Quais os formatos da curva de recuperação econômica

Paulo Guedes faz referência ao logotipo da Nike para projetar trajetória da economia brasileira. Discussão entre economistas faz alusão às letras V, U, W, L e Z

A pandemia do novo coronavírus alterou os hábitos de boa parte da população. Ficar em casa, usar máscara e higienizar compras são algumas das ações que não faziam parte da rotina pré-pandêmica, mas que se tornaram algo comum. A mudança de hábito passou também pela expansão do vocabulário. Expressões antes raras ou simplesmente inexistentes entraram no léxico cotidiano: “isolamento social”, “achatamento da curva” e “quarentena” viraram “o novo normal”.

Entre economistas, não foi diferente. Em uma área dominada por um linguajar técnico – o famoso “economês”, idioma próprio da profissão –, alguns jargões ganharam destaque e passaram a ser repetidos exaustivamente. Talvez nenhum deles tenha sido reproduzido tantas vezes em 2020 quanto a “recuperação em V”.

Na quarta-feira (5), a frase “recuperação em V” foi usada novamente por Paulo Guedes, o ministro da Economia do Brasil. Guedes disse que a economia brasileira está “se recuperando no V da Nike”, fazendo alusão ao logotipo da marca de produtos esportivos, cuja subida é mais comprida e menos inclinada que a descida.

A recuperação em V

Entre todos os jargões de economistas, o uso do alfabeto para se referir à trajetória da economia talvez esteja entre os mais intuitivos. Ele se baseia no formato das letras do alfabeto latino para ilustrar o caminho traçado por algum indicador ao longo do tempo.

O uso do alfabeto na discussão econômica em 2020 se utiliza dos formatos das letras para descrever a intensidade e velocidade da recuperação econômica que haverá após o momento inicial da crise da pandemia do novo coronavírus – uma queda de proporção extraordinária nas economias ao redor pelo mundo. O debate com as letras leva em conta, portanto, que haverá uma recuperação após o choque inicial da pandemia. A exceção é a letra L, que descreve um cenário onde a economia cai, mas não se levanta.

Dentro dessa ideia, uma recuperação em V é aquela em que, após uma queda forte, o indicador tem uma recuperação rápida e acentuada. Em pouco tempo, ele retorna ao nível original, anterior ao tombo.

Na prática, a recuperação em V está entre as mais otimistas de todas as possibilidades alfabéticas. Ela significa que, mesmo após um forte choque negativo, a economia rapidamente retoma ao nível anterior. Na pandemia do novo coronavírus, é como se, após a retirada de medidas de isolamento social, a atividade econômica voltasse ao ponto em que havia sido suspensa.

A recuperação em U

A recuperação em U, por sua vez, é mais demorada que a recuperação em V. A economia retoma um ritmo de crescimento após a queda, mas não tão acelerado a ponto de voltar rapidamente ao nível pré-crise.

Na prática, a recuperação em “V de Nike” a que se referiu Paulo Guedes é muito mais próxima da recuperação em U do que em V. Leva-se mais tempo para retornar ao patamar anterior à eclosão da crise.

A recuperação mais demorada pode assumir diferentes variações. Uma possibilidade é aquela que começa lenta e ganha força mais adiante. Outra possibilidade é a recuperação que começa mais forte e torna-se menos intensa ao longo do tempo, em um formato mais próximo a um visto – ou ao logotipo da Nike.

Nos EUA, economistas costumam diferenciar esses dois tipos de recuperação, chamando o primeiro de “U” e o segundo de “swoosh”. Mas, independentemente do termo usado, ambos representam uma recuperação mais lenta, em que a crise tem efeitos mais duradouros sobre a economia.

Outros formatos alfabéticos

Por mais que sejam mais comuns, o V e o U não são as únicas letras usadas para descrever cenários da trajetória econômica.

O W representa um caminho de instabilidade, em que há sucessivas quedas e retomadas. Na pandemia do novo coronavírus, isso poderia ocorrer em caso de alternância entre momentos de abertura econômica e momentos de isolamento social, refletindo múltiplas ondas de disseminação da covid-19. O W, nesse sentido, seria resultado do abre-e-fecha, como ocorreu em algumas cidades brasileiras desde o início da pandemia.

O L, por sua vez, sinaliza para o pior cenário possível. Isso porque a economia é atingida pelo choque inicial da crise e, ou simplesmente não consegue voltar aos níveis anteriores, ou leva muito tempo para se recuperar. Esse cenário se assemelha ao de uma depressão, que ocorre quando uma recessão se torna muito profunda e se alonga por muito tempo.

Por fim, há também o Z – um formato até mais otimista que o V, mas pouco provável no cenário de pandemia instalado em 2020. Ao contrário dos outros formatos, a letra Z é menos intuitiva para desenhar a curva de recuperação a que se refere – talvez a representação mais precisa seja um N espelhado e inclinado. Nesta curva, há três etapas. Primeiro uma queda inicial, como nos outros casos. O passo seguinte é um crescimento da economia até níveis mais altos que antes da crise. Isso poderia acontecer por conta de uma demanda represada por certos bens e serviços – por exemplos, serviços ligados a estética, como cirurgias plásticas, cortes de cabelo e manicures. Na etapa seguinte, a economia recua e volta aos padrões anteriores à crise, refletindo um esgotamento dessa demanda represada.

Onde há sinais de recuperação em V

Na pandemia do novo coronavírus, a recuperação em V é comumente associada a locais onde há controle do vírus. A ideia é que, com a circulação do vírus em níveis baixos (ou em zero), a reabertura da economia se dá de forma mais rápida.

Com isso, governos autorizam o funcionamento de negócios em termos parecidos com os anteriores à pandemia e as pessoas se sentem à vontade para sair de casa e retomar atividades na rua – o que inclui sair às compras. O consumo, portanto, volta rapidamente a níveis próximos aos de antes da crise.

Dados das vendas do varejo em países que obtiveram relativo sucesso num primeiro momento em controlar a pandemia mostram justamente isso. Na zona do euro, após queda expressiva das vendas em março e abril, o varejo precisou de apenas dois meses para voltar a um nível muito próximo ao anterior à crise. É o que mostra o gráfico abaixo.

“V” DE VAREJO

Trajetória do varejo.na zona do euro. Recuperação aparentemente em V após queda em março e abril

Da mesma forma, dados da Coreia do Sul – país que optou pela testagem em massa logo no começo da pandemia – também são positivos. O varejo caiu entre janeiro e março, mas já em maio praticamente retornou ao nível do final de 2019.

VAREJO SUL-COREANO

Trajetória do varejo na Coreia do Sul. Recuperação aparentemente em V em abril e maio

Há, no entanto, algumas observações que precisam ser feitas. Primeiramente, o V do varejo na Coreia do Sul e na Europa pode ser, na realidade, a primeira metade de um W. No país asiático e em países europeus como Alemanha e Espanha cresce a preocupação com uma possível segunda onda de disseminação da covid-19. O crescimento de casos da doença pode trazer de volta as medidas de restrição da circulação e de paralisação parcial da economia. Não se sabe, portanto, se a recuperação em V se sustentará ao longo do segundo semestre de 2020.

Além disso, o varejo não necessariamente reflete o todo da realidade econômica de um país. Há outros indicadores que ajudam a dizer se uma economia está caminhando bem, como nível de emprego, renda da população, produção industrial, etc. Todos esses fatores ajudam a influenciar o PIB (Produto Interno Bruto), principal dado da atividade econômica, que soma todos os bens e serviços produzidos em um lugar em determinado intervalo de tempo. E, até o início de agosto, não é possível cravar que a recuperação da economia nos países mencionados seja tão rápida quanto os dados do varejo indicam.

Projeções na China e nos EUA

Em agosto de 2020, ainda é cedo demais para saber como será a recuperação das economias ao redor do mundo. Os sinais são mistos, mesmo em países que tiveram que enfrentar o coronavírus antes de outros.

Na China, por exemplo, o PIB voltou a crescer no segundo trimestre, após uma forte queda nos primeiros três meses do ano. Mesmo com o princípio de retomada, os dados ruins do consumo e do mercado de trabalho geraram desconfiança sobre a sustentabilidade da trajetória de crescimento.

Já os EUA são o país onde há mais casos e mortes decorrentes do coronavírus. Na últimas semana de julho, o principal conselheiro econômico do presidente Donald Trump, Larry Kudlow, disse que acredita que ainda é possível alcançar uma recuperação em V.

Meses antes, em meados de maio, Jay Powell, o presidente do Federal Reserve (o Banco Central americano), alertou que a recuperação deve se prolongar até o final de 2021, sugerindo um formato mais condizente com o U. Também em maio, uma pesquisa interna feita pelo Bank of America concluiu que apenas 10% de todos os gerentes de fundos de investimentos acreditam que haverá uma recuperação em V.

As expectativas no Brasil

No Brasil, o ministro Paulo Guedes também chegou a sustentar a ideia de recuperação em V. Antes da alusão ao logotipo da Nike no começo do agosto, ele havia dito em 25 de junho que o país teria recuperação rápida (em V) e que a economia brasileira “supreenderia o mundo”. Em 2 de julho, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, também disse que a economia brasileira indicava uma retomada em V.

Entre economistas, o entendimento dominante é que a recuperação deverá ser gradual, considerando que o Brasil segue com números altos de casos e mortes pelo coronavírus. A marca de 100 mil mortes pela doença foi alcançada ainda na primeira metade de agosto.

Na primeira edição de agosto, o próprio relatório Focus do Banco Central – que semanalmente compila as expectativas de agentes do mercado – revela uma expectativa por uma retomada mais lenta da economia. As projeções são de que o PIB brasileiro caia 5,66% em 2020 e cresça 3,5% em 2021 e 2,5% em 2022. Se esses números se concretizarem, a atividade econômica no Brasil só voltaria ao nível pré-crise ao final de 2022 – em linha com o “V da Nike” indicado por Paulo Guedes.

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