O novo álbum visual de Beyoncé. E a evolução da artista

Filme lançado na plataforma americana Disney+ complementa trabalho feito pela cantora na trilha sonora de ‘O rei leão’

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    Anunciado no fim de junho, o novo álbum visual da cantora americana Beyoncé, “Black is King”, chegou à plataforma de streaming Disney+ na sexta-feira (31). O serviço ainda não está disponível no Brasil – é possível que chegue em novembro –, de forma que, por enquanto, o filme não tem previsão de lançamento no país.

    Mesmo assim, no Brasil e no mundo, a “beyhive” (trocadilho com “bee hive”, colmeia em inglês, apelido da comunidade de fãs de Beyoncé) está arranjando maneiras de assistir à nova produção da artista, bastante aguardada e comentada nas redes sociais antes mesmo de vir a público.

    Beyoncé escreveu, dirigiu e é também produtora executiva de “Black is King”, seu terceiro álbum visual, depois de “Lemonade” (2016) e “Beyoncé” (2013).

    A obra se conecta à trilha sonora da nova versão cinematográfica de “O rei leão”, de 2019, da qual Beyoncé foi responsável pela produção, curadoria e pela maior parte das músicas. A partir da fábula dos leões, ambientada na África, a cantora cria sua própria narrativa visual sobre a ancestralidade negra, as tradições e riquezas do continente.

    “Eu acredito que, quando nós, pessoas negras, contamos nossas próprias histórias, podemos mudar o eixo do mundo e narrar nosso verdadeiro passado de gerações de prosperidade e riqueza de alma, que não é contado nos livros. Com esse álbum visual, eu queria trazer elementos da história negra e da tradição africana, com um toque moderno e uma mensagem universal, e [tratar] do que realmente significa encontrar sua identidade e construir um legado”

    Beyoncé

    em um post no Instagram

    Além do álbum visual completo, também foram lançados na mesma data o vídeo de “Already”, um dos clipes musicais que compõem “Black is King”, e uma edição de luxo de “The Lion King: The Gift”, trilha sonora do filme da Disney com 17 faixas.

    Como foi feito

    “Black is King” começou a ser produzido em 2019. A criação envolveu uma equipe internacional, incluindo a participação de muitos profissionais africanos, e foi filmado nos EUA, no Reino Unido e em países do sul e do oeste africano, como Nigéria e Gana.

    Do elenco, predominantemente negro, fazem parte Lupita Nyong’o, Pharrell Williams, Naomi Campbell, Jay-Z, Tina Knowles-Lawson, mãe da artista, e Blue Ivy, sua filha com Jay-Z.

    Na direção e na fotografia, Beyoncé também contou com a colaboração de cineastas de origem africana como Kwasi Fordjour, Jenn Nkiru, Emmanuel Adjei e Blitz Bazawule.

    Um pouco da recepção

    O resultado tem 1h25 de duração. Em uma resenha publicada no jornal britânico The Guardian, a escritora e apresentadora Chanté Joseph elogia a produção, que vai do minimalista ao exuberante, e a narrativa, que segundo ela é capaz de emocionar e consegue comportar os diferentes elementos visuais criados para cada música.

    Joseph define as canções e o filme de Beyoncé como “uma carta de amor para a diáspora negra”, para lembrar que mesmo aqueles que foram levados à força para outro continente e muitas vezes perderam contato com suas origens fazem parte de algo maior.

    Desde antes do lançamento, porém, a representação da cultura de países africanos pelo filme vem sendo colocada em questão.

    Com a divulgação dos primeiros teasers, espectadores africanos criticaram o que lhes pareceu ser uma imagem estereotipada do continente, com elementos como pintura facial e peles de animais.

    Alguns apontaram o risco de cair na “wakandificação”. O termo criado pela historiadora e feminista negra Jade Bentil é uma referência a Wakanda, país fictício em que se passa a série de HQs e o filme Pantera negra, e diz respeito à essencialização das culturas africanas pelo Ocidente, reduzindo-as a uma entidade homogênea que apaga a diversidade do continente.

    Houve também críticas ao filme ser disponibilizado somente pelo Disney+, ainda inacessível em países africanos.

    A estratégia de mídia da artista

    Beyoncé vem aprimorando sua estratégia de marketing há pelo menos uma década, convertendo a si própria em uma marca cultural cada vez mais poderosa e autônoma.

    A cantora ingressou profissionalmente na música na década de 1990, no grupo de R&B Destiny’s Child. No início dos anos 2000, lançou sua carreira solo, com enorme sucesso. Em anos recentes, porém, Beyoncé praticamente deixou de lado o script de uma estrela pop convencional, marcado pela busca de músicas individuais que se tornem grandes hits.

    Com um controle maior sobre seu trabalho, ela passou a produzir álbuns e projetos multimídia mais ambiciosos. Colocou questões de raça e gênero no centro de suas criações, e tornou a experiência negra, sobretudo das mulheres negras, seu tema fundamental.

    Atualmente, ela quase não dá entrevistas à imprensa e mantém sua comunicação com o público restrita a seus perfis de redes sociais e canais próprios. “Talvez paradoxalmente, isso fez com que Beyoncé ficasse ainda mais famosa e influente, e cada aparição, declaração ou post no Instagram dela passou a ser analisado em busca de significados ocultos”, avaliou o jornalista Ben Sisario no jornal The New York Times.

    Segundo ele, essa mudança de direção na carreira da artista foi acompanhada pela estratégia de pular de uma plataforma a outra para atender às necessidades de cada projeto e, não raro, manter uma atmosfera de mistério em torno deles.

    Em 2013, o documentário autobiográfico “Beyoncé: A vida não é mais que um sonho”, roteirizado por ela, foi lançado na HBO. No mesmo ano, a cantora lançou de surpresa o álbum “Beyoncé” no iTunes, da Apple. Na época, e para uma artista pop de sua estatura, o lançamento sem nenhuma publicidade teve grande impacto.

    Seu álbum seguinte, “Lemonade”, de 2016, foi lançado inicialmente no serviço de streaming Tidal, um dos negócios do casal Carter (Beyoncé e Jay-Z). Foi um acontecimento cultural tão grande quanto ou maior do que o disco anterior. Em 2019, lançou na Netflix o filme “Homecoming”, sobre sua apresentação no Festival Coachella de 2018. A parceria com o Disney+ em “Black is King” representa um novo degrau nesse percurso.

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