Os sinais para a economia global da queda na Alemanha e nos EUA

Dois dos maiores mercados do mundo registraram retração histórica de cerca de 10% no PIB do segundo trimestre, período mais afetado pela pandemia do novo coronavírus

    Duas das maiores economias do mundo divulgaram na quinta-feira (30) o desempenho do PIB (Produto Interno Bruto) no segundo trimestre de 2020, período marcado pelo agravamento da pandemia do novo coronavírus. Como seria de se esperar em meio a uma crise sem precedentes, Estados Unidos e Alemanha registraram retrações históricas da atividade econômica.

    9,5%

    foi a queda do PIB dos EUA no segundo trimestre de 2020 em relação aos primeiros três meses do ano

    10,1%

    foi a queda do PIB da Alemanha no segundo trimestre de 2020 em relação aos primeiros três meses do ano

    O PIB é o resultado da soma de todos os novos bens e serviços produzidos em um país em certo período de tempo. Por ser um indicador de quanto e como a economia produziu naquele intervalo, o PIB aponta se a atividade econômica expandiu, encolheu ou se manteve igual na comparação com outros momentos.

    Não é comum – nem em períodos de recessão – que qualquer economia registre um recuo da ordem de 10% em apenas um trimestre.

    A queda nos EUA

    O governo americano divulga o desempenho do PIB por uma taxa anualizada. Isso significa que o número equivale à variação total do PIB que ocorreria se a economia mantivesse o mesmo ritmo de evolução ao longo de um ano inteiro. A queda anualizada do PIB americano no segundo trimestre de 2020 foi de 32,9% – se a economia caísse 9,5% por quatro trimestres seguidos, seria essa a variação total.

    A variação negativa de quase 10% não tem precedentes dentro da série histórica disponibilizada pelo governo americano, iniciada em 1947. Em 73 anos de registros, nunca houve um trimestre que chegasse perto da queda observada no segundo trimestre de 2020.

    CINCO PIORES TRIMESTRES

    Piores quedas trimestrais do PIB dos EUA desde 1947. Segundo trimestre de 2020 quase quatro vezes pior que o segundo colocado, o primeiro trimestre de 1958

    A contração no segundo trimestre de 2020 supera em muito a segunda colocada na lista, registrada no início de 1958. Naquele momento, a economia americana passava por uma breve – mas forte – recessão, marcada pela política monetária rigorosa do governo e pela queda na indústria automobilística.

    Os dados do segundo trimestre de 2020 mostram que o tombo dos EUA foi puxado pelo consumo – com queda anualizada de 34,6% – e, principalmente, pelo investimento privado, que caiu 49% na taxa anualizada. Cerca de 70% do PIB dos EUA vem do consumo das famílias.

    Os gastos do governo, que cresceram 0,7% em relação ao trimestre anterior (não anualizado), ajudaram a amenizar o choque negativo sobre a economia. No final de março, o Congresso dos EUA aprovou um pacote de cerca de US$ 2 trilhões (R$ 10,3 trilhões, pela cotação de 30 de julho de 2020) para socorrer empresas, dar apoio financeiro para famílias atingidas pela crise e estimular a economia. Em julho, os parlamentares americanos discutem um novo estímulo econômico da ordem de US$ 1 trilhão.

    Os EUA são o país com mais casos e mortes registradas pelo novo coronavírus. Na virada de julho para agosto, a situação da doença no país segue se agravando, enquanto medidas de flexibilização do isolamento social e retomada de atividades econômicas são tomadas.

    A queda na Alemanha

    Na Alemanha, a queda de 10,1% do PIB no segundo trimestre também foi histórica. A retração foi maior do que a expectativa do mercado, que era de uma variação negativa de 9%. Como resultado, a queda foi a maior registrada desde o início da série histórica, em 1970. Até a crise do coronavírus, o pior resultado havia ocorrido no primeiro trimestre de 2009 – auge da crise financeira global –, quando o PIB recuou 4,7% em três meses.

    EVOLUÇÃO DESDE A UNIFICAÇÃO

    Variação trimestral do PIB alemão desde 1991. Segundo trimestre de 2020 é disparado o pior

    Assim como nos EUA, houve na Alemanha uma retração forte no consumo e nos investimentos, com queda também nas exportações e importações. Ao mesmo tempo, os gastos do governo ajudaram a amenizar o tombo. O comunicado do Destatis (Departamento Federal de Estatística da Alemanha) não detalha os números das variações de cada um dos componentes do PIB.

    Na Alemanha, país que se tornou referência no controle da pandemia, crescem os temores de uma possível segunda onda de contágio pelo novo coronavírus, assim como em outros países da Europa.

    Uma análise sobre os impactos das quedas

    O Nexo conversou com o professor Alexandre Uehara, coordenador acadêmico do Centro Brasileiro de Estudos de Negócios Internacionais da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), para entender o que os dados divulgados na quinta-feira (30) significam para a dinâmica da economia global.

    O que os números divulgados por EUA e Alemanha revelam sobre a futura trajetória de recuperação econômica?

    Alexandre Uehara Mostram que o impacto da pandemia do coronavírus é bastante significativo. Varia de país a país, dependendo do momento que a pandemia os afetou. A gente pode pegar o caso da China como o país onde houve o primeiro impacto [da pandemia]. Lá, houve essa mesma sequência: uma queda no primeiro momento em que a pandemia foi mais forte – no caso da China, o primeiro trimestre. Depois, um segundo momento um pouco melhor. No caso da Alemanha, EUA, e também do Brasil [que ainda não divulgou o PIB do segundo trimestre], o segundo trimestre foi mais afetado.

    Nessa recuperação, quando na China houve a recuperação no segundo trimestre, o mundo olhou com um certo otimismo. O problema é que agora, no mundo ocidental, quando se esperava que poderia haver no terceiro trimestre uma recuperação, vemos uma possível segunda onda da pandemia, o que causa preocupações.

    O senhor mencionou os dados da China, que apontaram uma recuperação no segundo trimestre. Com base nos países que já divulgaram resultados para o período, como a pandemia pode impactar o equilíbrio de poderes na economia global?

    Alexandre Uehara Vai mexer sim. As relações econômicas, numa ótica geopolítica, vão ser afetadas. As relações entre os países, principalmente de comércio, estão sendo bastante afetadas. Mas eu diria que ainda temos que aguardar quais serão os resultados efetivos da pandemia sobre as economias no mundo todo.

    O mundo olhava com uma certa expectativa e até uma certa apreensão para o crescimento econômico chinês [nos últimos anos]. Mas como a China vai sair deste momento é uma incógnita, uma dúvida. Muitas economias começaram a ver que essa relação de dependência que criaram com a China – a China é basicamente a principal fornecedora de alguns produtos para o mundo inteiro – como uma vulnerabilidade. Isso pode mudar relações no mundo. A China pode sofrer impactos importantes, porque ainda depende muito do comércio internacional, apesar de o governo chinês buscar desenvolver seu mercado interno.

    Um ponto positivo que a China tem é que outras economias da região, como Vietnã, Indonésia e outros países, são economias que ainda têm muito para crescer. Diferentemente do que aconteceu no Ocidente, em que as economias são muito competitivas entre si, na Ásia as economias são bastante integradas e complementares. Vejo que esse é um aspecto positivo para a China: ela pode manter um certo dinamismo econômico durante algum tempo ainda.

    O que as quedas de Alemanha e EUA – e mesmo a recuperação chinesa – no segundo trimestre significam para o Brasil?

    Alexandre Uehara As relações de exportação e importação dos EUA com o mundo caíram neste primeiro semestre. As exportações dos EUA para Brasil caíram menos [do que com o restante do mundo], mas nossas exportações do Brasil para os EUA, apesar de toda a relação que Bolsonaro tem tentado manter de proximidade, caíram mais – em torno de 30%. Percebemos que a relação de competitividade é um tanto complicada.

    Olho o Brasil com preocupação. O Brasil, nos últimos anos, tem passado por um processo de enfraquecimento da integração com a economia global como um todo. O Brasil era uma economia muito mais complexa no sentido de relações de importação e exportação, envolvendo não só o setor agrícola como o setor industrial. E, nos últimos anos, a nossa competitividade tem caído bastante. Então, olhando para um cenário de médio prazo, em que, aparentemente, há sinais de que as economias de países desenvolvidos tendem a ter uma preocupação maior em desenvolver uma produção interna mais ampla, que dependa menos de produções externas, isso pode levar o Brasil a enfrentar grandes dificuldades.

    Se tivermos que competir com uma produção – principalmente industrial – de países como EUA, países europeus ou até mesmo asiáticos, estamos bastante atrasados em termos de conseguir recuperar nossa competitividade. E isso pode fazer com que o Brasil perca mais espaço ainda na exportação industrial. Vamos ficar cada vez mais restritos às exportações do setor agropecuário.

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