Um retrato dos pacientes com coronavírus nas UTIs brasileiras

Levantamento de associação médica aponta discrepâncias entre os sistemas público e privado no tratamento da covid-19 no Brasil

    Um levantamento da Amib (Associação de Medicina Intensiva Brasileira) com dados de aproximadamente um terço dos leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do país revela as discrepâncias entre os sistemas público e privado no tratamento da covid-19. O recorte da pesquisa abrange de 1º de março a 5 de agosto de 2020.

    Um exemplo é a taxa de mortalidade pela doença causada pelo novo coronavírus, significativamente maior nos hospitais públicos do que na rede privada. O índice de pacientes com comorbidades, doenças que aumentam o risco de agravamento de um quadro de covid-19, também é maior nas instituições do Estado.

    Intitulado “UTIs brasileiras”, o trabalho reúne informações de 16.457 leitos em 617 hospitais de 25 estados brasileiros. De acordo com dados de entidades da saúde, incluindo o Datasus (central de dados do Sistema Único de Saúde), o país tem hoje 45.848 leitos nesta categoria.

    Segundo a Amib, o projeto procura compartilhar informações que possam auxiliar na orientação de políticas de saúde, além de incentivar o uso de dados confiáveis na gestão das UTIs do país. O projeto tem como modelos iniciativas similares no Reino Unido e na Nova Zelândia.

    O levantamento computou um total de 201.280 novas internações em UTIs durante os cinco meses avaliados. Desse total, 18% foram por covid-19, o que equivale a 37.854 admissões nas unidades intensivas por conta da doença causada pelo novo coronavírus. Desse total observado, 26.165 eram internações em hospitais privados e 11.689 em estabelecimentos da rede pública.

    Considerando o total de hospitalizações em unidades intensivas por covid-19, aproximadamente 60% eram de homens, e 44% tinham idade igual ou maior que 65 anos. Os pacientes com mais de 80 anos representavam 15,5%.

    35,6%

    dos pacientes de UTIs da pesquisa tinham comorbidades como obesidade, diabetes ou problemas cardíacos. O número é maior na rede pública (41,9%) que na privada (32,9%)

    De acordo com dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), cerca de 80% dos pacientes com covid-19 apresentam sintomas leves e não precisam recorrer a um hospital. Cinco por cento do total de infectados necessita ficar em uma UTI.

    Tempo de permanência

    De acordo com os dados da pesquisa da Amib, os pacientes com covid-19 permanecem internados em UTIs por 11,8 dias, em média. Essa taxa significa que por mês cada leito de unidade intensiva consegue receber apenas três pacientes.

    O número é significativamente maior que a taxa média geral de dias internados em uma UTI, de 7,5 dias. Cerca de 14% dos pacientes de covid-19 ficam mais de 21 dias na UTI.

    Nos primeiros meses da pandemia, a grande preocupação das autoridades de saúde para diminuir a quantidade de infecções e “achatar a curva” da subida de casos estava relacionada a esse tempo de permanência. Um número elevado de pacientes nas unidades intensivas, ocupando os leitos por períodos prolongados, poderia levar ao colapso do sistema público de saúde.

    De acordo com dados levantados pela revista Veja junto a secretarias de Saúde estaduais, em 4 de agosto, 16 das 27 capitais brasileiras contavam com taxa de ocupação de camas de UTI abaixo de 70%. Acima desse percentual, as autoridades consideram que existe forte risco de colapso da rede médica pública. Quatro capitais apresentavam índices bastante altos: Porto Alegre (90%), Brasília (86%), Curitiba (86%) e Belo Horizonte (84%).

    Taxas de mortalidade

    De acordo com o levantamento, o índice de mortalidade nas unidades intensivas, considerando a totalidade dos casos de covid-19, é bem maior na rede pública. Nas UTIs do SUS, a taxa chega a 49,6% dos internados. Em comparação, na rede privada a taxa é de 27,7%.

    “Na terapia intensiva, muito do resultado depende da qualidade do atendimento”, disse ao Nexo, em maio de 2020, o médico Ederlon Rezende, diretor do serviço de medicina intensiva do Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo e membro do conselho consultivo da Amib. “Quando se está dentro de um cenário de colapso do sistema de saúde, com as UTIs lotadas, equipes sobrecarregadas e uma condição fora do habitual, os resultados são muito piores.”

    O levantamento apresenta desfechos de 85% das internações por covid-19 analisadas, ou 32.251 casos. Desse total, quase metade dos pacientes de UTI na rede privada precisou de ventilação mecânica invasiva, procedimento em que um tubo é inserido pela boca do paciente até a traqueia. Então, um ventilador mecânico sopra ar comprimido com oxigênio para as vias aéreas. O número de pacientes que precisou desse recurso sobe para 65% na rede pública.

    Dentre os pacientes submetidos à respiração mecânica, nas UTIs e fora delas, os números de mortalidade das redes particular e público se aproximam, ficando, respectivamente, em 61,9% e 69,9%. São taxas elevadas que indicam que a maioria dos pacientes que precisa recorrer ao aparelho não consegue sobreviver, segundo a pesquisa da Amib.

    “Os pacientes que precisam da ventilação mecânica são, de todos os que têm a doença, os mais graves. Porque eles perderam a capacidade de funcionamento do pulmão. O que faz com que a mortalidade seja alta não é a utilização do ventilador, é o fato de que quem precisa do ventilador ser mais grave”, afirmou Rezende.

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