Qual o papel dos jovens adultos na disseminação da covid

OMS alerta que pessoas na faixa dos 20 e 30 anos têm contribuído para o aumento de casos em diversos países. Em muitos lugares o grupo está entre os mais afetadas pela crise econômica 

    “Dissemos antes e vamos dizer outra vez: pessoas jovens não são invencíveis”, afirmou o diretor-geral da OMS (Organização Mundial da Saúde), Tedros Adhanom Ghebreyesus, na quinta-feira (30).

    O comentário foi feito em resposta a uma tendência que vem preocupando autoridades de saúde em vários países. Jovens adultos, cansados do isolamento social e com dificuldades econômicas, têm abandonado a quarentena ou se mostrado mais descuidados em lugares que passam pela reabertura das atividades, contribuindo assim para fazer com que casos de covid-19 voltem a crescer em lugares onde a doença havia arrefecido.

    “Pessoas jovens podem se infectar, pessoas jovens podem morrer; e pessoas jovens podem transmitir o vírus a outros”, declarou o chefe da OMS. Em seu discurso, Ghebreyesus disse que convencer os jovens desses riscos é um dos desafios da organização atualmente uma vez que persiste a noção de que a covid-19 é uma doença que só atinge pessoas mais velhas.

    De acordo com um levantamento da Bloomberg com dados oficiais do fim de julho, em países como Japão, Austrália e Coreia do Sul, as pessoas entre 20 e 39 anos são os maiores grupos no total de infectados. Na capital japonesa, Tóquio, 52% das pessoas diagnosticadas com covid-19 está nesse recorte de idade.

    Nos Estados Unidos, a tendência em diversos estados têm sido a de um aumento de casos entre faixas etárias mais jovens. No Arizona, em 1º de julho, metade dos casos de covid-19 se concentravam em pessoas de idades entre 20 e 44 anos. Já na Flórida, a idade mediana do infectado caiu de 65, em março, para 37 também no início de julho.

    “São as pessoas mais afetadas econômica e socialmente pelos lockdowns, mas as menos afetadas pela doença”, declarou Peter Collignon, professor da Escola Nacional de Medicina da Universidade Nacional da Austrália, em Camberra, à Bloomberg. “O problema que temos é que as pessoas que mais precisamos mudar de comportamento são aquelas entre 20 e 30 anos.”

    A covid entre os mais jovens

    Por terem menos chances de desenvolver sintomas da doença, muitos jovens adultos se sentem encorajados a sair mais de casa e frequentar festas. As redes sociais mostram cenas de aglomerações em bares com jovens bebendo e socializando em diversas partes do mundo.

    Para especialistas em epidemiologia, as características físicas dos bares e do comportamento de seus frequentadores fazem com que esses locais sejam propícios para a transmissão da covid-19. Os recintos muitas vezes são pequenos e fechados, com diversas oportunidades para a aproximação e aglomeração dos clientes, do balcão ao banheiro.

    Apesar de persistir a ideia de que são os mais velhos os que correm maior risco, estudos indicam que não é desprezível a chance de indivíduos entre 20 e 40 anos desenvolverem uma versão mais grave da covid-19 ou morrer da doença.

    Um estudo publicado em 12 de julho de 2020, realizado por pesquisadores dos hospitais infantis da Universidade da Califórnia, em São Francisco, apontou um índice significativo de “vulnerabilidade médica” entre homens e mulheres com idades entre 18 e 25 anos. Essa vulnerabilidade foi medida a partir de indicadores estabelecidas pelo CDC (Centro de Prevenção e Controle de Doenças dos EUA) como ocorrência de problemas cardíacos, diabete, asma, obesidade e tabagismo registrados durante um período de 30 dias. Quando se considera apenas os fumantes, o índice de vulnerabilidade para covid-19 severa é de 100%, de acordo com a pesquisa.

    “Evidências recentes indicam que o tabagismo está associado a uma maior probabilidade de progressão do covid-19, incluindo maior gravidade da doença, admissão na UTI ou morte”, disse Sally Adams, médica que encabeçou a pesquisa. “O tabagismo pode ter efeitos significativos em adultos jovens, que geralmente apresentam taxas baixas para a maioria das doenças crônicas [que fazem parte do grupo de risco].”

    No fim de maio, um cálculo realizado pelo demógrafo francês Christophe Guilmoto, do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento, a pedido do G1 revelou que a mortalidade de pessoas até 35 anos no Brasil é 65,4% superior à registrada em países ricos. Entre as hipóteses que explicariam esta diferença está o fato de mais jovens morarem em áreas de alta densidade habitacional ou do isolamento ser menor entre jovens e adultos.

    Na época, o epidemiologista Paulo Lotufo, da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), falando ao G1, sugeriu que “conceitos cientificamente descabidos, como um tal de ‘isolamento vertical’, serviram para passar a ideia de que quem estava sob risco eram só velhinhos e diabéticos. A mensagem que se transmitiu ao resto da população foi de liberação.”

    Trabalho e saúde mental

    A ideia de jovens irresponsáveis e egoístas colocando seu divertimento acima do problema sanitário mais amplo se disseminou pelas redes sociais.

    Matérias sobre festas de covid-19”, onde jovens participantes teriam se infectado de propósito para ganhar imunidade, contribuíram para o estereótipo e para a patrulha moral. A existência desses eventos carece de uma comprovação mais sólida. Autoridades regionais de saúde nos Estados Unidos que haviam falado à imprensa sobre esse tipo de festa voltaram atrás.

    “Há sem dúvida um elemento de animosidade geracional em jogo. Se você acredita que jovens são todos idiotas egoístas, é mais provável que acredite que eles estão se reunindo aos montes para se infectar propositadamente com um vírus potencialmente mortal”, declarou o jornalista americano EJ Dickson, na revista Rolling Stone.

    A quarentena têm resultado em impactos econômicos e psicológicos nas populações mais jovens em diversos países. No Reino Unido, uma pesquisa mostrou que uma em cada três pessoas entre 18 e 24 anos está ganhando menos do que antes da pandemia. Outro levantamento do mesmo país apontou que pessoas com menos de 25 anos têm 2,5 vezes mais chances de trabalhar em um setor que paralisou as atividades durante o período de quarentena.

    “O fardo econômico do coronavírus recaiu sobre os mais jovens. Proteger seu futuro é uma emergência nacional”, afirmou em nota uma ONG britânica que trabalha com jovens em dificuldades econômicas. Segundo estimativas da OIT (Organização Internacional do Trabalho), de cada cinco jovens no mundo, um teve que parar de trabalhar por conta da pandemia.

    Dados do CIEE (Centro de Integração Empresa-Escola) mostraram que, em abril, despencou a contratação de jovens aprendizes e de estagiários. Graças à pandemia, houve uma queda de 84,9% em relação ao mesmo mês em 2019.

    Problemas de saúde mental também afligem os mais jovens durante a pandemia. Dados oficiais dos Estados Unidos mostram a faixa etária entre 18 e 29 anos apresentando as maiores taxas de ansiedade ou depressão, podendo chegar ao dobro (40%) do que, por exemplo, a faixa entre 60 e 69, com taxas em torno de 20%. No país, o suicídio é a segunda principal causa de morte entre menores de 35 anos.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante? x

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: