O que divide opiniões na reforma do Anhangabaú em São Paulo

Projeto originado na gestão Haddad está sendo executado pela prefeitura de Bruno Covas e deve ficar pronto em setembro. Requalificação divide opiniões

    Fotos das obras no Vale do Anhangabaú que circulam desde meados de julho deram aos paulistanos uma prévia de como ficará a reforma da área, na região central de São Paulo.

    Muita gente não gostou do que viu e levou as críticas para as redes sociais. As contestações vão de questões de cunho urbanístico – como a alteração paisagística da área, com a retirada de área verde – às de caráter orçamentário, que discordam dos recursos despendidos pelo poder público na obra e até da necessidade de reforma no vale.

    Nas redes, surgiram também comparações entre as imagens recentes e registros da área no passado, apontando uma piora no atual (e futuro) desenho urbano do lugar.

    A reforma teve início em 2019, na gestão de Bruno Covas (PSDB), e deve ser entregue em setembro. A conclusão da obra estava prevista para junho, mas, segundo a prefeitura, atrasou devido à pandemia de covid-19.

    O projeto

    Embora seja executada pela gestão atual, a proposta de requalificação do Vale Anhangabaú foi apresentada em 2015, durante o mandato de Fernando Haddad (PT), prefeito da cidade de 2013 a 2016.

    Em entrevista à Folha de S.Paulo na terça-feira (28), o ex-prefeito respondeu às críticas feitas aos resultados da reforma, afirmando que, desde que haja boa gestão, a área “vai se transformar em uma nova Avenida Paulista”.

    Haddad disse ainda que as reclamações estão sendo dirigidas a um plano que não está pronto. No que diz respeito ao verde, diz o prefeito que foi retirado apenas um gramado que, segundo ele, não servia nem para drenar a água das chuvas. Ele afirmou que há previsão de plantio de vegetação ao redor, e que a ideia é criar “uma espécie de alameda”.

    O projeto foi desenvolvido em 2013, a partir da consultoria do escritório do arquiteto dinamarquês Jan Gehl, e financiado pelo banco Itaú.

    Entre as justificativas para a reforma, a administração pública argumentava pela necessidade de tornar mais atraente um lugar que têm grande importância histórica e simbólica para a capital paulista. Da forma como estava, o Vale seria um lugar de passagem, que não convidava a população a permanecer.

    Com o objetivo de tornar a área mais convidativa, portanto, o projeto introduziu um pátio de convivência, com fontes, fachadas ativas, quiosques e banheiros. Previu também um contrato administrativo com a iniciativa privada para prestação de serviços como manutenção e zeladoria.

    Já naquela época, a proposta de requalificação foi alvo de críticas que colocaram em questão a prioridade do investimento, a falta de participação da sociedade na concepção do projeto e o modelo de gestão. Haddad encerrou seu mandato sem tirar o projeto do papel.

    Os custos

    R$ 94 milhões

    é o valor total da obra previsto pela prefeitura

    São R$ 14 milhões a mais do que o orçamento previsto inicialmente. Os recursos para a reforma vêm do Fundurb, um fundo criado pelo Plano Diretor que é alimentado pela venda de solo criado na cidade – dinheiro arrecadado de construtoras e incorporadoras que, por meio de um instrumento chamado outorga onerosa, pagam ao poder público para construir prédios mais altos do que o permitido pela legislação.

    Segundo a gestão Covas, o gasto extra se deve a imprevistos surgidos nas obras. Uma delas foi a descoberta de trilhos de bonde sob a calçada da Avenida São João, o que exigiu acompanhamento arqueológico da escavação para a obra.

    A concessão

    A prefeitura publicou no fim de julho um edital para receber propostas de concessão do Vale do Anhangabaú. A licitação está marcada para 26 de agosto.

    O contrato com a empresa concessionária terá duração de dez anos, e ela poderá alugar áreas pertencentes à prefeitura, além de lucrar com publicidade e realização de eventos.

    Já os investimentos da parte dessa concessionária incluem monitoramento e vigilância com implantação de câmeras e postos de segurança 24h, instalação de lixeiras e banheiros públicos, fornecimento de energia elétrica, água, esgoto e telefonia, disponibilização de Wi-Fi gratuito, reparos e manutenção de todas as áreas, galerias, quiosques e equipamentos existentes e o desenvolvimento de aplicativo móvel gratuito com informações sobre o cronograma de atividades previstas para a área.

    Duas visões sobre a reforma

    • Eduardo Nobre, arquiteto e urbanista e professor da FAU-USP
    • Marcus Vinicius Damon, arquiteto e urbanista e lidera o Estúdio Módulo de Arquitetura

    Como você avalia a atual reforma do Anhangabaú?

    Eduardo Nobre Acho que a primeira questão que precisa ser colocada é sobre a real necessidade desse projeto. O motivo pelo qual a prefeitura, ainda na gestão Haddad, resolveu fazê-lo era a ideia de revitalização, de utilização daquele espaço, de que ele não estaria sendo usado, era frequentado apenas pelos sem-teto. É preciso questionar isso. Na verdade, as fan fest da Fifa [em Copas do Mundo] foram no Anhangabaú e foram sempre muito lotadas. As manifestações políticas também costumavam ser no Anhangabaú. Há a questão se, de fato, o projeto que está sendo implantado vai dar essa tal da vitalidade que a prefeitura está tanto esperando.

    Na minha opinião, eu acho que não. O problema do Anhangabaú é que, como ele virou um espaço de pedestre, vários prédios que tinham antigamente entrada para ele passaram a priorizar a entrada pela R. Líbero Badaró, onde as pessoas podem chegar de carro.

    Eu vejo o Anhangabaú como um grande espaço público da cidade. O projeto anterior, do Jorge Wilheim com a Rosa Kliass, era para mim um bom projeto, não tinha nenhum problema muito grande – e ele tinha uma quantidade de área verde muito maior do que tem agora.

    Então eu particularmente acho que esse projeto que teve a consultoria do Jan Gehl pode ser interessante para a Dinamarca, para Copenhague, mas a prática dele é muito diferente da nossa realidade aqui.

    [O projeto] é voltado para um outro tipo de centro urbano, menor, que não é vibrante e super movimentado como costuma ser o nosso. Um espaço público desse tamanho num centro urbano como o de Copenhague, por exemplo, logicamente seria muito utilizado. Mas a gente tem uma dinâmica de vários centros, a Paulista, a Faria Lima. Acho que não é o projeto, o espaço físico, que vai determinar se aquele espaço vai ser mais utilizado ou não.

    Acho que tem questões bastante complicadas do ponto de vista de gerenciamento. Claro que a água é um elemento paisagístico interessante nos projetos urbanos, de praças, mas ele trabalha com uma quantidade de fontes que vai exigir manutenção constante e infelizmente não é isso que a gente vê acontecendo na maior parte dos equipamentos públicos da cidade.

    Na minha opinião, o Anhangabaú estava muito bem. Poderiam ser criados, talvez, alguns equipamentos urbanos para dar essa vitalidade que a prefeitura queria, de repente instalar alguns quiosques de serviços da prefeitura no vale, quiosques de alimentação. Mas acho que não tinha necessidade de reforma. É um projeto de R$100 milhões de reais, a cidade tem prioridades muito maiores do que essa.

    Marcus Vinicius Damon Eu sempre tendo a avaliar com bons olhos projetos e obras que têm como intenção a melhoria de regiões, o objetivo de priorizar pedestres, priorizar a dinâmica de uma cidade contemporânea.

    Obviamente que o Vale tem uma história importante. O projeto que foi demolido foi feito por arquitetos importantes e a gente tem que respeitar essa história de alguma forma. Ao mesmo tempo, é preciso confrontar o que seria uma condição ideal de projeto, de cidade, com a situação real, com a realidade do cotidiano.

    O desenho [do projeto anterior] era maravilhoso, o paisagismo era super bonito. Mas acho que a maioria das pessoas não se sentia muito segura andando nele. E é uma região que está tendo uma efervescência interessante, com a Praça das Artes [que teve sua área externa inaugurada em março de 2019] e outras dinâmicas que estão sendo ativadas no centro.

    Então vejo com bons olhos o projeto que está sendo implementado, ele tem um desenho interessante. Obviamente que não dá para comparar um projeto que está com as árvores sendo plantadas agora com um outro em que as árvores já estavam crescidas, que é um dos pontos que muita gente critica. Acho que é uma renovação que vai ser importante, que as pessoas vão se sentir melhor e mais seguras andando por ali.

    Mas eu acredito que isso só vai acontecer se ele realmente for bem executado. É um projeto que ainda está em obra, não dá para cravar que deu certo ou vai dar certo. A gente precisa vê-lo pronto de fato, definitivo. Se ele for mal executado, posso mudar de visão.

    Quais impactos você considera que ela deve trazer para a área?

    Eduardo Nobre Com relação aos impactos, não sei se vai modificar muito a dinâmica do Vale do Anhangabaú e da área central. Como eu falei, acho que vai ser bastante complicado o gerenciamento, a manutenção desse espaço, mais do que era no Vale do Anhangabaú anterior.

    Certamente que, no verão, os sem-teto vão se aproveitar das fontes – o que no meu ponto de vista não é nenhum problema – para fazer sua higiene pessoal ou se refrescar. Não só eles como crianças e pessoas em geral. Aí eu quero ver qual vai ser a posição da prefeitura, porque uma vez que esse espaço é público e ela coloca esse tipo de uso, ela tem que permitir o uso pelos cidadãos, e a população em situação de rua também tem direito de utilizar esse espaço, são cidadãos como todos os outros.

    Marcus Vinicius Damon O que eu reparo, principalmente com relação às pessoas que trabalham ali, que pegam o metrô, é que muitas vezes elas se sentem desamparadas pela cidade. Faltam lugares onde se possa sentar, onde a pessoa não vá ficar com aquele receio de deixar a bolsa no banco e de repente não estar mais lá.

    Se a gente prestar atenção, São Paulo tem pouquíssimos bancos. Tem lugar para sentar ou numa mureta ou no ponto de ônibus. Então uma coisa que eu acho interessante no projeto é que ele acrescenta bancos. Parece uma coisa boba, mas um banco à sombra de uma árvore pode ser uma coisa agradável. O projeto também prevê quiosques, alguns comércios que vão dar uma ativada na área. A permanência nele também vai ser importante. É aquela história, quanto mais gente estiver usando [o espaço] mais seguro ele vai ficando e uma coisa vai alimentando a outra.

    Fazendo um certo contraponto à minha fala, me parece que junto de todos esses benefícios de qualidade de vida para quem mora e trabalha na região, é necessário evitar problemas como o que a gente chama de gentrificação.

    Sociólogos e economistas poderiam opinar até melhor do que eu, como arquiteto, sobre como não expulsar a população que já mora lá por conta de aluguéis mais baixos ou de que maneira a gente poderia tratar de forma adequada a população em situação de rua. A arquitetura não vai conseguir resolver tudo.

    Também me parece importante ver como vai ser a questão da concessão para que a gente não tenha uma super área VIP no centro de São Paulo. Seria aterrorizante ter uma administração que gerencie aquela região tratando-a como uma grande área VIP que excluiria boa parte da população, inclusive a própria classe média que trabalha naqueles edifícios.

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