Por que misturar tipos de testes atrapalha o controle da covid-19

Brasil tem feito mais exames rápidos, que acham anticorpos e são menos confiáveis, do que PCR, que identificam a presença do vírus. Números oficiais de casos somam os dois

O Brasil registrou 2,85 milhões de casos de covid-19 até quarta-feira (5), segundo balanço do Ministério da Saúde. Desse total, 741.180 eram doentes ativos, o que a pasta chama de casos em “acompanhamento”. Cerca de 2 milhões são classificados como “recuperados”. Os dados divulgados pelo governo, no entanto, não fazem um retrato atual da transmissão do novo coronavírus no país, segundo epidemiologistas.

As informações divulgadas diariamente pelo governo federal são fornecidas por cada uma das 27 secretarias estaduais de Saúde. O ministério centraliza os dados e divulga uma contagem final de infectados. Mas por causa dos tipos de testes usados para essa contabilização, especialistas alertam que os números misturam dados que não deveriam ser considerados juntos.

Os registros oficiais somam, desde abril, os resultados de testes rápidos que apontam se o paciente teve contato com o vírus no passado — e que também são considerados imprecisos — e de exames do tipo PCR, que mostram a presença do agente infeccioso no organismo no momento do exame. Mais confiáveis, eles são considerados ideais para o diagnóstico.

A mistura faz com que se perca a capacidade de monitorar a evolução da doença em tempo real. Conhecer a quantidade de doentes ativos serve para embasar decisões dos gestores públicos para o isolamento e o rastreamento de contatos, medidas indicadas pela OMS (Organização Mundial de Saúde) para tentar frear a transmissão do vírus.

Já conhecer o número preciso de curados que, em tese, podem ter adquirido imunidade contra uma segunda contaminação, é um dado útil para pensar a flexibilização das políticas de distanciamento social. Esses quadros não são percebidos quando se mistura resultados de tipos diferentes de exames na mesma conta.

97.256

mortes pela covid-19 foram registradas no Brasil até a quarta-feira (5), segundo o Ministério da Saúde

Os tipos de testes

SANGUE, SORO OU PLASMA

Os chamados testes sorológicos, ou rápidos, mostram a partir de uma amostra de sangue se a pessoa já teve contato com o vírus no passado. Eles detectam a presença de anticorpos produzidos pelo organismo em resposta à infecção. São dois tipos de anticorpos: o IgM, que é uma resposta inicial, e o IgG, que gradualmente vai substituindo o primeiro. É o segundo anticorpo que, em tese, cria imunidade duradoura. Como essa proteção natural do organismo leva cerca de 15 dias para se formar, o uso do teste rápido em uma pessoa é indicado a partir do décimo dia após o início dos sintomas. Ele é mais útil para identificar quem já teve a covid-19 do que para descobrir quem está passando por um quadro ativo da doença. Mas também são imprecisos, e podem dar positivo para outros tipos de coronavírus que já circulavam. Segundo especialistas, desenvolver um teste sorológico com 99% de especificidade para a covid-19 demoraria anos.

SECREÇÕES DAS VIAS RESPIRATÓRIAS

Os testes PCR ou RT-PCR, também chamados de moleculares, diagnosticam a presença do vírus no organismo a partir de amostras de secreções do nariz ou da garganta coletadas por uma espécie de cotonete (swab). São considerados o padrão-ouro, por serem mais precisos. A sigla, em inglês, significa transcrição reversa seguida de reação em cadeia da polimerase. Na amostra, a fita simples de RNA do vírus é detectada e transformada por enzimas numa dupla fita de DNA. Esse DNA é amplificado bilhões de vezes numa máquina com ciclos de mudança de temperatura, o que facilita a identificação do material genético do vírus por emissão de luz para a confirmação do caso. É realizado entre o terceiro e o décimo dia a partir do aparecimento dos sintomas. Ao contrário do teste rápido, cujo resultado sai em minutos, pode levar dias para ser processado.

A contagem de casos no Brasil

No final de julho, o engenheiro Marcelo Oliveira, colaborador do grupo de pesquisadores InfoVid, analisou em sua conta no Twitter os casos confirmados da doença no país por tipo de teste, a partir de informações do Ministério da Saúde.

Dos 2,5 milhões de casos registrados até aquele mês, 55% eram resultados de testes rápidos. O restante eram de testes PCR. Segundo Oliveira, o sistema online de vigilância epidemiológica do SUS, utilizado pelo governo, registra casos de pessoas que não apresentaram sintomas da doença, mas que passaram por testes rápidos com resultado positivos. Esses casos vão diretamente para o grupo de casos recuperados.

Como os testes rápidos mostram se o paciente já teve contato com o vírus no passado, usá-los majoritariamente na contagem final pode mostrar pessoas recuperadas em um ritmo mais rápido do que doentes ativos, contabilizados como “em acompanhamento”. A falta de testes PCR — distribuídos em menor quantidade pelo Ministério da Saúde às secretarias estaduais — prejudica a contagem dos casos em andamento.

Oliveira lembra que a OMS recomenda o uso dos PCR para a confirmação dos casos de infecção pelo novo coronavírus e uma segunda testagem no mesmo paciente, com o mesmo tipo de exame, para saber se ele se recuperou. Foi o que fez o presidente Jair Bolsonaro, por exemplo. Diagnosticado com covid-19 em 7 de julho, ele deixou o isolamento no dia 25 do mesmo mês, após um novo exame PCR dar negativo.

2,3 milhões

de testes do tipo PCR para a covid-19 foram realizados do início da pandemia até julho no Brasil, segundo o Ministério da Saúde; o número é inferior aos 2,9 milhões de testes rápidos feitos no mesmo período

O ‘caos epidemiológico’

Até abril, segundo dados do Ministério da Saúde, os números de casos de infecção no país eram baseados nos testes PCR. Desde então, a contagem passou a incluir os testes rápidos, que se tornaram majoritários a partir de maio.

Em texto publicado no site do Instituto Questão de Ciência, a microbiologista Natália Pasternak, que preside a instituição, escreveu que misturar os dois tipos de dados na mesma base cria um “caos epidemiológico”.

Esse caos se deve à imprecisão dos testes rápidos, que apresentam falsos resultados negativos em 15% dos casos e falsos resultados positivos entre 1% a 5% das vezes em que é usado.

Pasternak cita um exemplo de como o uso desses testes para monitorar a doença pode trazer problemas. Num grupo de mil pessoas, se 50 tiveram contato com o agente infeccioso, apenas 45 teriam resultado positivo se forem testadas com exames sorológicos, considerando as chances de erro desse tipo de teste.

Se os demais 950 que não foram infectados também fossem testados, considerando as chances de falso positivo, cerca de 47 receberiam o diagnóstico, embora nunca tivessem tido contato com a doença. Na conta final, entre as mil pessoas, o teste rápido identificaria 92 doentes (e não as 50 que realmente tiveram contato com o vírus).

Os testes rápidos até poderiam ser usados, segundo ela, mas com outros objetivos: estudos epidemiológicos. Serviriam para que se conhecesse quantas pessoas desenvolveram anticorpos e ficaram protegidos do vírus dentro de uma comunidade. A partir disso, os gestores poderiam planejar o retorno de atividades.

Os problemas para o rastreamento

O Brasil tem feitos mais testes rápidos do que PCR, segundo dados oficiais. Isso tem um motivo. Os rápidos são mais baratos, apresentam resultados em poucos minutos e enfrentam menos problemas de logística em seu manejo e distribuição. Já os PCR precisam ser processados em laboratórios, demoram dias para se conhecer o resultado e precisam ser transportados em temperaturas negativas.

Até o início de agosto, segundo dados do Ministério da Saúde, dos 13,3 milhões de exames distribuídos pela pasta, 8 milhões eram testes rápidos.

No final de julho, o jornal O Estado de S. Paulo revelou que o governo federal tinha 9,85 milhões de testes PCR armazenados que não podiam ser usados por falta de reagentes, entre outros materiais necessários para processar os exames. O ministério alega dificuldades de importar os materiais, como os swabs usados na coleta de secreções.

O governo federal prometeu em maio entregar 46,2 milhões de exames de vários tipos, mas alcançou apenas 28% da meta até o final de julho. Do total de testes prometidos, 24,2 milhões são do tipo PCR.

Sem testes PCR suficientes, os gestores não conseguem identificar, isolar e tratar os doentes, além de rastrear seus contatos e colocá-los em quarentena. Esse conjunto de medidas é indicado pela OMS como estratégia mais eficaz no combate à pandemia, mas nunca foi posto efetivamente em prática pelo Ministério da Saúde.

A mistura de testes, porém, não é exclusividade do Brasil. Também ocorreu nos Estados Unidos, onde sofreu críticas de epidemiologistas. Segundo especialistas americanos, somar os dois exames torna os dados impossíveis de serem interpretados.

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