Como Bolsonaro tenta se afastar da marca de 100 mil mortes

Após número de óbitos ser atingido na pandemia do novo coronavírus, Planalto municia aliados e reforça estratégia de responsabilizar governadores e prefeitos usando até notícia falsa

Jair Bolsonaro tenta se desvincular das 100 mil mortes ocorridas no Brasil devido à covid-19, doença causada pelo novo coronavírus. A marca foi alcançada em 8 de agosto de 2020, quase cinco meses após a OMS (Organização Mundial da Saúde) decretar estado de pandemia.

O presidente foi criticado por negar a gravidade da situação e por declarações anticientíficas, como sua oposição ao isolamento social recomendado por autoridades sanitárias e sua defesa da cloroquina, um remédio sem eficácia comprovada contra a covid-19. Demitiu também dois ministros da Saúde durante a crise.

A área continua sem um titular. O general Eduardo Pazuello comanda o ministério interinamente, com grande presença de militares ao seu redor. Na imprensa mundial, o presidente brasileiro é listado como integrante da aliança dos avestruzes, em referência à ave que põe a cabeça em um buraco no chão.

Na quinta-feira (6), durante assinatura da medida provisória que destina recursos à compra da vacina que está sendo testada pelo laboratório AstraZeneca e pela Universidade de Oxford, Bolsonaro disse que está com a “consciência tranquila” e que fez o possível e o impossível.

Abaixo, o Nexo lista três movimentos do presidente e de seu governo ocorridos após o registro das 100 mil mortes que tentam afastar o Palácio do Planalto da tragédia sanitária pela qual passa o país.

O ranking de mortes por governadores

No dia em que o Brasil alcançou as 100 mil mortes pela covid-19, o Palácio do Planalto distribuiu um relatório para parlamentares no qual destaca um ranking de mortes e contaminações por governadores e prefeitos.

O documento, que usa dados do Ministério da Saúde, é assinado pela Secretaria Especial de Assuntos Federativos, subordinada ao general Luiz Eduardo Ramos na Secretaria de Governo, responsável pela articulação política do governo no Congresso.

Em nota, a secretaria afirmou que os dados servem para “contribuir internamente na gestão de curto prazo de como a pandemia está se comportando nos estados e municípios”.

O compilado foi uma alternativa encontrada pelo governo para municiar sua base sobre a eventual associação entre Bolsonaro e o alastramento da doença no país, segundo o jornal Folha de S.Paulo.

A iniciativa reforça a estratégia do Palácio do Planalto de atribuir a gestão da crise sanitária a governadores e prefeitos, a partir de uma interpretação incorreta de decisões do Supremo tomadas entre os meses de abril e maio.

O tribunal reconheceu a autonomia das administrações locais nas ações sanitárias e reafirmou que estados e municípios tinham a palavra final sobre medidas de isolamento social. Mas não eximiu o governo federal de coordenar ações e promover o combate à covid-19.

O vídeo com notícia falsa

Bolsonaro já deu diversas declarações públicas que tentam atribuir o tamanho da crise sanitária a governadores e prefeitos. “O STF determinou que as ações diretas em relação à covid-19 são de responsabilidade de estados e municípios”, escreveu o presidente no Twitter em 19 de junho, por exemplo.

Na segunda-feira (11), Bolsonaro compartilhou um vídeo em suas redes sociais em que o jornalista Milton Cunha, da afiliada da TV Band no Rio Grande do Sul, diz que “tiraram os poderes do chefe da nação”, em alusão equivocada à decisão do Supremo.

O jornalista criticou ainda o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, demitido em 16 de abril, após não incentivar as ideias do presidente no combate à pandemia.

No vídeo compartilhado pelo presidente, Milton Cunha chama Mandetta de “marqueteiro” e diz que o ex-ministro errou ao recomendar, em abril, que a população só procurasse ajuda médica se tivesse falta de ar. A partir de julho, o governo recomendou tratamento médico até para pessoas com sintomas leves.

Em outro ponto do vídeo compartilhado por Bolsonaro, Cunha defendeu que pacientes utilizem a azitromicina e hidroxicloroquina combinadas no tratamento contra o coronavírus. Bolsonaro tem feito propaganda dos dois medicamentos dizendo que ambos foram importantes em sua recuperação. Os remédios, no entanto, não possuem comprovação científica para o tratamento da covid-19. Órgãos nacionais e internacionais, como o Conselho Nacional de Saúde e a Organização Mundial da Saúde, desaconselham o uso dos tratamentos.

A defesa do ‘placar da vida’

Uma reportagem do jornal O Globo de terça-feira (11) afirma que a Secom (Secretaria de Comunicação) desenvolveu materiais informativos para defender a atuação do governo durante a pandemia do novo coronavírus.

A ideia é trabalhar com o “placar da vida”, para combater aquilo que o governou convencionou chamar de a “transformação dos números em tragédias”. O intuito é aproveitar postagens em redes sociais para mostrar o que o Palácio do Planalto fez para conter o avanço do vírus.

Um exemplo foi a resposta que a pasta deu ao ex-ministro da Justiça Sergio Moro, que utilizou sua página no Twitter para fazer críticas ao governo.

O ex-juiz ficou no governo por quase 16 meses, mas pediu demissão após atritos com o presidente envolvendo o comando da Polícia Federal. “Não podemos nos conformar, nem apenas dizer #CemMilEdaí. São mais de 100 mil mortos; 100 mil famílias que perderam entes para a covid-19. Que a ciência nos aponte caminhos e que a fé nos dê esperança”, escreveu Moro.

A crítica foi rebatida por uma sequência de 16 mensagens da Secom com dados, ações e iniciativas do governo contra o coronavírus. De acordo com as mensagens, o Brasil tem uma das menores taxas de mortes por milhão entre as grandes nações. Segundo a Universidade de Oxford, no entanto, o Brasil tem a 11ª taxa por milhão. A Secom diz ainda que três milhões de brasileiros se recuperaram da doença.

A postagem cita o auxílio emergencial de R$ 600 como medida para restabelecer a economia afetada pela crise. Bolsonaro e Paulo Guedes, ministro da Economia, propuseram o auxílio no valor de R$ 200. O aumento aconteceu após pressão de parlamentares na Câmara dos Deputados.

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