garantir a renda e um crescimento econômico sólido e sustentável. E, inevitavelmente, estamos falando de fazer políticas macroeconômicas estruturais. De tentar controlar de alguma maneira o deficit público, a dívida, de tentar retomar a agenda de propostas que acabou ficando engavetada no começo da pandemia.

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