Quais os desafios de fazer uma vacina chegar à população

Quantidade necessária de doses, duração do produto após abertura do frasco e escassez global de insumos podem dificultar imunização

A corrida por uma vacina contra o novo coronavírus no mundo já tem mais de 165 candidatas em desenvolvimento, das quais 30 estão na fase de testes em humanos. Caso uma delas se mostre eficaz, o próximo desafio é aplicá-la. Os governos terão de produzi-la em larga escala e fazê-la chegar às pessoas.

A aplicação em uma ou duas doses, o tipo de frasco a ser usado, a duração da vacina após a abertura do frasco e as condições de armazenamento são algumas das questões que precisarão ser respondidas para que haja um planejamento da fase de vacinação.

O país precisará de uma alta capacidade de produção dos laboratórios e de logística na distribuição para vacinar uma parcela ampla da população. Já se sabe, porém, que não haverá, inicialmente, o imunizante para todos os 211 milhões de brasileiros.

A vacina da Universidade de Oxford e da farmacêutica AstraZeneca, que está sendo testada no Brasil, poderá ter 100 milhões de doses produzidas pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz). As primeiras 15 milhões de doses podem ser entregues em janeiro de 2021, a depender do resultado das pesquisas. O Instituto Butantan, ligado ao governo de São Paulo, também prevê uma produção de 120 milhões de doses da vacina chinesa desenvolvida pelo laboratório Sinovac.

Devido à quantidade insuficiente para atender toda a população de uma única vez, será preciso definir qual será o público-alvo. Secretário de Vigilância Sanitária do Ministério da Saúde, Arnaldo Medeiros afirmou em 5 de agosto que o país seguirá a mesma estratégia já usada na vacinação contra a gripe, o que causou críticas de especialistas em saúde, já que a covid-19 não ameaça os mesmos grupos.

“Temos 7 bilhões de pessoas no mundo e o ideal seria que vacinássemos o mundo inteiro. Infelizmente não temos essa possibilidade. No Brasil, a estratégia que usamos é a da influenza”

Arnaldo Medeiros

secretário de Vigilância Sanitária do Ministério da Saúde

A escolha do público-alvo

A vacina contra a gripe no Brasil é aplicada primeiro em pessoas do grupo de risco. São idosos, gestantes, trabalhadores da saúde, professores e crianças de seis meses a seis anos, entre outros. Esse grupo é escolhido por uma comissão de especialistas que analisa quais são as pessoas mais vulneráveis à doença.

No caso do novo coronavírus, sabe-se que crianças, embora possam se contaminar e transmitir o vírus, são na maioria das vezes assintomáticos ou desenvolvem sintomas leves. Por isso, muitos especialistas consideram um erro seguir a mesma lógica da influenza.

“A gente sabe que ela [covid-19] mata mais a população idosa, doentes crônicos, indígenas, negros e pobres. E por isso eles devem ser a prioridade”

Fernando Hellmann

doutor em saúde coletiva e pesquisador da Universidade Federal de Santa Catarina em entrevista ao jornal O Globo, na segunda-feira (10)

Especialistas também defendem que a vacinação priorize as regiões mais afetadas pela pandemia e com mais casos graves da doença. Um projeto de lei proposto pelo deputado Wolney Queiroz (PDT-PE), que ainda precisa ser votado no Congresso, pretende definir como grupos prioritários os profissionais de saúde, idosos, pessoas com doenças pré-existentes, profissionais da educação, atendentes dos setores público e privado e jornalistas. Só então as demais pessoas seriam vacinadas.

A vacinação de toda a população também não seria necessária para que se crie uma imunidade coletiva. Alguns especialistas acreditam que se algo em torno de 60% das pessoas adquirirem proteção (ou por meio de vacinas ou por desenvolverem anticorpos e células de defesa quando já tiverem sido infectadas) as demais também estariam protegidas. Numa comunidade com a maioria imune, um novo infectado pelo vírus encontraria maior dificuldade de transmiti-lo.

A definição das doses

Outro fator fundamental para a estratégia de vacinação será a quantidade de doses necessárias para se criar proteção contra a doença. Algumas vacinas, como a da gripe, são pouco eficazes, imunizando de 40% a 50% das pessoas que recebem a dose. Alguns imunizantes, portanto, podem precisar de duas doses. Se esse for o caso da vacina contra a covid-19, o desafio dos governos seria ainda maior.

Carla Domingues, que foi coordenadora do Programa Nacional de Imunização do Ministério da Saúde, afirmou em 23 de julho em evento online da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva) não ser factível o Brasil vacinar de 20 a 50 milhões de pessoas num curto espaço de tempo e, 15 dias depois, aplicar uma segunda dose nas mesmas pessoas. “Na campanha de influenza, para 80 milhões de pessoas, nós demoramos três meses para atingir a cobertura vacinal”, disse.

Outra questão diz respeito aos frascos utilizados. Alguns imunizantes, como o da febre amarela, são envasados em frascos multidoses — cada um deles carrega dez doses. Após aberto, porém, todas as doses precisam ser aplicadas num intervalo de quatro a seis horas. Caso o contrário, se perdem. A orientação do Ministério da Saúde é abrir os frascos independentemente da demanda.

Um estudo de 2013 publicado nos Cadernos de Saúde Pública da Fiocruz estudou a perda de doses em Unidades Básicas de Saúde de Curitiba. Os pesquisadores constataram que, entre 2007 e 2010, de 2 milhões de doses de vacinas distribuídas ao município, apenas 28% foram aplicadas. O resto se perdeu. Isso poderia ocorrer também com a vacina da covid-19, a depender de como será envasada.

“Se estamos falando de uma vacina multidose de um frasco aberto que tem que ser desprezado em seis horas, nós vamos ter uma perda de 50% na rotina do Programa Nacional de Imunizações e em torno de 10% a 20% numa campanha de vacinação. Esses dados são fundamentais para definir a estratégia de vacinação”

Carla Domingues

ex-coordenadora do Programa Nacional de Imunização do Ministério da Saúde, em evento online da Abrasco, em 23 de julho

A falta de insumos

A corrida por insumos durante a pandemia tem exposto também as dificuldades do país em adquirir e produzir materiais hospitalares. O Ministério da Saúde, por exemplo, tinha quase 10 milhões de testes PCR (que identificam a presença do vírus no organismo) estocados no final de julho. Eles não podiam ser usados por falta de reagentes. A pasta enfrentava problemas para conseguir importá-los.

Caso a vacina a ser usada contra o novo coronavírus seja aplicada por meio de seringas, também haverá um gargalo. Paulo Henrique Fraccaro, superintendente da Abimo, a associação da indústria de artigos e equipamentos médicos, disse ao jornal Folha de S.Paulo na segunda-feira (10) que o Brasil irá precisar, no mínimo, de 300 milhões de seringas num prazo de três ou quatro meses para a vacinação.

Segundo ele, produzir 50 milhões de seringas atualmente, no Brasil, leva cerca de cinco meses. Por isso, ele defende desde já um aumento na produção tendo em vista que a busca pelas seringas vai “crescer exponencialmente no mundo todo” quando a vacina da covid-19 ficar pronta. Ao mesmo tempo, as campanhas contra outras doenças continuarão normalmente, também necessitando dos mesmos itens.

O setor médico também vive uma escassez global de vidros usados na produção dos frascos que armazenam as vacinas. Empresas fabricantes do material têm recebido o dobro de pedidos que podem produzir por ano, e em junho o produto já estava em falta. O vidro medicinal é diferente dos comuns por usar materiais químicos que o tornam mais resistentes a variações de temperatura. As vacinas são guardadas em temperaturas negativas.

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