Repetência geral: a receita queniana para o calendário escolar

Autoridades decidem anular o ano e recomeçar só em janeiro, para evitar transmissão da covid-19 nas salas de aula

    Autoridades de educação do Quênia, no leste da África, anunciaram em julho uma decisão radical: anular todo o ano escolar de 2020 e começar de novo só em 2021.

    A decisão foi tomada por causa da interrupção das aulas, provocada pela pandemia da covid-19, e pela incerteza sobre a retomada dos cursos no que resta do ano letivo. Além disso, é uma forma de reforçar as práticas de isolamento social para evitar que a doença se espalhe.

    391

    era o número de mortos pela covid-19 no Quênia até 6 de agosto de 2020

    23.873

    era o número de contaminados pela doença até a mesma data

    O país fica na Linha do Equador e segue o calendário escolar do hemisfério sul. As aulas têm início normalmente em janeiro. Até lá, todas as atividades escolares estarão suspensas. Quando recomeçarem, todos os alunos terão de repetir de ano.

    Especialistas em educação ouvidos pelo jornal americano The New York Times dizem que o Quênia é o único país do mundo a adotar essa saída radical. Todos os demais vêm buscando soluções alternativas.

    No Brasil a estrutura federativa descentralizada dá a estados e municípios relativa autonomia para decidir. No caso de São Paulo, por exemplo, autoridades governamentais, sindicatos de professores e pais de alunos discutem a possibilidade de retomar as aulas com presença física no início de setembro, mas tudo isso ainda é incerto.

    Desigualdades acentuadas

    O ano escolar foi interrompido no Quênia em março. Inicialmente, foi adotado um sistema de educação à distância, com uso de aulas remotas. Essa saída, entretanto, esbarrou na desigualdade de acesso à tecnologia.

    O governo ainda tentou driblar a questão, propondo até mesmo a transmissão de aulas pelas rádios locais e televisões, além do uso do YouTube como plataforma de postagem das classes. Mas os recursos não foram suficientes. Muitos lares simplesmente não tinham aparelhos de TV ou de rádio, ou mesmo energia elétrica.

    Problemas semelhantes, de disparidade no acesso à internet e às aulas remotas, foi encontrado em muitos outros países em desenvolvimento. A diferença é que, enquanto outro governos preferiram minimizar ou simplesmente ignorar a existência dessas brechas, o governo queniano resolver assumir definitivamente que a disparidade era insustentável.

    90 mil

    é o número de escolas afetadas pela medida no Quênia

    18 milhões

    é o número de estudantes sem aula no país

    A suspensão das aulas se aplica às crianças e jovens em idade escolar. As universidades permanecem com maior autonomia para decidir sobre a continuidade das classes de forma virtual.

    Um quarto das escolas são privadas no Quênia. Muitas delas são ligadas a grandes fundações financiadas por bilionários como o dono da Microsoft, Bill Gates, e pelo fundador do Facebook, Mark Zuckerberg. Todas as escolas quenianas serão afetadas pela decisão.

    Para milhares de famílias, a decisão do governo de repetir o ano escolar traz grandes problemas. O mais imediato é simplesmente o de não saber o quê fazer com filhos que permanecerão confinados em casa pelos próximos cinco meses, até o incerto reinício do ano escolar.

    Outro problema é a remuneração de professores e funcionários que, na prática, não estarão trabalhando. No caso das escolas públicas, o governo segue pagando salários, mas nas privadas muitos pais se recusam a pagar por aulas protocolares, que, na prática, não terão efeito real na progressão acadêmica dos filhos.

    124

    é o número de escolas privadas falidas no Quênia durante a pandemia

    A suspensão precoce das aulas também priva muitos alunos pobres do acesso à merenda escolar. Especialistas no tema também mencionam preocupação com o risco do aumento da gravidez na adolescência e com o abandono das aulas por alunos desmotivados com a descontinuidade, além do perigo de maior violência doméstica.

    Famílias ricas têm buscado escolas internacionais como forma de driblar a interrupção do ano letivo. Como muitas delas funcionam no calendário do hemisfério norte, um novo curso se iniciará em setembro, o que dá a possibilidade a esses alunos de seguirem seus estudos conectados ao sistema europeu.

    A alternativa termina por acentuar ainda mais a distância econômica e social entre as famílias no Quênia, mesmo quando a decisão de anular o ano escolar tem como justificativa reduzir justamente essas brechas.

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto dizia que o Quênia tinha 391 mortos pela covid-19 até 6 de agosto de 2021. Na verdade, era até a mesma data no ano de 2020. A informação foi corrigida às 18h33 de 10 de agosto de 2020.

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