O surto de covid-19 em um acampamento de jovens nos EUA

Episódio ocorrido no estado americano da Geórgia em junho ressalta a importância das máscaras, do distanciamento e da ventilação em locais fechados

Uma análise publicada na sexta-feira (31) pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças no Estados Unidos mostrou quais podem ser os resultados de aglomerações de crianças e adolescentes num mesmo espaço sem a adoção de um protocolo de saúde adequado em meio à pandemia do novo coronavírus.

A agência que pertence ao Departamento de Saúde americano estudou um surto ocorrido num acampamento no estado da Geórgia. O local não teve o nome divulgado. A atividade contou com a presença de 597 pessoas, quase 60% delas crianças e jovens com média de idade de 12 anos. O restante era formado por funcionários e supervisores.

As atividades ocorreram entre 21 e 27 de junho. Antes, os participantes tiveram de apresentar os resultados de exames de covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus, feitos no máximo 12 dias antes da chegada ao acampamento. O local também melhorou a limpeza das áreas comuns e estabeleceu distanciamento físico fora dos alojamentos e um revezamento no uso dos espaços.

Em 23 de junho, porém, no terceiro dia das atividades, um supervisor teve sintomas de resfriado e foi para casa. No dia seguinte, ele foi diagnosticado com covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus. O acampamento começou, gradualmente, a mandar os participantes para casa, até fechar no dia 27.

Autoridades sanitárias foram investigar o surto após notificação. Das 344 pessoas testadas, entre crianças, jovens e funcionários, 260 contraíram o novo coronavírus, o que representa 76% do total.

Ao separar os contaminados em faixas etárias, os pesquisadores descobriram que metade das crianças de 6 a 10 tinha ficado doente. Entre os jovens de 11 a 17, a taxa de contaminação foi de 44%. E um terço das pessoas de 18 a 21 contraíram o vírus.

“O fato de tantas crianças nesse acampamento terem se infectado depois de poucos dias juntas ressalta a importância de medidas de mitigação em escolas”, disse a epidemiologista Caitlin Rivers, da Escola de Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins, ao jornal The New York Times, ao comentar o episódio.

Não se sabe se todos as pessoas se contaminaram dentro do acampamento ou se algumas já haviam se infectado nos dias anteriores (sem que isso tenha sido identificado pelos testes) e não apresentado os sintomas. O episódio, porém, revela que a exigência prévia dos exames não foi suficiente para barrar a transmissão no local.

Os erros cometidos no acampamento

As medidas recomendadas pelo governo americano também não foram totalmente aplicadas no acampamento. Um dos problemas observados foi que, embora os supervisores e funcionários usassem máscaras, o item não era obrigatório para as crianças e os jovens.

A análise feita pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças aponta que muitas das atividades no acampamento envolviam torcidas e cantos, o que pode ter contribuído para a transmissão do novo coronavírus. O contágio da doença ocorre por meio de gotículas de saliva expelidas ao falar, espirrar e tossir, e até mesmo por partículas suspensas no ar, chamadas de aerossóis, liberadas ao respirar.

O acampamento também contava com 31 alojamentos, compartilhados, em média, por 15 pessoas em cada um deles. As crianças e os jovens dormiram nesses espaços com janelas fechadas. O ar condicionado pode ter acelerado a transmissão do vírus.

A análise também observou que o tempo de exposição interferiu na contaminação, pois quem ficou mais tempo no acampamento teve taxas maiores de infecção. Mais da metade dos profissionais pegaram a doença.

“A investigação acrescenta ao corpo de evidências a demonstração de que crianças de todas as idades são suscetíveis à infecção pelo Sars-CoV-2 e, ao contrário de relatos anteriores, podem exercer um importante papel na transmissão. As múltiplas medidas adotadas pelo acampamento não foram suficientes para prevenir um surto no contexto de uma transmissão comunitária substancial”, disse a agência americana.

O debate sobre a volta às aulas no Brasil

Embora especialistas em saúde alertem para os riscos do retorno das atividades escolares com a pandemia do novo coronavírus ainda em estágio avançado no Brasil, escolas particulares já estão reabrindo. Isso já ocorreu em duas capitais.

Em Manaus e em São Luís, os estudantes voltaram às aulas no início de julho e agosto, respectivamente. Eles são obrigados a usar máscaras, a manter um distanciamento mínimo de um metro entre as carteiras e a se revezar entre as atividades presenciais e à distância.

O retorno das redes públicas de ensino ainda não ocorreu no país, mas vários estados e cidades discutem datas para a volta, também com adoção de protocolos de proteção.

O debate envolve a questão da saúde de alunos e professores. Mas há outros aspectos em jogo. A paralisação prolongada na educação é temida por especialistas da área por prejudicar ainda mais o aprendizado, levar ao abandono das escolas e reforçar desigualdades.

Com a volta dos pais ao trabalho devido à flexibilização das quarentenas, a retomada das aulas passou também a ser uma necessidade para quem não tem onde deixar os filhos.

Uma pesquisa de julho mostrou que 70% dos pais se recusariam a mandar os filhos para as escolas por medo da doença. O Brasil tem desde junho uma média diária de mais de mil mortes pelo novo coronavírus, revelando sua incapacidade em frear a pandemia.

A maioria dos pais (94%), segundo a mesma pesquisa, considera o respeito às normas sanitárias como distanciamento, higienização e uso de máscaras, a questão mais importante para a retomada das aulas.

Recomendações para a volta

Uso de máscara

O item deve ser obrigatório para todos os estudantes. É recomendado ainda ser trocado em intervalos de três ou quatro horas, dependendo do material de que é feito, segundo o “Manual sobre biossegurança para reabertura de escolas no contexto da covid-19”, lançado pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) em julho. Os alunos também devem ser orientados sobre como usar as máscaras corretamente.

Ventilação

As escolas devem manter portas e janelas das salas abertas e optar por espaços amplos e arejados para as atividades. O ar condicionado não deve ser usado, pois ajuda a acelerar a transmissão. O uso de elevadores, espaço apertado e fechado, tampouco é recomendado. Quando isso não for possível de ser feito, ele deve levar apenas uma pessoa por vez.

Medidas de higiene

Itens como álcool em gel devem ser fornecidos pelas escolas aos alunos. A instituição de ensino também deve procurar instalar pias e lavabos em espaços abertos para os alunos lavarem as mãos, evitando, assim, aglomeração em banheiros.

Distanciamento social

As escolas devem demarcar no chão os espaços físicos permitidos, definir mão única em corredores para evitar o contato frente a frente, restringir entrada em seu espaço físico de pessoas de fora e colocar sempre as mesmas pessoas numa única sala. O distanciamento mínimo tem que ser de 1 a 2 metros entre cada pessoa.

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