Covid-19: como evitar o contágio por partículas suspensas no ar

Estudos reforçam chances de transmissão do novo coronavírus por aerossóis, o que destaca a importância de cuidados maiores na retomada de atividades que geram aglomeração em locais fechados e sem ventilação

Estudos recentes que buscam desvendar como a transmissão do novo coronavírus tem ocorrido reforçam a tese de que o contágio pode se dar de pessoa a pessoa por meio de partículas suspensas no ar, chamadas de aerossóis — e não somente por gotículas de saliva expelidas ao falar, tossir ou espirrar, como se acreditava inicialmente.

Os achados alertam para o risco da retomada precoce de atividades que geram aglomerações em locais fechados, como acontece nas escolas e no uso de transportes coletivos, e podem servir para o estabelecimento de novos protocolos de saúde na pandemia.

Até o início de julho, a OMS (Organização Mundial de Saúde) considerava que a transmissão da doença se dava apenas por gotículas de saliva. Por serem mais pesadas, elas viajam por pouco mais de um metro após serem expelidas, e logo caem no chão. Mas a entidade reconheceu também a transmissão pelo ar após pressão de 239 cientistas que enviaram uma carta à organização no início do mês pedindo que ela revisasse seu posicionamento em relação ao tema.

Os aerossóis são produzidos com mais facilidade, até mesmo ao respirar. Por serem mais leves que as gotículas, podem ser carregados por correntes de ar por longas distâncias. A comprovação desse tipo de transmissão tem reforçado a importância de atentar para medidas como manter locais bem ventilados, junto com o distanciamento social e o uso de máscaras, já adotados pela maioria dos governos no combate à covid-19.

O que dizem os novos estudos

O novo coronavírus pode ficar suspenso no ar em ambientes ocupados por pessoas infectadas, como mostrou um estudo conduzido pelo Centro Médico da Universidade de Nebraska, nos Estados Unidos. O trabalho foi revisado por outros pesquisadores e publicado na revista científica Nature, na quarta-feira (29).

Para se chegar à conclusão, os pesquisadores isolaram 13 pessoas que foram infectadas pelo novo coronavírus no navio de cruzeiro Diamond Princess. A embarcação passou um mês em quarentena no Japão com 3.711 passageiros a bordo, dos quais 712 se contaminaram, e foi esvaziada completamente em 1º de março.

Segundo pesquisadores japoneses que estudaram o caso por meio de um estudo genético, todos os doentes do cruzeiro se contaminaram a partir de um único doente, chamado de paciente zero, que não foi, porém, identificado. As infecções ocorreram durante um mês.

O navio acabou se tornando um laboratório para cientistas, que conseguiram mapear como a doença evoluiu dentro de um ambiente controlado. Os 13 pacientes da pesquisa da Universidade de Nebraska foram tratados nos Estados Unidos e colocados em unidades de quarentena.

Os cientistas coletaram amostras de ar dos quartos onde eles ficaram e da superfície de objetos pessoais e dos banheiros. De 163 amostras de ar, 72,4% tinham o vírus. O agente infeccioso também foi encontrado em 81% das amostras do banheiro, em 77,8% da superfície dos celulares e em 55,6% dos controles remotos.

Os pesquisadores constaram que as partículas suspensas no ar que continham o novo coronavírus foram transportadas dos quartos onde estavam os pacientes até os corredores das unidades de quarentena durante as atividades de coleta das amostras.

“Os dados indicam uma contaminação significativa do ambiente dos quartos onde os pacientes infectados pelo Sars-CoV-2 [nome do novo coronavírus] foram alojados e tratados, apesar do grau de sintomas ou da gravidade da doença”, diz a pesquisa.

Outro estudo divulgado pelo jornal The New York Times na quinta-feira (30), ainda não revisado por outros cientistas, mostra que os aerossóis tiveram uma predominância na infecção dentro do mesmo cruzeiro, o Diamond Princess.

Por meio de modelos matemáticos, pesquisadores da Universidade de Harvard e do Instituto de Tecnologia de Illinois, nos Estados Unidos, estimam que cerca de 60% das infecções ocorrem justamente a partir das partículas suspensas no ar com a presença do vírus.

Os aerossóis podem ficar suspensos no ar por horas e estão mais concentrados perto de quem está infectado. Eles possuem uma carga viral menor do que as gotículas de saliva, mas por serem menores têm mais chances de penetrar profundamente nas mucosas.

O risco de contágio pelos olhos

A presença do vírus em partículas suspensas no ar também alerta para o risco de infecção pelos olhos. As portas de entrada do organismo são as mucosas da boca e do nariz, diretamente conectadas ao trato respiratório. Elas são protegidas quando se usa máscaras. Mas existe a possibilidade de infecção também pelas mucosas dos olhos, na maioria das vezes expostos.

Questionado na quarta-feira (29), pelo canal ABC News, nos Estados Unidos, o infectologista Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas e nome à frente da força-tarefa do governo americano de combate ao novo coronavírus no país, afirmou que o ideal seria proteger também as mucosas dos olhos.

“Teoricamente você deve proteger todas as mucosas. Então, se tiver óculos de proteção ou protetores faciais, você deve usá-los. Não é universalmente recomendado, mas se você quiser estar completo, provavelmente deveria usá-los se puder”

Anthony Fauci

diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos

A infecção pelos olhos poderia acontecer tanto pelo contato com o vírus ao coçar os olhos com as mãos infectadas quanto pelas partículas suspensas que são liberadas quando as pessoas respiram, falam, tossem ou espirram. As membranas mucosas são formadas por camadas mais finas de células nas quais o vírus encontram maior facilidade para penetrar.

Um estudo publicado na revista Lancet, em junho, mostrou que pessoas que usam máscaras que protegem também os olhos têm chances menores de se infectar.

Como se prevenir

Um estudo publicado em julho pela revista do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos mostrou que uma única pessoa doente que foi a um restaurante na cidade de Guangzhou, na China, infectou outras nove sentadas na mesma mesa ou em mesas diferentes.

Pesquisadores chineses que analisaram como o contágio se deu no restaurante não encontraram indícios de ter havido contato próximo entre as pessoas que contraíram o vírus, o que elimina a possibilidade de ter sido por gotículas. Nenhum dos garçons ficou doente, nem as pessoas que se sentaram embaixo do ar-condicionado.

Mas o estudo notou que as mesas dos infectados estavam localizadas em pontos com pouca ventilação natural e na rota do jato de ar do aparelho de ar-condicionado.

Em artigo publicado no jornal The New York Times, na quinta-feira (30), a professora de engenharia Linsey Marr, da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos, que estuda a transmissão de vírus, diz que medidas como manter a distância das pessoas e usar máscaras, como já vem sendo feito, são importantes.

Mas ela ressalta que os novos achados sobre os aerossóis, como no caso do restaurante chinês, reforçam a necessidade de evitar aglomerações, especialmente em locais fechados.

“Quanto mais pessoas ao redor, maior a probabilidade de alguém se infectar. Evite aglomerações em locais fechados, onde os aerossóis podem se acumular”, escreveu. Segundo ela, seria possível se contaminar num quarto fechado por onde um doente passou anteriormente se o ambiente for pequeno e abafado.

É importante também melhorar o fluxo de ar dos ambientes e abrir janelas e portas para ventilar. Ela sugere manter limpos os filtros dos aparelhos de ar-condicionado e aquecedores ou instalar tecnologias que usam raios ultravioletas para matar os vírus nas partículas suspensas.

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