Os países mais letais para ambientalistas, segundo este relatório

Levantamento da ONG britânica Global Witness mostra que o número de mortes de defensores da causa ambiental aumentou ao redor do mundo entre 2018 e 2019

    Em 2019, 212 ambientalistas foram assassinados em todo o mundo. O número é recorde, superando com folga os 167 casos registrados de 2018. A contagem, realizada pela ONG britânica Global Witness desde 2012, está no relatório “Defendendo o amanhã”.

    São pessoas “na linha de frente da crise climática”, na descrição da entidade, eliminadas por se colocarem no caminho de interesses de invasores de terras, garimpeiros, madeireiros e indústrias poluidoras.

    A América Latina é a região com o maior número de ocorrências desse tipo de crime no mundo, totalizando cerca de dois terços do contabilizado pela organização. Dos crimes de 2019, 64 aconteceram apenas na Colômbia. O Brasil fica em terceiro lugar no ranking, com 24 mortes. Em segundo estão as Filipinas, com 43 assassinatos.

    na linha de frente

    ambientalistas mortos em 2019 no mundo

    Segundo o levantamento, as atividades mais ligadas a assassinatos de ambientalistas são mineração e extrativismo, agronegócio e corte de madeira. Um total de 71 mortes não foi conectada a nenhum setor específico.

    O relatório da ONG explica que os dados vêm de fontes disponíveis publicamente, desde organizações de atuação global como Anistia Internacional e Human Rights Watch, até entidades locais como a CPT (Comissão Pastoral da Terra), no Brasil, e organizações indígenas colombianas.

    Um panorama de 2019

    Na Colômbia, o número de mortes mais que dobrou em relação ao ano anterior, quando o país registrou 24 óbitos de ambientalistas. Das 64 mortes de 2019, 14 estavam relacionadas a processos de substituição de plantio de coca por cacau ou café, dentro de programas governamentais. Muitos dos que optam pela troca são ameaçados ou mortos por gangues ou milícias ligadas ao tráfico de drogas.

    Já nas Filipinas, o relatório da Global Witness relatou casos em que ambientalistas que lutam contra o desmatamento de áreas onde vivem comunidades indígenas são classificados como “terroristas” ou “comunistas” pelo exército e pelo governo do presidente Rodrigo Duterte. Há vários indícios de envolvimento de forças do governo ou paramilitares nas mortes de defensores do meio ambiente.

    O documento também destaca vitórias de ambientalistas em diversos países. É o caso do povo Waorani, na Amazônia equatoriana, que conseguiu cancelar na Justiça um leilão para a concessão de territórios para a exploração de petróleo e gás natural. Povos indígenas também conquistaram direitos no Camboja, Indonésia e Estados Unidos.

    De acordo com o documento, a pandemia do novo coronavírus intensificou os problemas enfrentados por defensores do meio ambiente. “Governos ao redor do mundo – incluindo EUA, Brasil, Colômbia e Filipinas – usaram a crise para fortalecer medidas draconianas de controle dos cidadãos e reverter regulamentações ambientais conquistadas a muito custo”, afirmou o texto.

    Quem são os ambientalistas

    Na definição da entidade, ambientalistas, ou “defensores”, são pessoas que se posicionam e realizam ações pacíficas contra a exploração de recursos naturais ou do meio ambiente feitas de modo “injusto, discriminatório, corrupto ou danoso”.

    Frequentemente, são apenas pessoas de uma comunidade que se encontra ameaçada por atividades econômicas predatórias, em muitos casos feitas de forma ilegal, como mineração e extração madeireira.

    Segundo a Global Witness, os números revelam que um número significativo das vítimas pertence a comunidades indígenas, “cujas habilidades de gerenciamento da terra e da água são cruciais no combate à crise climática e à perda de diversidade”.

    Outros ambientalistas incluem, segundo a ONG, advogados de direitos humanos ou meio ambiente, políticos, guardas florestais, jornalistas ou membros de campanhas ou organizações da sociedade civil.

    A situação no Brasil

    O Brasil também teve um aumento no número de mortes de ambientalistas, segundo a Global Witness. Foram quatro casos a mais em relação aos 20 reportados em 2018. Cerca de 90% dos assassinatos no Brasil ocorreram na região da Amazônia.

    Várias dessas ocorrências se relacionam a indígenas. Três mortes são da etnia Guajajara, do Maranhão, incluindo o assassinato de Paulo Paulino Guajajara por um grupo de cinco madeireiros em 1º de novembro de 2019, caso que ganhou repercussão nacional. Paulo e seu acompanhante, Laércio, eram Guardiães da Floresta, grupo criado pela comunidade Guajajara para proteger suas terras. Laércio também foi baleado, mas sobreviveu.

    “A matança é particularmente intensa em áreas onde terras de povos indígenas foram roubadas ou invadidas e eles lutam para tentar retomá-las”, afirmou ao Nexo Sarah Shenker, da área de campanhas da ONG britânica Survival International, dedicada aos povos indígenas. “Não surpreende que no Brasil de [Jair] Bolsonaro as coisas tenham ficado muito piores, com sua retórica racista e propostas de abrir as terras indígenas para o agronegócio e a mineração de larga escala.”

    O primeiro ano de governo de Jair Bolsonaro foi marcado pela flexibilização de regras de proteção ambiental, pelo enfraquecimento de órgãos de proteção como ICMBio e Ibama e pelo incentivo a atividades predatórias de garimpeiros e madeireiros. Frequentemente, o presidente declara que há um excesso de terras indígenas no país.

    Entre as outras vítimas da violência anti-ambiental no país em 2019 estão trabalhadores rurais, seringueiros, advogados e indigenistas da Funai (Fundação Nacional do Índio). Um dos ativistas ambientais mortos é Rosane Santiago Silveira, que tentava criar uma associação de preservação da ilha de Barra Velha, na Bahia. Apesar de ser uma reserva, havia um avanço de plantações de eucalipto na área. Silveira realizou três boletins de ocorrência relatando as ameaças que sofria. Ela foi torturada e morta em 29 de janeiro.

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