Como a pandemia impactou os negócios do Uber

Empresa divulgou dados sobre o desempenho no segundo trimestre de 2020. Aplicativo de transporte registrou quedas significativas, enquanto plataforma de delivery dobrou em performance

    Fundada em 2009 com a promessa de ser uma revolução na mobilidade urbana, a empresa de aplicativos Uber viu seu faturamento despencar em meio à pandemia de covid-19, doença causada pelo novo coronavírus.

    Na quinta-feira (6), a companhia americana, que abriu seu capital para a bolsa de valores em 2019, divulgou os resultados do segundo trimestre de 2020, com dados que vão do dia 30 de março ao dia 30 de junho.

    Dado o isolamento social em diversas partes do mundo, o Uber registrou queda no número de usuários ativos, queda no número de viagens e, principalmente, queda no faturamento. Por outro lado, o Uber Eats, aplicativo de delivery da empresa, viu sua operação aumentar globalmente.

    Os principais números

    Abaixo, o Nexo compila os principais números da operação global do Uber no segundo trimestre de 2020. Ao falarmos em queda e aumento, estamos comparando os números com os do mesmo período no ano de 2019.

    • Queda de 29% no faturamento total da empresa, o equivalente a uma perda de US$ 1,8 bilhão;
    • Queda de 67% no faturamento total do aplicativo de transporte, o equivalente a uma perda de US$ 1,5 bilhão;
    • Queda de 44% nos usuários ativos mensais dos aplicativos Uber e Uber Eats, o equivalente a 44 milhões de usuários ao redor do mundo;
    • Queda de 56% no número de viagens realizadas globalmente. No segundo trimestre de 2019, foram 1,6 bilhão de viagens. Em 2020, o número registrado foi de 737 milhões de viagens;
    • Aumento de 103% no faturamento total do Uber Eats, aplicativo de delivery de restaurantes, o equivalente a um ganho de US$ 616 milhões;
    • Aumento de 50% no número de restaurantes parceiros no Uber Eats. Globalmente, são mais de 500 mil estabelecimentos que estão na plataforma.

    A operação do Uber nos EUA e no Canadá foi a mais atingida pela pandemia de covid-19, com um encolhimento de cerca de US$ 717 milhões no faturamento total. Na América Latina, a queda registrada foi de US$ 185 milhões.

    Para Ivan Hartmann, coordenador do Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro, os números apresentados pelo Uber no segundo semestre de 2020 podem sinalizar uma mudança de comportamento no médio e longo prazo – uma que pode refletir na mentalidade da empresa.

    “É possível que em 2021, se estivermos fora de um cenário de quarentena, não vejamos o aplicativo de transporte individual movimentar o que movimentava em 2018 e 2019”, disse ao Nexo.

    “E eles podem a partir disso ter um prognóstico favorável para a empresa, com eles concluindo que talvez parte do ‘novo normal’ seja o fato das entregas serem um filão mais sustentável”, afirmou.

    Hartmann ressalta que se trata de uma previsão e que só vai ser possível avaliar o cenário com mais exatidão quando a pandemia tiver passado e for possível comparar novos dados com aqueles que existiam antes da covid-19.

    Segundo Fabro Steibel, diretor executivo do Instituto de Tecnologia & Sociedade do Rio de Janeiro, o encolhimento nos números do Uber não é algo passageiro – por questões inerentes ao modelo de negócios da empresa.

    “Isso deve persistir no médio e no longo prazo. O desafio do modelo híbrido (estrutura que depende do online e do offline simultaneamente) é real”, disse ao Nexo.

    “Não é que essas operações não possam ser lucrativas, é que é um negócio que não é escalável, ainda estamos aprendendo sobre esse modelo de negócios. É tudo muito novo. Eles têm dificuldades em serem rentáveis fora das grandes cidades, porque os custos são muito altos”, acrescentou.

    Planos para o futuro. E um panorama da empresa

    No segundo trimestre de 2020, o Uber apostou em novas iniciativas para contornar os efeitos da pandemia.

    A principal iniciativa ocorreu em julho, com a consolidação da aquisição da Cornershop, uma startup chilena especializada no delivery de compras de supermercado – as negociações começaram em outubro de 2019. A novidade já está disponível para os usuários brasileiros, que podem encomendar suas compras tanto no Uber, quanto no Uber Eats.

    Nesta terça-feira (11), o Uber anunciou aos usuários brasileiros a chegada do Uber Pass, uma assinatura que oferece descontos e outros benefícios por uma mensalidade de R$ 24,99. Nos EUA, a modalidade existe desde 2019.

    No relatório, o Uber anunciou que arrecadou US$ 1 bilhão por meio de empréstimos para expandir sua operação, implementar novas estratégias e possivelmente adquirir outras startups.

    A empresa também disse estar confiante de que vai conseguir tornar sua operação lucrativa antes do fim de 2021.

    Em maio de 2019, o Uber passou a negociar ações na bolsa de valores de Nova York. No dia da abertura, a empresa era avaliada em US$ 82,4 bilhões. Dois dias depois, o valor caiu para US$ 62,2 bilhões.

    Um mês antes de abrir o capital, o Uber enviou um relatório para os investidores em que afirmava que talvez o lucro nunca chegasse.

    Em um artigo publicado no blog da Universidade da Pensilvânia, Gad Allon, professor de economia na instituição, afirma que o principal problema para o Uber é que o crescimento das operações da empresa não acompanha o aumento dos gastos.

    O economista e professor da Universidade de Columbia Len Sherman publicou em 2017 um artigo na revista Forbes tentando entender as razões de o Uber não ser uma empresa lucrativa.

    Segundo Sherman, o próprio modelo de negócios não é sustentável. No texto, o economista afirma que, quando o Uber surgiu, a empresa prometia ser uma disrupção no mercado de táxis. Porém, ele aponta que o mercado de táxis nunca foi lucrativo nos EUA, onde era apenas uma indústria que conseguia se sustentar.

    No artigo, Sherman demonstra que, entre 1937 e 2017, a receita das empresas de táxi da cidade de Nova York encolheu 20%, mesmo com o crescimento populacional da metrópole, algo que, em tese, traria mais demanda para o serviço.

    Vendo por um contexto histórico, as perdas do Uber não são somente um caso das dores do crescimento de uma empresa ambiciosa do Vale do Silício, mas um reflexo das deficiências estruturais profundas da economia do transporte pessoal, afirmou o economista.

    De acordo com ele, a raiz dos problemas do Uber estão no fato de a empresa oferecer uma nova roupagem e tecnologias para um serviço que já era prestado, o que não muda as dinâmicas comerciais que já existiam antes de seu surgimento.

    Apesar de não gerar lucros, o Uber continua a ter acionistas que acreditam no potencial da empresa e a receber aportes de investimentos e vender ações na bolsa.

    Para Ivar Hartmann, a operação no prejuízo pode ser parte de uma estratégia de negócios – uma que é atraente para investidores.

    “Cada novo passageiro que o Uber atrai torna a plataforma mais atraente para os motoristas”, disse. “O motorista quer estar na plataforma que tem mais passageiros, e o reverso também é verdadeiro”.

    “É perfeitamente natural que essas empresas tenham como objetivo nos primeiros anos crescer a própria rede e deixar para ser lucrativa mais adiante. Os acionistas sabem disso”, concluiu.

    Fabro Steibel concorda com essa visão. “A fórmula dessas plataformas não é revolucionária. O jeito que eles conquistam mercado que é. Quem chega antes consegue ter mais fornecedores e mais consumidores, e isso cria o jogo. É viável que a empresa atinja o lucro em 2021”, disse.

    Em cima da operação não lucrativa, o Uber também enfrenta pressão de órgãos reguladores e motoristas do mundo todo, que reivindicam melhores benefícios para os trabalhadores que operam nas plataformas.

    Mesmo com a pressão, o Uber argumenta que não tem responsabilidade em acatar as reivindicações, já que motoristas e entregadores seriam trabalhadores autônomos, sem vínculos empregatícios.

    No Brasil, a Justiça do Trabalho rejeitou a ideia de que exista vínculo empregatício entre os trabalhadores e a plataforma. A decisão, unânime, foi julgada em fevereiro de 2020.

    Não há consenso sobre o tema. Em países como o Reino Unido, a Argentina e o estado da Califórnia, nos EUA, juízes entenderam que há sim vínculo empregatício e que, por isso, esses trabalhadores precisam ter direitos e proteções garantidas.

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