Testes empacados: um retrato do descontrole da pandemia

Ministério da Saúde tem quase 10 milhões de exames parados por falta de reagentes. Testagem é baixa entre profissionais de saúde e nas populações mais vulneráveis

Principal estratégia de combate à pandemia do novo coronavírus em todo o mundo, a ampla testagem da população esbarra em dificuldades estruturais no Brasil. A incapacidade de monitorar a doença no país obriga os gestores públicos a tomarem decisões no escuro sobre medidas de isolamento social e até mesmo de flexibilização das quarentenas.

O Ministério da Saúde tem em seu estoque 9,85 milhões de testes PCR armazenados e que não podem ser usados por falta de reagentes, entre outros materiais necessários para processar os exames. A informação foi divulgada pelo jornal O Estado de S. Paulo na quinta-feira (30). A pasta irá completar 80 dias sem um ministro titular na segunda (3).

Os testes PCR são considerados o padrão-ouro. Eles identificam a presença do vírus no organismo a partir da coleta de secreções da garganta e do nariz do paciente, e possibilitam que se saiba quem está doente no momento do exame. Até a sexta-feira (31), porém, o governo federal só havia distribuído aos estados e municípios 5 milhões de testes desse tipo. O volume estocado é, portanto, quase o dobro do que a pasta já disponibilizou desde o início da pandemia no Brasil.

O governo federal prometeu em maio entregar 46,2 milhões de exames de vários tipos, mas alcançou apenas 28% da meta até o final de julho. Do total de testes a ser distribuído, 24,2 milhões são do tipo PCR. O restante são testes rápidos, feitos a partir de amostras de sangue dos pacientes. Eles não são aconselhados para o diagnóstico e o acompanhamento da evolução da pandemia pois apontam se o indivíduo teve contato com o vírus no passado, por identificar a presença de anticorpos no organismo. Também são questionados por terem grandes chances de apresentarem resultados falsos.

Há falta também de swabs (espécie de cotonetes para a coleta das secreções) e tubos para armazená-los. As amostras coletadas para os exames PCR precisam ser transportadas em temperaturas negativas, e os resultados costumam demorar dias para sair. Os testes são processados em laboratórios com equipamentos específicos e funcionários treinados para manejá-los.

Segundo o ministério, os exames estão parados devido às dificuldades de comprar insumos em meio à pandemia, já que eles são importados e todos os países estão adquirindo os mesmos itens ao mesmo tempo. A distribuição dos exames está ocorrendo de acordo com a chegada das aquisições do exterior, disse o órgão.

Como não há vacinas ou remédios contra o novo coronavírus, a principal recomendação da OMS (Organização Mundial de Saúde) para tentar conter a doença é identificar, testar, isolar e tratar os doentes, além de rastrear seus contatos e colocá-los em quarentena. Caso esse procedimento seja bem executado, é possível frear a transmissão da doença. O Brasil, porém, nunca conseguiu colocar essa estratégia em prática por falta de coordenação do Ministério da Saúde e incapacidade de testagem em massa. O país realiza menos testes do que vizinhos como Peru e Chile. Até o final de julho, estava atrás apenas dos Estados Unidos em número de casos e mortes pela infecção.

2,3 milhões

de testes do tipo PCR para a covid-19 foram realizados do início da pandemia até julho no Brasil, segundo o Ministério da Saúde; o número é inferior aos 2,9 milhões de testes rápidos feitos no mesmo período

2.662.485

era o número de pessoas que se infectaram pelo novo coronavírus no Brasil até a sexta-feira (31), de acordo com o órgão

92.475

mortes pela doença foram registradas até a mesma data

Baixa testagem na saúde

Por estarem em contato permanente com os doentes, os profissionais de saúde são a categoria mais exposta aos riscos de contaminação pelo novo coronavírus e uma das maiores vítimas da infecção. Segundo dados do Ministério da Saúde, até 25 de julho foram notificados 1 milhão de casos suspeitos de síndrome gripal por covid-19 entre os trabalhadores da área, dos quais 216 mil tiveram confirmação da doença até aquela data.

Também haviam sido internados no mesmo período 860 profissionais de saúde com notificação de SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave) causada pelo novo coronavírus, dos quais 189 morreram. O maior número de mortes ocorreu entre técnicos e auxiliares de enfermagem, seguidos de médicos e enfermeiros.

Como esse público é um dos mais afetados por estar na linha de frente do enfrentamento da pandemia, monitorá-lo ajudaria, portanto, a evitar mortes. Mas apesar disso, esses profissionais fazem poucos testes para a covid-19. Uma pesquisa realizada pelo Núcleo de Estudos da Burocracia da FGV (Fundação Getulio Vargas) divulgada na quinta-feira (30) mostrou que apenas 35,2% desses trabalhadores disseram ter realizado exames para saber se estavam com a doença ou se já tinham sido expostos ao vírus. Foram ouvidos 2.138 profissionais.

Metade dos entrevistados disse ter recebido equipamentos de proteção individual, como máscaras, protetores faciais e luvas. A grande maioria (85,5%) diz sentir medo da doença e 80% afirmaram conhecer algum colega que foi diagnosticado com a covid-19.

“Não sabemos se fomos ou não contaminados, há demora nos resultados do exame swab, não temos kits suficientes para teste rápidos para nós, profissionais, estamos trabalhando dobrado correndo risco de vida e não somos valorizados”

Profissional de saúde anônimo

em depoimento a pesquisadores da FGV

O impacto da renda na testagem

Em outro estudo publicado na revista científica Nature, na sexta-feira (31), pesquisadores brasileiros apontam que o acesso desigual aos testes e diagnósticos são um dos fatores que contribuem para uma transmissão rápida e sustentável do vírus no Brasil. Eles mostram que os exames são realizados em menor quantidade na população mais pobre, justamente a que mais tem sido afetada pela pandemia.

“Nossos dados revelam um viés socioeconômico na testagem e no diagnóstico nas atuais diretrizes de vigilância e sugerem que o número reportado de casos confirmados pode substancialmente subestimar o número de casos na população em geral, particularmente nas regiões com status socioeconômicos mais baixo”, escrevem os pesquisadores.

O estudo observa, por exemplo, uma alta de casos de SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave) sem causa definida. São classificados como SRAG os pacientes que apresentaram sintomas de febre, tosse ou dor de garganta associados a falta de ar, baixa saturação de oxigênio no sangue ou dificuldade de respirar. Nem todo caso de SRAG é causado pela covid-19. Pode ser fruto da influenza A ou B, por exemplo. Mas em 2020 esses casos estão fortemente associados ao novo coronavírus devido à pandemia.

Na região metropolitana de São Paulo, a pesquisa associa a ocorrência de casos de SRAG sem confirmação da causa à falta de testagem na população de menor renda.

De acordo com os pesquisadores, essa disparidade socioeconômica na testagem foi explicitada no início da pandemia no Brasil. Havia uma maior proporção de casos confirmados de covid-19 entre pessoas que voltavam de viagem a outros países e que tinham acesso a laboratórios privados. De 25 de fevereiro a 18 de março, dois terços de todos os casos confirmados tinham sido realizados na rede particular, onde os custos dos exames variavam de R$ 300 a R$ 690.

Para os autores, o “verdadeiro fardo da pandemia nas comunidades de baixa renda é provavelmente subestimado” no Brasil.

Por isso, eles defendem que as intervenções de combate à doença devem ter como alvo os grupos mais vulneráveis, pois as diferenças socioeconômicas estão associadas ao acesso ao sistema de saúde. “As estratégias para avaliar e controlar a transmissão devem considerar as diferenças de acesso ao diagnóstico da covid-19 nas populações de baixa renda, as mudanças no sistema de notificação e o atraso nas informações, que são a chave para determinar com mais precisão as taxas de crescimento epidemiológico”, afirmam.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.