Quais os questionamentos à vacina russa anunciada por Putin

Presidente do país afirma ter dado a primeira autorização regulatória do mundo para a produção de um imunizante contra a covid-19

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, anunciou nesta terça-feira (11) ter dado a primeira autorização regulatória do mundo para a produção de uma vacina contra a covid-19.

O anúncio tem, entretanto, uma contradição: ao mesmo tempo que ele prevê o início da distribuição comercial das doses para janeiro de 2021, ele também informa que novos testes clínicos serão conduzidos em milhares de pessoas. Isso, na prática, não esclarece se essa vacina está na mesma fase que outras semelhantes, desenvolvidas mundo afora.

O medicamento, produzido pelo Instituto Gamaleya de Moscou, recebeu a aprovação do Ministério da Saúde russo apenas dois meses depois de seu primeiro teste e estaria disponível para distribuição, de acordo com o anúncio de Putin, em 1º de janeiro de 2021.

O presidente russo disse que sua própria filha já foi vacinada. De acordo com ele, Maria Vorontsova, médica pediatra de 35 anos, teve febre depois de receber duas doses da vacina, mas “ela se sente bem e os anticorpos estão altos”, disse Putin.

A droga deve ser comercializada no mercado internacional com o nome de Sputnik-V, em referência ao primeiro satélite artificial lançado pelo homem em órbita, em 1957, quando a Rússia impôs derrota aos americanos na corrida espacial que se estabeleceu na Guerra Fria (1945-1991).

Questionamentos e temores

A OMS (Organização Mundial da Saúde) diz que a Sputnik-V, desenvolvida pelo Gamaleya, está ainda na primeira das três fases de testes necessárias antes de a vacina ser distribuída comercialmente.

Dessa forma – ao contrário do que Putin afirma –, a vacina russa não estaria em estágio diferente ao de outros medicamentos da mesma natureza.

Até 31 de julho, a OMS afirmava haver 160 vacinas em desenvolvimento no mundo, sendo 26 delas em fase de estudos clínicos, o que significa aplicação em humanos. No dia do anúncio de Putin, cinco delas (três chinesas, uma britânica e uma americana) estavam na terceira e última fase de testes.

Uma das premissas que envolvem pesquisas envolvendo as vacinas é a publicação dos estudos em revistas médicas especializadas, para que outros pesquisadores possam analisar os procedimentos seguidos e os resultados alcançados, de maneira independente.

Isso não aconteceu com a vacina russa: outro fato que levanta questionamentos da comunidade científica internacional é a ausência de documentos públicos a respeito da pesquisa, de forma que outros pesquisadores possam avaliar os métodos e resultados de forma autônoma.

As fases de desenvolvimento de vacinas

EXPLORATÓRIA

Nesta etapa inicial, são feitas pesquisas para a identificação dos antígenos, substâncias estranhas ao organismo que desencadeiam a produção dos anticorpos.

PRÉ-CLÍNICA

Por meio de testes em laboratório, o imunizante é testado em animais, como camundongos e macacos, para se conhecer os efeitos farmacológicos e toxicológicos antes dos testes em humanos.

CLÍNICA

É a etapa em que a vacina é testada em humanos, em três fases: na 1, com um número que varia de 20 a 100 voluntários saudáveis, busca-se responder se o imunizante é seguro. Na fase 2, com centenas de voluntários, os pesquisadores avaliam as respostas do sistema imunológico. Já na fase 3, estuda-se a efetividade da vacina. Se aprovado, o produto obtém registro e pode ser fabricado e disponibilizado para a população.

Apesar de divulgar parâmetros de boa prática, não cabe à OMS aprovar ou não determinada vacina. A organização disse ter entrado em contato com autoridades russas, entretanto, para se informar sobre os procedimentos seguidos e os planos futuros.

O ministro da Saúde da Rússia, Mikhail Murashko, afirmou que a Sputnik-V “passou os testes necessários”. Putin, por sua vez, disse que esse “é um passo muito importante para o mundo”. Apesar disso, a agência de notícias oficial do país (que também se chama Sputnik) informou que testes continuarão a ser feitos com “milhares de pessoas”.

Convênio com o Paraná

Apenas horas depois do anúncio, o governador do estado do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), anunciou que assinará um convênio com a Rússia, por meio de representantes da embaixada no Brasil.

O Tecpar (Instituto de Tecnologia do Paraná) ficará responsável pelas pesquisas no Brasil, caso haja aprovação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Jorge Callado, diretor-presidente do Tecpar, disse em entrevista à Globonews que essa cooperação está em numa “fase muito inicial das tratativas”. Ele pediu “prudência”, “segurança” e “transparência” no processo que deve culminar com transferência de tecnologia para a produção da vacina no Brasil, no futuro, com autonomia.

Uma vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford e a farmacêutica Astrazeneca está sendo testada no Brasil, sob condução da Fundação Oswaldo Cruz, vinculada ao governo federal.

Um outro imunizante, da empresa chinesa Sinovac, também está em testes no país, sob responsabilidade do Instituto Butantan, órgão do governo de São Paulo. Ambas estão na última fase de testagem e, se bem-sucedidas, espera-se que comecem a ser distribuídas no primeiro semestre de 2021 – de acordo com as previsões mais otimistas.

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