A relação entre pais e filhos no isolamento da pandemia

Estudos internacionais apontam que aproximação familiar aumentou. Dados preliminares do Brasil mostram, porém, que homens se sentem pouco preparados para cuidados, e mães afirmam que dedicação deles não é suficiente

    A pandemia do novo coronavírus impôs o isolamento social para parte da população mundial. Como consequência, pais e filhos passaram a ficar mais tempo juntos em casa, numa rotina que aproximou homens do cuidado das crianças. Houve aumento de passeios com bebês e participação na vida escolar. É o que diz uma pesquisa feita durante a pandemia pelo setor de estatísticas do governo do Reino Unido.

    58%

    foi quanto aumentou o cuidado dos pais com os filhos no Reino Unido por causa do isolamento social, segundo estudo do governo feito com 1.300 famílias

    Um outro levantamento com 1.019 pais pela ONG Canadian Men’s Health Foundation mostrou que também no Canadá o confinamento fez 60% deles se aproximarem mais dos filhos em casa. Entre os entrevistados, 48% disseram que têm desejo de manter o mesmo envolvimento com a família no futuro, quando a pandemia acabar.

    As pesquisas mostram que a crise sanitária fez surgir um comportamento que, se mantido, pode dar início a uma nova fase da vida dessas famílias, marcada pelo cuidado igualitário dos filhos entre o pai e a mãe (no caso de casais heterossexuais), segundo pesquisadores do assunto ouvidos pelo Nexo.

    “A covid-19 parece ter acelerado o movimento dos pais para se envolver mais com os filhos”, disse ao Nexo Mateus Luz Levandowski, professor de psicologia da Ufpel (Universidade Federal de Pelotas). “Mesmo que tenha evoluído nas últimas décadas, a paternidade ainda deixa a desejar em termos de cuidado”, afirmou.

    Ao mesmo tempo que estudos no exterior mostram que pais estão com mais disposição para cuidar dos filhos na pandemia, uma pesquisa no Brasil, conduzida na Ufpel, mostra que a maior parte dos homens ainda sente que não tem capacidade emocional de lidar com as responsabilidades da paternidade, mesmo no isolamento social.

    1 a cada 6

    pais que responderam a uma pesquisa em andamento na Ufpel disseram que conseguem lidar muito com o cuidado dos filhos na maior parte do tempo; outros disseram que têm pouca capacidade para isso

    A pesquisa, ainda em andamento, tem a coordenação de Mateus Luz Levandowski e Tiago Neuenfeld Munhoz, também professor de psicologia na Ufpel. Os dados são preliminares e baseados em uma amostra de cerca de 600 pessoas que responderam ao formulário da pesquisa, disponível online.

    Para Levandowski, o levantamento ajuda a mapear a situação das famílias brasileiras durante a crise e levanta questões sobre o cuidado. “Crianças que têm pais, mães, cuidadores amorosos têm uma diferença enorme e positiva no seu desenvolvimento”, disse ele ao Nexo.

    Antes da pandemia, 80,6% dos homens brasileiros com mais de 14 anos se dedicavam a alguma atividade doméstica ou cuidavam de outras pessoas, gastando 11 horas semanais de trabalho em casa, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 2019. Entre mulheres, os números são maiores: 92% delas se dedicaram a atividades domésticas naquele ano, e sua média semanal de horas trabalhadas em casa foi de 21,4, quase o dobro dos homens.

    Qual a percepção das mães

    O estudo sobre o comportamento dos pais no Reino Unido durante a pandemia mostrou que, apesar de seu envolvimento com a família ter melhorado, ainda são as mães que têm a maior sobrecarga no cuidado dos filhos e dos afazeres domésticos durante o período de isolamento.

    A pesquisa em andamento na Ufpel apontou também que, no Brasil, a quantidade de mães que dizem que as tarefas familiares são divididas de forma igual na casa corresponde à metade do número de pais que afirmam o mesmo. Enquanto 60% dos homens dizem que ele e a companheira são uma equipe, 30% das mulheres concordam com isso.

    “Os homens têm uma percepção de que ajudam muito mais nas tarefas de cuidado com os filhos do que as mulheres realmente percebem”

    Tiago Neuenfeld Munhoz

    professor de psicologia na Ufpel (Universidade Federal de Pelotas) e coordenador de pesquisa sobre práticas parentais no isolamento, em entrevista sobre o estudo ao Nexo

    Um estudo encomendado pelo jornal The New York Times mostrou ainda que, além de estarem mais atarefadas que seus parceiros na pandemia, as mães americanas são as que mais sofrem os prejuízos da crise do coronavírus, seja no campo da saúde, da economia ou da proteção social. A pesquisa coletou dados de 2.220 americanos em abril.

    “São mães, e não pais que, historicamente, suportam a maioria da carga de cuidados infantis e de casa”, disse Levandowski ao Nexo. Ele afirmou que, apesar de a pandemia ter impacto sobre todos, esses efeitos são desiguais, os estudos mostram que as mulheres têm sido mais prejudicadas que homens.

    Mesmo nas famílias em que os pais estão querendo se envolver mais na criação dos filhos, as mães acabam sobrecarregadas porque seus parceiros “ainda esperam que elas digam para eles o que fazer, porque, afinal, eles passaram anos sem praticar esse tipo de cuidado”.

    Ao comentar a pesquisa sobre paternidade no Canadá, que mostrou que 48% dos homens que se aproximaram dos filhos na pandemia pretendem manter os vínculos, o professor afirmou que ainda há um dado ruim: o de que 52% desses pais não estão pensando em seguir adiante com esses cuidados.

    “Isso demonstra uma distância muito grande em relação aos papéis de gênero e aos cuidados infantis”, disse. É também reflexo de um estigma da figura do homem como cuidador, segundo ele. “O homem nunca é visto nesse papel [de alguém que cuida]. Mas não existe nenhum argumento, nenhuma razão biológica na afirmativa de que homens não podem cuidar de outras pessoas.”

    O professor diz acreditar que a pandemia pode ser uma oportunidade para que homens revejam seu papel na família. “Uma maneira de pensar sobre isso é olhar para o lado e ver as mães, ver como elas estão fazendo isso sozinhas”, disse. “É preciso pensar em como tornar o cuidado mais equitário.”

    Os pais que não vivem o isolamento

    Os levantamentos sobre as mudanças de hábitos de pais na pandemia não levam em conta a situação das famílias que não estão aderindo ao isolamento social, mesmo que essa seja a medida mais recomendada por autoridades de saúde para enfrentar a covid-19.

    A adesão ao isolamento não é uma possibilidade para pessoas que, por razões econômicas, precisam continuar trabalhando durante a pandemia e não têm condições de desempenhar as atividades do dia a dia de forma remota, em casa.

    54%

    brasileiros não tinham possibilidade de trabalhar remotamente em março de 2020, no início da pandemia, segundo uma pesquisa Datafolha

    Ainda há os pais que, isolados ou não, não vivem com os filhos. É o caso de homens que são separados das mães das crianças ou adolescentes e não têm sua guarda (ou a guarda é compartilhada). Há pais nessa situação que conseguiram estreitar os vínculos com os filhos na pandemia, enquanto outros decidiram parar de visitar a família nestes meses, preferindo o contato virtual.

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