Como sobreviventes de Hiroshima ajudaram no estudo da radiação

Lançadas há 75 anos, as bombas americanas puseram fim a Segunda Guerra, dizimando a vida de milhares de japoneses e deixando sequelas por anos. Pesquisas ajudaram a definir níveis de segurança e dosagem para tratamento de doenças

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Há 75 anos, em 6 de agosto de 1945, Hiroshima era alvo de uma bomba atômica americana. Três dias depois, outra cidade japonesa, Nagasaki, teria o mesmo destino. Àquela altura, o nazifascismo na Europa, que motivou a Segunda Guerra Mundial, já havia sido derrubado. Com esses dois bombardeios, viria a rendição do Japão, que lutou ao lado dos alemães, em 15 de agosto, sacramentando a vitória dos países Aliados (EUA, França, Reino Unido e União Soviética).

Hiroshima e Nagasaki foram obliteradas, e estimativas apontam que cerca de 120 mil pessoas morreram de imediato pelo impacto das duas bombas — embora muitos corpos nunca tenham sido encontrados, vaporizados na explosão. Nos anos seguintes, surgiram casos de câncer e recém-nascidos com malformação, e muitos dos que sobreviveram também sucumbiram vítimas dos efeitos da radiação. Parte dos que resistiram participou de estudos que ajudaram a ciência a revelar o poder destrutivo das armas nucleares a longo prazo.

28% a 50%

da população de Hiroshima morreu de imediato ou nos meses seguintes à explosão da bomba

63%

dos prédios de Hiroshima foram completamente destruídos pela bomba. Contabilizando os que também sofreram danos, 92% das estruturas da cidade foram destruídas

Seis semanas após o bombardeio, equipes japonesas e americanas conduziram as primeiras pesquisas. O Japão tentava entender os efeitos médicos nos sobreviventes. E os EUA, como e por que as pessoas pereciam às explosões atômicas. A ideia dos americanos era tornar possível, em futuras guerras nucleares, distinguir quem poderia ser salvo após o impacto e quem, mesmo com cuidados, não teria chances de sobreviver.

No ano seguinte, em 1946, os EUA formaram uma comissão especial do Conselho Nacional de Pesquisa a fim de estudar os impactos médicos e biológicos da radiação. Os achados, em colaboração com o Japão, se somaram ao longo dos anos, e foram importantes para definir níveis de segurança no manejo de atividades pacíficas, como tomografias médicas e matrizes energéticas.

A comissão mais tarde se tornaria a RERF (Fundação de Pesquisa de Efeitos da Radiação, da sigla em inglês), organização conjunta e de representação proporcional dos dois países que atua até hoje com sobreviventes das explosões. Apesar das perdas e traumas, muitos aceitaram integrar os estudos como forma de promover paz, conscientizando o mundo dos estragos da radiação.

O principal programa do RERF, que estuda os efeitos da radiação na saúde ao longo da vida, tem hoje cerca de 36 mil participantes ainda vivos. Esse número corresponde a 30% das pessoas recrutadas para a pesquisa em 1950, e muitos estão agora na faixa dos 80 e 90 anos. O projeto, no entanto, terá uma boa vida útil. Há diversas amostras de sangue, urina e culturas celulares coletadas nos primeiros anos que ainda não foram processadas. Todo ano, são feitas novas descobertas, reunidas em relatórios disponibilizados online.

O que os estudos com sobreviventes revelaram

Apesar dos debates éticos em torno do desenvolvimento de um grande laboratório sobre os espólios de um crime de guerra, Hiroshima e Nagasaki acabaram se tornando o melhor lugar para se estudar os efeitos da radiação no ser humano.

Primeiro por motivos morais: é desumano convocar candidatos saudáveis para se submeter a testes radioativos. Segundo porque os sobreviventes foram expostos à radiação uma única vez, com dose definida e cujo foco terminou sozinho.

Em outros desastres nucleares como os de Fukushima e Chernobyl, a exposição continuada e variável cria cenários menos precisos e comparáveis entre as pessoas que estiveram no incidente.

Abaixo, o Nexo seleciona algumas das principais constatações da ciência sobre a radiação a partir dos estudos dos sobreviventes das bombas de Hiroshima e Nagasaki.

Câncer

Acumulam-se estudos relacionando a exposição à radiação com a incidência de câncer em diversas partes do corpo. Nos anos 1960, vítimas deram informações detalhadas de onde estavam no momento da bomba para melhor determinar os parâmetros de contaminação. Entre elas, onde, como, em que tipo de prédio e assoalho, e o lado para que o rosto estava voltado no momento das explosões.

A proximidade do hipocentro, ou seja, o marco zero da bomba, é um dos principais fatores para a aparição da doença. Quanto mais distante, menor a influência da radiação, porque menor é a dosagem recebida.

56,5%

é a porcentagem de mortes por câncer devido a radiação, no grupo a menos de 900 m da bomba na hora da explosão

Esse valor só não é maior porque muitas pessoas que estavam a essa distância não sobreviveram ao bombardeio, segundo disse Dale Preston, bioestatístico que trabalhou para a RERF, à revista Science. A leucemia, um tipo de câncer mais raro que compromete as células de defesa do corpo, também se desenvolveu entre os sobreviventes — em especial, àqueles mais próximos do hipocentro.

Casos de câncer por conta da radiação também foram maiores em mulheres. Isso acontece porque, para além das demais partes do corpo, há os casos adicionais de câncer de mama. Pesquisas mais recentes apontam que mulheres expostas à radiação no período da primeira menstruação apresentam mais riscos de desenvolver câncer de mama e no colo uterino do que aquelas expostas antes ou depois dessa fase. Segundo os pesquisadores, quando o tecido dos seios e do útero se multiplica, a radiação impõe potenciais riscos ao DNA.

Pessoas mais jovens na época da explosão também apresentaram mais riscos de desenvolver um câncer. Quanto mais velha a pessoa, menores eram as taxas. Além disso, as chances de um câncer causado pela radiação foi caindo para todos os grupos com o passar dos anos, o que pode indicar que os impactos de uma exposição não são permanentes.

Conhecer esses riscos pode indicar quais grupos devem tomar mais cuidados ao serem expostos à radiação de procedimentos médicos, por exemplo. Os achados não implicam que homens ou pessoas mais velhas sejam mais resistentes à radiação, mas que ela pode atuar de formas diferentes em grupos diferentes.

Outras doenças

A exposição à radiação também fez crescer os quadros de catarata, nódulos na tireoide, derrames, problemas neurológicos e doenças cardiovasculares. Para as pessoas mais próximas do hipocentro da explosão, 16,3% das mortes por doenças não-cancerígenas têm relação com a bomba.

Há também reflexos sobre o sistema imunológico, deteriorado de forma similar ao efeito do envelhecimento. Assim, foi observado também um aumento de doenças autoimunes como resultado da radiação.

A alta exposição compromete a atividade celular, mas não se sabe como isso acontece em cada parte do corpo. Cabe aos estudos verificar quais tipos de átomos, células ou tecidos são mais sensíveis e, por conseguinte, quais doenças — entre as apontadas e outras ainda não relacionadas — podem ser mais comuns em decorrência da radiação.

Níveis seguros de radiação

Cientistas se dividem quanto a uma dose segura de radiação para médicos de radiografia ou engenheiros de energia nuclear. Há aqueles que dizem que mesmo exposições a níveis baixos são danosas. Outros consideram doses pequenas não só inofensivas, como benéficas. No caso, o contato pode ativar uma defesa celular contra radiação que se torna responsiva caso a pessoa volte a ter contato com exposições mais intensas no futuro.

Há ainda trabalhos que sugerem que doses baixas mas cumulativas, como chapas de tomografia, são menos danosas do que uma dose alta de uma vez só, como foi o caso das bombas no Japão. Comparativamente, uma pessoa em Hiroshima em 1945 recebeu uma dose de radiação cerca de 1.000 vezes maior do que outra exposta hoje a procedimentos médicos comuns e radiação do sol ao longo de um ano.

Pessoas em tratamento contra um câncer maligno podem receber um valor 30 vezes maior que a bomba americana, mas são doses localizadas justamente com o objetivo de matar células cancerígenas.

Longe de uma unanimidade, o debate e os valores usados hoje devem em parte aos estudos no Japão. Sem eles, ferramentas como os quartos blindados em exames de raio-X e materiais de medição em usinas nucleares poderiam ter demorado mais para serem criadas.

Radiação por hereditariedade

Com exceção das crianças ainda no útero no momento da explosão, os estudos não indicam que os filhos de pessoas contaminadas desenvolvam alguma patologia, como câncer, por conta da radiação. Também não há relação entre o número de crianças nascidas com malformações e o fato dos dois pais terem sido expostos à bomba. Os números são equivalentes aos de apenas um pai ou mesmo de nenhum deles.

Os cientistas afirmam, no entanto, que isso não quer dizer que a exposição dos pais não tenha efeito genético. Essa relação só não foi detectada a partir das técnicas usadas ou frente à amostra limitada de crianças estudadas até o momento.

Para além da contribuição científica, a confirmação desses achados é vital para que alguns tabus da sociedade japonesa sejam definitivamente quebrados. Os “hibakusha”, como são chamados os sobreviventes da bomba, sofreram décadas de preconceito frente ao receio de que eles pudessem contaminar pessoas saudáveis.

Muitos pais proibiam o relacionamento com sobreviventes por medo de que os netos nascessem com malformações. O estigma foi especialmente forte para as mulheres, responsáveis por carregar o bebê durante a gestação. Os hibakusha receberam inclusive a alcunha de carregarem o “sangue do diabo”.

O futuro dos sobreviventes

Nas próximas décadas, a RERF espera processar mais dados e continuar registrando a situação dos sobreviventes. Com eles, a fundação desenvolve uma série de outras linhas de pesquisa para responder outras questões sobre radiação. Entre elas, por exemplo, como as doenças cancerígenas e não-cancerígenas se desenvolvem depois da exposição; ou por que o desenvolvimento de câncer causado por radiação em cada órgão do corpo varia.

Há também uma insatisfação dos hibakusha com relação ao cuidado que lhes é dado. O governo japonês arca com todas as despesas médicas dos sobreviventes, mas a RERF e o governo americano nunca os ajudou no tratamento. No máximo, há aconselhamento e encaminhamento, mas a relação para muitos deles ainda é assimétrica.

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