Quais dúvidas acompanham o anúncio da nota de R$ 200

Novidade anunciada pelo Banco Central não é sintoma de descontrole da inflação. Cédula de 500 euros foi abandonada pela União Europeia por sua popularidade em crimes financeiros

    Na quarta-feira (29), o Banco Central anunciou a produção de uma nova cédula do real, no valor de R$ 200.

    A nota começa a circular pelo país no final de agosto. Em 2020, serão impressas cerca de 450 milhões de unidades.

    As cédulas terão como emblema no verso um lobo-guará, animal típico do Cerrado. A imagem da nota ainda não foi divulgada publicamente por motivos de segurança.

    As razões para a nova cédula

    De acordo com o Banco Central, a criação da nota está diretamente relacionada ao aumento da demanda por papel moeda e, consequentemente, de uma exigência maior de impressão de cédulas na Casa da Moeda, localizada no Rio de Janeiro.

    O Banco Central também citou, como razão para a nota de R$ 200, o entesouramento durante a pandemia do novo coronavírus. Em outras palavras, o crescimento no número de pessoas que sacam dinheiro – em especial os beneficiários do auxílio emergencial – para fazer reservas caseiras em espécie.

    A instituição também menciona que a nova nota possibilita uma redução de custos da execução da operação logística do dinheiro na hora da impressão. Como há mais valores circulando, notas de maior valor diminuiriam o número de impressões e de viagens para se fazer a distribuição das cédulas.

    Um anúncio acompanhado do fantasma da inflação

    Nas horas subsequentes ao anúncio da nota de R$ 200, usuários nas redes sociais começaram a afirmar que a nova cédula seria um prenúncio para o retorno da inflação descontrolada das décadas de 1980 e 1990, já que supostamente seria um indício da desvalorização do real.

    A nota de R$ 100 foi lançada em julho de 1994. O poder de compra da cédula à época seria de R$ 621 nos dias de hoje. Em 26 anos, a inflação acumulada foi de 521%, um valor pequeno se comparado a números como os de abril de 1990, quando a inflação estava em 6.821% ao ano.

    Joelson Sampaio, economista e professor de economia na Fundação Getulio Vargas de São Paulo, não vê o anúncio como um sinal de retorno aos tempos em que os preços flutuavam amplamente e constantemente.

    “Nós estamos com um nível de juros muito baixo. Eu não teria essa preocupação”, afirmou ao Nexo. A taxa Selic, base para o cálculo de juros no país, atingiu o patamar de 2,25% ao ano em junho, o menor desde 1999.

    Por servir de base para as taxas de juros de outros empréstimos, a taxa Selic é usada pelo Banco Central, a autoridade monetária do país, para estimular ou frear a economia. A ideia é que, com juros mais baixos, fique mais fácil tomar crédito no banco a fim de que empresas e famílias tenham mais dinheiro à disposição para fazer investimentos ou realizar gastos no dia a dia. Se os juros estiverem mais altos, o efeito esperado é inverso.

    O Banco Central costuma utilizar a taxa Selic como instrumento para o controle da inflação no Brasil. Quando há sinais de que a inflação pode aumentar, o Banco Central eleva a taxa básica de juros com a intenção de esfriar a economia e conter um eventual aumento dos preços. Se a inflação está num patamar baixo e não sinaliza aumento, há margem para estimular a economia com um corte de juros, sem grandes riscos inflacionários.

    Em junho de 2020, o cenário é de inflação em baixa, apontando até para uma possível deflação. A deflação é um fenômeno amplo que ocorre quando há queda geral no nível de preços. O corte na taxa de juros, portanto, aproveita o espaço deixado pelo quadro de inflação em baixa.

    Para Vinicius Torres Freire, colunista de economia e política da Folha de S.Paulo, a nota de R$ 200 não traz à tona o fantasma da inflação descontrolada.

    “Emitir uma cédula de valor nominal mais alto pode ser, sim, sinal de que houve alguma inflação em algum período. Mas praticamente não há inflação no país agora. Nos últimos 12 meses, o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, usado para aferir a inflação) aumentou 2,1%. A inflação cai ou está bem baixa desde meados de 2017, afora o repique de meados de 2018, cortesia da greve dos caminhoneiros”, afirmou, em texto publicado na noite de quarta-feira (29).

    Segundo Joelson Sampaio, a criação da nova cédula não vai trazer grandes impactos. “Eu vejo o anúncio como positivo, mas não vejo grandes mudanças”, disse. “É mais uma medida de controle do Banco Central”.

    Torres Freire concorda com a visão de que a nota de R$ 200 tem pouco impacto na vida das pessoas. “Por que uma cédula nova? Por causa de um tanto de inflação em um quarto de século. Também, em parte, porque as pessoas estão usando mais papel-moeda nesta pandemia e porque diminuiu a circulação do dinheiro. É um problema prático; em termos econômicos, um problema pequeno”, afirmou.

    A nova nota e a questão da corrupção

    Logo após o anúncio da nova cédula, começaram a pipocar nas redes sociais mensagens afirmando que uma nota de R$ 200 facilitaria a vida de pessoas que cometem crimes financeiros.

    Notas maiores permitiriam que valores maiores em espécie fossem movimentados com menos dificuldade, ocupando menos espaço físico. Justamente por isso que a União Europeia deixou de produzir as cédulas de 500 euros.

    O anúncio do fim da nota foi feito em 2016, mas a produção só foi encerrada de fato em 2019. A justificativa dada é a de que a nota, de maior valor nominal, facilitava crimes financeiros, especialmente a lavagem de dinheiro.

    O peso de US$ 1 milhão em notas de US$ 100 é de cerca de 9,9 kg. Se a mesma quantia fosse transportada em notas de 500 euros, o peso cairia para um pouco menos de 2 kg.

    A nota de 500 euros dificilmente era vista pela população em geral e ficou tão associada aos crimes que, por algum tempo, parte da mídia europeia apelidou a cédula de “Bin Laden”, em referência ao terrorista saudita responsável pelos ataques de 11 de setembro de 2001.

    No livro The Curse of Cash(A maldição do dinheiro, em tradução livre), lançado em 2016, o economista americano Kenneth Rogoff, professor de economia na Universidade de Harvard, defende a tese de que notas de valor maior não só facilitam crimes como oneram significativamente os cofres públicos.

    “Os ‘lucros’ que os governos recebem simplesmente acatando a demanda por papel moeda são diminuídos pelos custos vindos das atividades ilegais facilitadas pelo dinheiro, em especial as cédulas de maior valor”, afirma na introdução do livro.

    Joelson Sampaio vê lógica no raciocínio, porém enxerga essa questão como sendo marginal ao resto do debate.

    “Eu não me preocuparia muito com esse ponto”, disse. “Acho que a pessoa que vai cometer um crime financeiro não cometeria ou deixaria de cometer por esse motivo”, concluiu.

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