Covid: os resultados e o futuro do estudo por amostragem no Brasil 

Projeto da Universidade Federal de Pelotas, que já testou moradores de 133 cidades para mapear o contágio do coronavírus pelo país, perdeu o financiamento do Ministério da Saúde

Na pandemia do novo coronavírus, um dos maiores estudos epidemiológicos do mundo é conduzido no Brasil. Desenvolvido pelo Centro de Pesquisas Epidemiológicas da Ufpel (Universidade Federal de Pelotas), o projeto Epicovid19-BR realiza desde maio testes por amostragem em todo o país, para estimar a porcentagem de brasileiros que já foram infectados pelo vírus causador da covid-19.

As primeiras três fases da pesquisa, realizadas de maio a junho, foram financiadas pelo Ministério da Saúde a partir de um contrato firmado ainda na gestão de Luiz Henrique Mandetta, que deixou a pasta em abril de 2020. O contrato acabou no início de julho e desde então o projeto estava suspenso por falta de recursos.

Na quarta-feira (5), a universidade confirmou que, mesmo sem o apoio do governo, vai realizar mais três fases do estudo nas cidades pesquisadas e assim manter atualizados os dados sobre a evolução do contágio no país.

O financiamento para a retomada do trabalho vai partir do projeto Todos pela Saúde, desenvolvido pela Fundação Itaú para a Educação e Cultura. Serão R$ 11,7 milhões. O valor se aproxima do investimento de R$ 12 milhões feito pelo governo federal, que também havia doado os kits de testagem utilizados.

O Ministério da Saúde, sob o comando interino do general Eduardo Pazuello, afirma que dará continuidade a estudos do mesmo tipo, mas ainda não escolheu uma instituição para a tarefa. A Ufpel foi precursora nos estudos epidemiológicos de campo e é internacionalmente reconhecida na área.

O objetivo da pesquisa

Testes sorológicos como os aplicados no estudo da Ufpel são usados para identificar quem já teve contato com o novo coronavírus e desenvolveu anticorpos contra a doença. Esses testes são menos precisos que os do tipo PCR, que identificam a presença do vírus no organismo, mas conseguem identificar o contágio mesmo depois de semanas.

Uma vasta testagem desse tipo durante uma pandemia é fundamental para avaliar o percentual da população que já foi infectada e, em tese, está protegida de um novo contágio, pelo menos por um período de tempo. Também é importante para estimar a velocidade de expansão da infecção, o número de casos assintomáticos e a taxa de letalidade da doença.

Todas essas questões são determinantes para a tomada de decisão de gestores públicos quanto ao momento apropriado para se flexibilizar o isolamento social. De forma geral, o Brasil é um dos países que menos testa a população para a covid-19. A pesquisa por amostragem também é uma solução estatística para a impossibilidade de alcançar todas as pessoas em nações com grande população.

O estudo é conduzido em todos os estados brasileiros e no Distrito Federal. Para a tarefa, o Centro de Pesquisas Epidemiológicas da Ufpel desenvolveu a metodologia, treinou 1.700 pessoas do Ibope Inteligência para a realização dos testes e das entrevistas, e analisou as informações coletadas.

89.397

foi o número de pessoas entrevistadas e testadas ao longo das três primeiras fases da pesquisa Epicovid19-BR, entre maio e junho de 2020

133

foi o número de cidades abarcadas pela pesquisa, entre maio e junho de 2020

Além do financiamento do governo federal, a realização das primeiras fases da pesquisa nacional contou com o apoio de entidades da sociedade civil, como o Instituto Serrapilheira e a Pastoral da Criança, da Igreja Católica, que prometem continuar participando do projeto. O projeto teve início no Rio Grande do Sul, quando tinha o nome de Epicovid19 e planejava testar apenas cidades do estado, mas depois foi ampliado para o Brasil todo.

Em entrevista coletiva, o general da ativa e ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello, afirmou que “a pesquisa estava muito boa”. Mas afirmou também que o estudo não dava conta da realidade nacional. “Para efeito de Brasil, a gente precisaria mudar alguns focos do que foi contratado. Ficou muito regionalizado”, disse.

Para o epidemiologista Pedro Hallal, reitor da Ufpel e coordenador da pesquisa, o problema foram os dados revelados pelo estudo, que teriam desagradado ao governo federal. “Não gostaram dos resultados. Nossa interpretação isenta incomodou”, disse.

Os principais resultados da pesquisa

O TAMANHO DA SUBNOTIFICAÇÃO

O número de pessoas com anticorpos estimado pela Epicovid19-BR é seis vezes maior do que o número de casos notificados às autoridades sanitárias. Essa diferença se manteve estável ao longo das três fases do estudo.

O FATOR DESIGUALDADE

No início da pandemia, acreditava-se que quanto mais frio o clima, maiores seriam as taxas de contágio pelo vírus respiratório. A Epicovid19-BR, porém, revelou que as regiões Norte e Nordeste, mais quentes e mais pobres, apresentaram índices muito maiores de contágio do que a região Sul, mais fria e mais rica. Entre as 15 cidades com maior frequência de pessoas infectadas, 13 estavam na parte superior do mapa brasileiro. No país como um todo, a camada mais pobre da população apresentou mais que o dobro da frequência de infecção do que a camada mais rica.

A INDIFERENÇA DO GÊNERO E DA IDADE

A pesquisa também revelou que o percentual de infecção não variou entre faixas etárias, ou entre homens e mulheres. Assim, apesar de os efeitos da infecção serem frequentemente mais graves entre idosos e outras pessoas consideradas do grupo de risco, os riscos de ser infectado (e consequentemente de transmitir o vírus) independem da idade. “Sob o ponto de vista da literatura, esse é talvez o nosso resultado mais importante. E pode ser extrapolado para o mundo todo, porque não há motivos para imaginar que a resposta imunológica dos brasileiros seja tão diferente”, afirmou Pedro Hallal, que coordena o estudo, ao portal gaúcho Matinal.

A VULNERABILIDADE DOS INDÍGENAS

A pesquisa também mostrou que os indígenas são o grupo étnico mais vulnerável à infecção pelo novo coronavírus. Como os testes foram realizados apenas em áreas urbanas, não é apenas o local de moradia que explica essa diferença. Outros fatores, como questões biológicas e hábitos sociais, estão sendo estudados. O governo federal, alvo de representações no Tribunal Penal Internacional pelo desamparo aos indígenas durante a pandemia, tem questionado dados levantados sobre essa população e o uso da autodeclaração de cor ou raça. O critério é adotado pelo IBGE desde a década de 1970.

A PRESENÇA DE SINTOMAS

No início da pandemia, pesquisadores suspeitavam que somente 40% dos infectados pelo novo coronavírus apresentavam sintomas significativos da covid-19. Os dados da Epicovid19-BR, porém, apontam que 91% das pessoas que tiveram testes positivos para a infecção relataram que sentiram algum sintoma da doença. Os mencionados com maior frequência foram febre, tosse, alteração de olfato ou paladar, dor no corpo e dor de cabeça.

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