Como Aimé Césaire inspira movimentos negros e anticoloniais

Nova edição de ‘Discurso sobre o colonialismo’, publicado em 1950 pelo autor nascido em Martinica, foi lançada em julho de 2020

Estamos com acesso livre temporariamente em todos os conteúdos como uma cortesia para você experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Conheça nossos planos de assinatura. Assine o Nexo.

Temas
Foto: Vincent Kessler/Reuters
Homem idoso negro, sorrindo, de óculos de aro redondo dourado, camisa e gravata
O poeta e político Aimé Césaire em 2007

Em 2020, pessoas negras de países como EUA e Brasil, de herança escravocrata, foram às ruas protestar contra a violência policial. Estátuas de personalidades ligadas ao colonialismo e à escravidão foram derrubadas. O debate sobre antirracismo e valorização da cultura e da ancestralidade negras tem atingido proporção talvez inédita com o auxílio das redes sociais.

De alguma maneira, todos esses temas estavam sendo discutidos por Aimé Césaire (1913-2008) no século passado. Césaire foi um poeta, dramaturgo, ensaísta e político nascido em Martinica, ilha caribenha que, após a colonização, se tornou território ultramarino da França (status que mantém até hoje). Seus escritos, assim como sua atuação política e cultural, se voltaram à crítica ao colonialismo e ao capitalismo e influenciaram gerações de intelectuais e artistas – sobretudo negros – de diferentes países.

Um de seus textos seminais, o “Discurso sobre o colonialismo” ganhou em julho de 2020 uma nova edição pela editora Veneta, com tradução de Claudio Willer, notas explicativas e uma cronologia que resgata fatos importantes relativos à história da colonização nas Américas e à biografia do autor. O livro conta também com ilustrações do quadrinista Marcelo D’Salete feitas a partir do texto de Césaire.

Com os desenhos, D’Salete criou um ensaio visual que dialoga com a obra do autor ao mesmo tempo em que faz conexões externas a ela. Elas vão do personagem dos quadrinhos Tintim, do belga Hergé, acusado de promover um discurso racista em históricas como “Tintim no Congo”, à realidade atual da mineração que abastece a produção de dispositivos eletrônicos à custa da exploração do trabalho de africanos, também no Congo.

Foto: Marcelo D'Salete/Cedido pela editora Veneta
Personagem Tintim, da HQ As aventuras de Tintim, empunha arma e atira
Ilustração de Marcelo D'Salete para o livro ‘Discurso sobre o colonialismo’
Foto: Marcelo D'Salete/Cedido pela editora Veneta
Dois desenhos, um acima do outro. O primeiro mostra rapaz negro peneirando um curso de água à procura de metal. No segundo ele mostra o conteúdo dessa bacia ou peneira e aparelhos celulares o cercam
Ilustração de Marcelo D'Salete para o livro ‘Discurso sobre o colonialismo’

O discurso

A obra “Discurso sobre o colonialismo” foi publicada pela primeira vez em 1950, por uma pequena editora ligada ao Partido Comunista Francês. Não chamou tanta atenção em um primeiro momento, mas repercutiu fortemente ao ser reeditada em 1955 pela editora Présence Africaine.

O texto curto e contundente se tornou o livro de cabeceira de militantes anticolonialistas, em um momento em que as lutas de libertação nacional em relação ao domínio colonial europeu fervilhavam na África e na Ásia. O discurso inspirou líderes do movimento pan-africano e os Panteras Negras, sendo repetidamente citado pelo psiquiatra e militante anticolonial martiniquense Frantz Fanon e pelo belga Raoul Vaneigem, espécie de ideólogo do maio de 1968 francês.

No livro, Césaire ataca a hipocrisia do humanismo europeu, em particular de intelectuais franceses, confrontando teorias racistas que serviram para legitimar a colonização dos povos não brancos.

“Ele diz tudo aquilo que hoje se tornou mais ou menos normal, mas que na época ninguém ousava dizer”, disse ao Nexo Eurídice Figueiredo, professora do programa de pós-graduação em estudos de literatura da UFF (Universidade Federal Fluminense).

Utilizando recursos retóricos como a repetição, para dar ênfase a determinados argumentos, e a ironia, Césaire procura demonstrar – revolvendo a chaga recente da Segunda Guerra Mundial – como a semente para a ascensão de líderes como Hitler foi a cumplicidade da burguesia europeia com a barbárie do colonialismo.

“Toleraram [o nazismo] antes de sofrê-lo; absolveram-no, fecharam seus olhos e o legitimaram, porque, até então, havia sido aplicado apenas a povos não europeus. [...] Essa é a grande acusação que eu dirijo ao pseudo-humanismo: ter por muito tempo reduzido os direitos humanos, ter ainda uma concepção estreita e fragmentada deles, parcial e tendenciosa e, considerando tudo, sordidamente racista”

Aimé Césaire

trecho de ‘Discurso sobre o colonialismo’

“Continua atual porque, no fundo, não há nada a acrescentar. Ele examina os malefícios da colonização e da escravização tanto para as vítimas quanto para os europeus”, afirmou a professora.

Para Césaire, a incapacidade da Europa de resolver o “problema colonial”, que ela mesma criou, é um sinal de sua decadência enquanto civilização.

Foto: Marcelo D'Salete/Cedido pela editora Veneta
Desenho de pessoas negras protestando empunhando bandeiras e com o punho para o alto
Ilustração de Marcelo D'Salete para o livro ‘Discurso sobre o colonialismo’

Ele escreveu: “Seria preciso, antes, estudar como a colonização funciona para descivilizar o colonizador; para brutalizá-lo no sentido apropriado da palavra, degradá-lo, despertá-lo para instintos soterrados, cobiça, violência, ódio racial, relativismo moral, e mostrar que toda vez que no Vietnã há uma cabeça decepada e um olho perfurado, e na França se aceita isso, uma menina é estuprada, e na França se aceita isso, um malgaxe torturado, e na França se aceita isso, há um acréscimo de peso morto na civilização. Ocorre uma regressão universal, uma gangrena se instala, um foco de infecção se espalha, e que no final de todos esses tratados violados, todas essas mentiras propagadas, todas essas expedições punitivas toleradas, todos aqueles prisioneiros amarrados e ‘interrogados’, todos esses patriotas torturados, no final desse orgulho racial estimulado, dessa jactância propagada, existe o veneno incutido nas veias da Europa, e o processo lento, mas seguro, do asselvajamento do continente”.

“O torturador, o traficante de escravos, o senhor de escravos, o capataz da plantação, todas essas pessoas tornaram-se piores ao ter a autorização para cometer os crimes que cometeram. Essa discussão continua atualíssima porque o policial que assedia, agride, mata um negro, também se torna um péssimo ser humano”, disse Figueiredo ao Nexo.

O movimento da Negritude

Césaire também foi um grande poeta e autor de textos teatrais. Em 1939, publicou “Diário de um retorno ao país natal”, um poema longo sobre a busca dos colonizados e desenraizados por restabelecer sua ligação com seus lugares de origem.

“Partir. / Como existem homens-hienas e homens- / [panteras, eu serei / um homem-judeu / um homem-cafir / um homem-hindu-de Calcutá / um homem-do-Harlem-que-não-vota”, escreve em trecho do texto.

Mais tarde, na década de 1960, no contexto das guerras de libertação de nações africanas, escreveu peças como “A tragédia do rei Christophe”, ambientada no período após a independência do Haiti, ocorrida em 1804, “Uma temporada no Congo”, que trata da independência do Congo e do assassinato do líder Patrice Lumumba e “Uma tempestade”, releitura de “A tempestade” de Shakespeare, que reencena a colonização.

Na década de 1930, quando ainda era estudante em Paris, Césaire encabeçou um importante movimento literário batizado de Negritude. Ele foi impulsionado pelo contato do autor com a arte negra das máscaras e esculturas africanas, com artistas e estudiosos da história do continente e com poetas negros ligados à Harlem Renaissance, movimento cultural que havia florescido na década de 1920 em Nova York.

A Negritude afirmava a identidade negra e trazia a concepção de que africanos negros e seus descendentes, espalhados no mundo pela diáspora, compartilham um vínculo cultural.

“Apesar de algumas críticas feitas ao caráter essencialista da negritude, ela teve uma influência enorme para os negros em seus processos de autoconhecimento e empoderamento depois de ter sofrido as humilhações do período escravista e mesmo nos tempos subsequentes. Afirmar-se negro naquele momento já era um ato transgressivo e revolucionário”, disse a professora da UFF Eurídice Figueiredo ao Nexo.

Ela destaca que a Negritude não foi um movimento isolado. Reverberou no Caribe e na América do Sul, incluindo o Brasil, onde foi referência fundamental para o Teatro Experimental do Negro criado por Abdias Nascimento na década de 1940.

A carreira na política

O engajamento político de Aimé Césaire não se restringiu à sua produção literária. O poeta foi também prefeito da capital da Martinica, Fort-de-France, e deputado da Assembleia Nacional francesa (representando a Martinica) durante quase cinco décadas.

Mesmo tendo sido bastante respeitado e estimado também como político, Césaire foi alvo de críticas por seu apoio à lei que transformou a Martinica e outras ilhas do Caribe em departamentos da França, em 1946. Esse posicionamento, ligado a um temor de que o processo de independência fosse comandado pela elite local (os békés), foi percebido por muitos como uma contradição tendo em vista sua oposição à dominação colonial europeia.

Césaire faleceu em Fort-de-France em abril de 2008, aos 94 anos.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.