Quais os desafios da parentalidade para pessoas trans

Ator Thammy Miranda sofreu ataques nas redes sociais por participar de propaganda de Dia dos Pais. Estudos mostram que transexuais e travestis têm dificuldades de acesso à saúde reprodutiva no Brasil

    O ator Thammy Miranda, filho da cantora Gretchen, foi alvo de ofensas, ataques e tentativas de “boicote” nas redes sociais depois de ter feito postagens em uma parceria com a empresa de produtos de beleza Natura, que está fazendo uma campanha publicitária de Dia dos Pais.

    Miranda, que é um homem transgênero, é pai de Bento, de 6 meses, filho de sua relação com a esposa, a modelo Andressa Ferreira. Após o anúncio da parceria com a Natura, usuários nas redes sociais usaram a identidade de gênero de Miranda para atacá-lo e dizer que o ator não poderia ser homem trans e também pai.

    Após as ofensas, Miranda disse que a campanha da Natura trouxe representatividade para homens trans ao incluí-lo. Ele disse que é um pai presente para Bento, e que “ser pai é isso”. Outros artistas, além de Gretchen, se manifestaram em defesa de Miranda nas redes.

    “Para mim, a maior representatividade não é só ser um pai trans, é ser um cara que eu realmente sou: um pai dedicado, que cuida, se preocupa, que está junto sempre, dedica seu tempo”

    Thammy Miranda

    ator, em entrevista para a coluna de Fábia Oliveira no jornal O Dia

    Casados desde 2013, Miranda e sua esposa optaram por fazer uma fertilização in vitro, usando o óvulo da modelo e um doador de esperma com características semelhantes às do ator. O filho, Bento, nasceu em janeiro, nos Estados Unidos.

    A repercussão da campanha da Natura com Miranda é um exemplo da discriminação que pessoas trans (transgêneros, transsexuais e travestis) frequentemente sofrem quando optam por ser pais ou mães — seja pela via da fertilização, como fez o ator, seja por outros meios, como a adoção ou a própria reprodução biológica.

    Um dos primeiros casos de pais e mães trans conhecidos no Brasil foi o de Helena Freitas e Anderson Cunha, ambos transgêneros e pais biológicos do bebê. Anderson engravidou e deu à luz o filho, Gregório, num hospital de Porto Alegre, em 2015. Helena acompanhou o parto. Na época, Anderson disse que a gravidez não causava estranheza.

    Apesar de não haver dados oficiais sobre a parentalidade de pessoas trans no país, um estudo estrangeiro publicado em 2002 na revista International Journal of Transgenderism entrevistou 120 mulheres trans e 40% disseram ter vontade de ser mãe. Outro estudo, feito em 2012 com 50 homens trans, mostrou que 54% tinham desejo de ter filhos biológicos.

    O tema nas políticas públicas

    Em nível estrutural, a discriminação contra pessoas trans pode resultar em políticas públicas que negam direitos reprodutivos a essa população.

    A pesquisadora Mônica Angonese, em dissertação de mestrado defendida na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) em 2016, chamou esse fenômeno de “esterilização simbólica”.

    A pesquisa, que tem políticas de saúde como foco, mostra que pessoas transgêneros, transsexuais e travestis têm mais dificuldade de acessar serviços ligados à saúde reprodutiva e que os profissionais médicos desconhecem suas necessidades, podendo tratá-los com desrespeito.

    A situação faz parte de uma série de violências que marcam o cotidiano de pessoas trans no Brasil, seja nos serviços de saúde, nas escolas, no trabalho, na família ou nas delegacias. A adoção de uma identidade de gênero diferente da atribuída ao nascer ainda é tratada, de modo incorreto, como desvio de comportamento, segundo a pesquisa.

    Quais os obstáculos

    Discriminação

    A população trans costuma relatar episódios de constrangimento, preconceito e discriminação por parte de profissionais do SUS (Sistema Único de Saúde). Entre os problemas, estão o desconhecimento de médicos e enfermeiros de entender o que é identidade de gênero, recusas de atendimento com base nessa incompreensão e o desrespeito pelo nome social (ou seja, o nome escolhido pela pessoa, que é diferente do nome de registro no nascimento; hoje, pessoas trans poderem mudar seu nome nos cartórios sem autorização judicial).

    Acesso à informação

    Mulheres e homens trans que passam pelo SUS relatam que nem sempre têm acesso a informações que podem ser importantes para sua saúde reprodutiva — como a de que o processo de transição de gênero (que inclui o tratamento com hormônios) pode levar à esterilidade. A portaria do governo que trata desse processo no SUS não traz referências sobre o assunto.

    Especialidades médicas

    Urologia, ginecologia, proctologia e outras especialidades são condicionadas ao sexo genital no SUS, medida que discrimina a população trans. Mesmo adotando o nome social, há pessoas que não conseguem marcar consultas ou realizar exames por conta de incongruências. O SUS entende que consultas ginecológicas, por exemplo, são voltadas a mulheres, sem considerar homens trans.

    Planos de governo

    A Política Nacional de Saúde Integral LGBT, de 2010, documento que traz orientações para o tratamento da população LGBTI no SUS, cita apenas de forma ampla os direitos reprodutivos da população trans. O texto diz que se deve garantir esses direitos para “gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transsexuais” no SUS e que é preciso definir as estratégias para fazê-lo.

    Questões de gênero

    A parentalidade, apesar de ser um desejo de muitas pessoas trans, desperta dúvidas e reflexões relacionadas à identidade feminina e masculina entre pais e mães que fazem parte dessa população.

    A maior parte das mulheres trans entrevistadas por Mônica Angonese em sua dissertação de mestrado gostava da ideia de ser tratada como mãe. Muitas viam o processo como legitimador da sua identidade de gênero, uma vez que “ser mãe” é encarado pela sociedade como um papel feminino. O mesmo foi reportado por homens trans entrevistados pela pesquisadora, em relação à paternidade.

    Por outro lado, a parentalidade trans também pode ressignificar os papéis de pai ou mãe, como no caso de homens que decidem engravidar.

    Uma pesquisa realizada na USP (Universidade de São Paulo) analisou a dinâmica dos papéis parentais de homens trans que engravidaram e propõe que, assim como o gênero, a parentalidade é um ato performativo – ou seja, baseado não em hábitos naturais, mas em práticas socialmente construídas. Dessa forma, qualquer um, homem ou mulher, poderia “performar” a paternidade ou a maternidade.

    Entre os entrevistados por Agnoese, alguns dos que revelaram o desejo de ter filhos diziam que condicionavam a realização da vontade à estabilidade emocional e às condições financeiras. A questão é especialmente delicada para pessoas trans, que têm dificuldade em conseguir trabalhos formais.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante?

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: