Como fica o prazer sexual quando o isolamento é regra

Na quarentena, vendas de vibradores e outros apetrechos explodiram, contato virtual ganhou mais adeptos e governos chegaram até a recomendar masturbação para evitar o coronavírus

    Dos muitos memes surgidos no Brasil durante a pandemia do novo coronavírus, o “solidão, né minha filha?”, vindo de uma fala do médico Dráuzio Varella, parece o mais onipresente.

    Suas múltiplas versões exprimem uma ampla gama de emoções de quem está em quarentena, incluindo, com frequência, o tesão. Nesse espírito, a “carentena”, junção das palavras carência e quarentena, também passou a fazer parte do léxico dos brasileiros na internet.

    As restrições de contato físico provocadas pela covid-19, acompanhadas dos impactos psicológicos da pandemia, têm afetado consideravelmente a vida sexual de parte da população.

    Um estudo que contou com a participação de 1.559 adultos, realizado pelo Instituto Kinsey da Universidade de Indiana, nos EUA, revelou que quase metade dos respondentes relataram um declínio na qualidade e na frequência de sua atividade sexual desde o início da pandemia.

    O aumento nas vendas de brinquedos sexuais, no consumo de pornografia e no número de usuários de aplicativos de relacionamento, no entanto, tem mostrado que quem viu sua vida sexual minguar durante a pandemia está se virando como pode.

    Em busca de alternativas

    Num período em que a regra é evitar o contato físico com quem não faz parte do seu convívio diário, o sexo casual se tornou inviável na pandemia – ou pelo menos cercado de riscos. Nem todos, claro, abriram mão dele. Uma reportagem publicada em maio pelo Tab Uol mostra que há pessoas furando o isolamento (somente) para fazer sexo, motéis funcionando e praticantes de modalidades sexuais em grupo, como o swing, marcando encontros secretos.

    Também já se discute se há formas de retomar a vida sexual de maneira segura com relação ao contágio pelo novo coronavírus – medidas como transar de máscara, não beijar e evitar o contato face a face estão entre as possibilidades sugeridas no debate.

    Algumas delas, como o uso da máscara durante o sexo, são recomendadas por pesquisadores da Escola de Medicina de Harvard, nos EUA. As técnicas de redução de risco indicadas por eles incluem também diminuir o número de parceiros, considerando relações com pessoas com quem não se está em quarentena, e tomar banho antes e depois da relação. Vale dizer, porém, que estudos sobre a possibilidade de transmissão sexual da covid-19 ainda são inconclusivos.

    Esse cenário também vem reforçando ou criando novas práticas e padrões de comportamento de quem busca formas de ter prazer sem contato físico com outras pessoas.

    Um quinto dos participantes da pesquisa da Universidade de Indiana afirmou ter incorporado novas práticas sexuais desde o início da pandemia, como o sexting (a troca de mensagens de conteúdo sexual). Os mais propensos a tentar novidades do tipo, segundo o estudo, foram os mais jovens, pessoas que moram sozinhas e quem relatou se sentir estressado ou solitário no período da covid-19.

    Desejo demais ou de menos

    Se as mudanças no comportamento sexual durante a quarentena incluem, por um lado, experimentação e adaptação, de outro, também têm sido influenciadas por uma diminuição da libido relatada por muitas pessoas. Frequentemente, alternam-se estados de maior desejo e desejo nenhum.

    “Temos relatos de diminuição da libido com queda da autoestima, irritação e desgaste pela convivência com a família no mesmo espaço, variações de humor, aumento do medo e da ansiedade”, disse a socióloga Lara Facioli, professora da Universidade Federal do Rio Grande ao portal G1. “Por outro lado, também há inúmeros relatos sobre aumento da masturbação, de consumo de pornografia e de exposição de si na rede”.

    Segundo a professora, essas diferenças variam de acordo com a experiência social e subjetiva da pandemia vivida por cada um.

    Para a sexóloga Ana Canosa, a libido nesse momento também depende da forma como se lida individualmente com o sexo. “Tem gente que está angustiada demais, que diz que nem se sente confortável com a ideia de ter prazer agora”, disse Canosa no podcast Sexoterapia, do Uol, o qual apresenta.

    Masturbação, brinquedos, sexo virtual

    Para garantir ao mesmo tempo, a segurança e a saúde sexual da população, departamentos de saúde em vários países lançaram cartilhas com recomendações para manutenção de práticas sexuais como sexo virtual e masturbação. Elas ajudam a liberar endorfina e combater o estresse do confinamento.

    Mulheres, que muitas vezes encontram mais obstáculos para atingir o orgasmo, têm descoberto na quarentena novas formas de sentir prazer, buscado novos estímulos e se masturbado com maior frequência.

    A procura por produtos eróticos também cresceu muito no período de pandemia. Em entrevista à CNN Brasil, a escritora e ex-presidente da Associação Brasileira das Empresas do Mercado Erótico e Sensual, Paula Aguiar, afirmou que mais de um milhão de vibradores já foram vendidos no Brasil na quarentena, com base em uma pesquisa feita por ela com 120 lojistas através do site Mercado Erótico.

    Não foi diferente com aplicativos de paquera. No Tinder, o dia 29 de março foi o de maior atividade já registrada na história do aplicativo. No Brasil, há mais conversas entre usuários que “dão match” e elas estão mais longas durante a pandemia. Alguns apps – que no geral limitam o contato entre usuários geograficamente – liberaram funções que permitem ver quem está mais distante e até em outros países.

    À BBC, o antropólogo Horácio Sívori, coordenador do Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, afirmou que essas práticas vão além da satisfação do desejo individual.

    “No meio da catástrofe, o flerte, o sexo online, o pornô, a própria troca de nudes, podem não ser apenas formas de entretenimento, de combater a solidão, mas também de cuidar uns dos outros como coletivo”, disse.

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