Como funciona o aplicativo que mostra sua ‘bolha’ no Twitter

Ferramenta usa informações públicas para facilitar a visualização das redes de interações dos usuários

    Se você é usuário do Twitter são grandes as chances de ter visto pessoas exibindo uma imagem em que sua foto de perfil aparece cercada de fotos menores de outras contas da mesma rede social. Gerada pelo aplicativo Chirpty, a imagem se propõe a ser um panorama dos perfis com os quais o usuário mais se relaciona.

    Para gerar a imagem, é necessário entrar no site do aplicativo e digitar seu nome de usuário do Twitter (sua “arroba”). A procura tem sido grande. Quando o Nexo tentou cadastrar seu perfil recebeu uma mensagem pedindo que esperasse 15 minutos pois não havia “slots”. Durante uma hora de tentativas não foi possível conseguir fazer o cadastro. O serviço é gratuito, mas há uma opção paga (US$ 0,99) para quem não quiser pegar a fila.

    Para construir a representação do seu círculo de interações, o aplicativo usa dados públicos que estão na API do Twitter. A API é o conjunto de informações sobre programação de um aplicativo, disponível para desenvolvedores que queiram criar outros aplicativos que “conversem” com o primeiro. Para o usuário, não é preciso permitir acesso a nenhum dado pessoal na hora de fazer o cadastro, nem mesmo estar logado na sua conta no Twitter.

    O que ele leva em conta para gerar a bolha

    O algoritmo do aplicativo gera três círculos, de acordo com uma suposta proximidade com o usuário do perfil. O primeiro, mais próximo, consiste de oito perfis. O segundo tem 15 perfis e o terceiro, 26. No total, são 49 perfis da bolha do usuário.

    Para chegar a esses perfis e estabelecer a hierarquia, o Chirpty se vale de informações obtidas a partir das interações públicas da pessoa, ou seja, comentários, retuítes e curtidas. Contatos por meio de mensagem privada não entram no cálculo.

    No blog do criador do aplicativo, o desenvolvedor Simone Masiero, ele explica que uma curtida vale 1, uma resposta, 1,1 e um retuíte, 1,3. “Indiscutivelmente, um retuíte é um sinal de interação maior do que uma curtida”, argumentou Masiero.

    O desenvolvedor se declarou surpreso com o sucesso de sua invenção. “Tem sido uma volta de montanha-russa”, afirmou em um post no próprio Twitter.

    As bolhas de políticos

    Usuários vêm se divertindo com a exibição de “bolhas” que indicam interações que estão alinhadas com sua preferência política, perfil intelectual ou gosto cultural.

    Pessoas conhecidas também já tiveram suas bolhas investigadas. O perfil do presidente Jair Bolsonaro, que tinha mais de 6,6 milhões de seguidores em 30 de julho de 2020, aparece cercado por contas de líderes conservadores como o presidente americano Donald Trump e o premiê italiano Matteo Salvini, ministros de seu governo e, curiosamente, um time de futebol dos Emirados Árabes Unidos, Al Wasl FC.

    Foto: Reprodução
    Experimento com perfil do ex-presidente Lula mais se relaciona. Cada perfil é representado por uma bolinha. No centro, está a imagem de Lula
    Imagem gerada pelo aplicativo Chirpty mostra os perfis com os quais o perfil do Twitter do ex-presidente Lula mais se relaciona

    O perfil do ex-presidente Lula, que contabiliza 1,9 milhões de seguidores, chegou a postar a imagem do seu círculo de relações criada pelo Chirpty. Na imagem, entre perfis diversos, aparecem contas de veículos de esquerda como o site Brasil 247 e a revista Carta Capital. A legenda “Aqui não tem fake news” foi acrescentada na postagem.

    Vale lembrar que nos casos de Bolsonaro e Lula há envolvimento de assessores na administração do perfil e conteúdo publicado, que direcionam as suas interações nas redes.

    Uso de dados

    Muitos usuários, por outro lado, têm escrito sobre dúvidas a respeito da coleta e uso desses dados de interações. “Toda a informação que está no Twitter é pública, à exceção das mensagens diretas”, afirmou ao Nexo Yasodara Córdova, especialista em tecnologias de internet da Kennedy School, na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos.

    “Sua foto, suas mensagens, a hora que você postou, quem respondeu, quem você segue e quem te segue, etc. O aplicativo [Chirpty] usa a API do Twitter para pegar essas informações que já são públicas e expor de uma maneira visual”, explicou a pesquisadora. “Ele não fere nenhum termo de uso do Twitter nem rouba nenhum dado que você não tenha previamente dado a permissão para que ele acesse”.

    Córdova lembra ainda que “depois que você faz o upload de qualquer coisa pra web é muito difícil voltar atrás. Esconder perfil, botar segredo em mensagem. Tudo isso é ‘antinatural’ pro jeito que a web funciona. A web é tipo a nossa praça pública, literalmente”.

    Há diversos episódios de uso e comercialização indevida de dados de clientes de redes sociais, o que gera desconfiança toda vez que surge um aplicativo ou jogo novo. Em 2018, o Facebook concedeu acesso a dados pessoais de seus usuários a diversas empresas, de modo mais amplo do que a rede social tinha autorização para fazer. A imensa coleta de dados realizada pela empresa Cambridge Analytica, que trabalhou para as campanhas de Donald Trump e do Brexit, em 2016, aconteceu por meio de um jogo de Facebook chamado thisisyourdigitallife (essa é a sua vida digital).

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