Como a pandemia mudou a rotina de trabalho, segundo este estudo

Pesquisa analisou dados de 3,1 milhões de pessoas nos EUA, Europa e Oriente Médio, para tentar entender as mudanças no comportamento de profissionais de escritórios em meio ao home office

    Desde março, quando foi decretada a pandemia do novo coronavírus, o trabalho remoto deixou de ser uma alternativa e se tornou a regra para milhões de trabalhadores de escritórios ao redor do mundo.

    O modelo, que enfrentava resistência em diversas empresas, se mostrou um caminho para manter as atividades e reduzir a circulação de pessoas nas cidades, uma necessidade para frear o avanço do vírus. O trabalho em casa, para funções em que ele é viável, foi recomendado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) e governos ao redor do mundo.

    O home office permite uma maior autonomia por parte dos funcionários – que podem fazer mais escolhas sobre como trabalhar, por exemplo – e também liberou as horas gastas no trajeto casa-trabalho-casa.

    Porém, tal flexibilidade não vem sem impactos, segundo um estudo de professores de Harvard e da Universidade de Nova York, distribuído pelo Departamento Nacional de Pesquisas Econômicas, organização americana sem fins lucrativos que realiza pesquisas nas áreas de macro e microeconomia.

    Os dados preliminares, que ainda estão sendo revisados por outros acadêmicos, foram publicados em 20 de julho e apontam para fenômenos como um dia de trabalho mais longo e ocupado por mais reuniões.

    Como o estudo foi feito

    A pesquisa analisou dados anonimizados de e-mails e de plataformas de videoconferência de cerca de 3,1 milhões de trabalhadores de 21.478 empresas, localizadas em 16 grandes áreas metropolitanas dos EUA, da Europa e do Oriente Médio. As informações foram coletadas de cidades que adotaram o lockdown – o tipo mais restritivo de isolamento social, no qual as únicas pessoas que podem circular nas ruas são aquelas que precisam realizar atividades essenciais.

    Para ter base comparativa, foram coletados dados das oito semanas anteriores ao lockdown e de oito semanas depois do fim dele. As informações usadas são metadados – ou seja, dados sobre outros dados, como o tempo de duração de uma reunião ou então os horários nos quais e-mails foram enviados.

    Por coletar metadados anonimizados, o estudo não consegue determinar as razões para os fenômenos descobertos e nem estabelecer grupos demográficos específicos nos quais eles ocorreram com maior frequência.

    O que foi descoberto

    O primeiro fenômeno identificado pela pesquisa é que o número médio de reuniões diárias aumentou em 12,9% se comparado ao período pré-pandemia.

    Ao mesmo tempo, a pesquisa apontou que a duração de cada uma delas diminuiu em cerca de 20,1% – o que representa uma redução de algo em torno de 12 minutos a cada videoconferência. O número de participantes presentes nas reuniões virtuais aumentou em cerca de 13,5%.

    Os e-mails também ficaram mais frequentes: a troca de mensagens entre funcionários de uma mesma empresa aumentou em 5,2%, bem como o número de destinatários em cada e-mail, que cresceu 2,9%. A pesquisa não notou mudança significativa nas características que dizem respeito a mensagens enviadas para pessoas de fora das empresas.

    O dia médio de trabalho aumentou em 8,2%, o que representa um acréscimo diário de cerca de 48,5 minutos. Segundo o estudo, isso deve estar relacionado com o aumento de 8,3% no número de e-mails enviados fora do horário normal de expediente.

    O artigo deixa claro que isso não significa, necessariamente, que os funcionários estão trabalhando mais horas, e sim que, em média, os dias estão começando mais cedo e terminando mais tarde, e podem incluir intervalos e outros afazeres que surgem durante o período.

    O home office no Brasil

    Não há dados desse tipo para a realidade brasileira, porém, outros levantamentos tentaram traçar um panorama geral do trabalho remoto no país em meio à pandemia do novo coronavírus.

    A cada quatro postos de trabalho no Brasil, apenas um pode ser realizado de casa, segundo estudo feito pela Universidade de Chicago, dos EUA, e publicado em abril.

    Segundo a pesquisa, o índice de 25% de trabalhos que podem ser realizados inteiramente em casa coloca o país ao lado de lugares como México e Turquia. Nos Estados Unidos esse número é de 37%, enquanto na Suécia e no Reino Unido chega a 40%.

    Ao olhar para dados de 85 países, o estudo constatou que o desenvolvimento do país é relevante para determinar essa realidade. Quanto mais desenvolvido o país, mais adaptável ele é ao home office. O Brasil fica na 45ª posição.

    De acordo com os autores do estudo, dois economistas da Universidade de Chicago, os dados podem ajudar governos a desenhar políticas públicas de auxílio financeiro a quem precisa sair para trabalhar.

    Segundo dados do IBGE de maio de 2020, naquele mês 11,1% dos trabalhadores brasileiros estavam em regime de home office – a maior parte deles no eixo Rio-São Paulo, especialmente nas capitais e áreas metropolitanas.

    A maior parte desses trabalhadores era formada por jovens, brancos e com formação superior.

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