O estudo que mapeia como a covid entrou e se espalhou pelo Brasil

Artigo de pesquisadores brasileiros publicado na revista Science mostra predominância de três linhagens do novo coronavírus no país e aponta eficácia do isolamento para frear transmissão

    Quando a pandemia era ainda uma preocupação restrita a países do hemisfério norte, o novo coronavírus entrou ao menos cem vezes no Brasil, entre o final de fevereiro e o início de março, trazido principalmente por pessoas vindas da Europa. Antes das quarentenas e da restrição de circulação pelo país, três subtipos do vírus, com pequenas diferenças entre si, se espalharam rapidamente. Mas quando estados e municípios começaram a fechar escolas e o comércio devido à adoção de políticas de isolamento social a partir de meados de março, sua taxa de transmissão caiu pela metade.

    Essa dinâmica de propagação da doença e os efeitos das medidas adotadas pelos governos locais foram identificados pelo maior mapeamento genético do novo coronavírus feito na América Latina. Trata-se de um esforço de 81 pesquisadores, a maioria deles brasileiros, de 15 instituições nacionais, como parte de um projeto conduzido pela Universidade de Oxford, no Reino Unido. Os achados foram publicados em 23 de julho na revista acadêmica Science.

    Para chegar aos resultados, os pesquisadores sequenciaram o genoma do Sars-CoV-2 (o vírus que causa a covid-19) em circulação no Brasil. Essa parte do trabalho foi feita pela USP, UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). As amostras foram coletadas entre 5 de março e 30 de abril.

    427

    genomas do novo coronavírus foram sequenciados a partir de amostras coletadas em 85 municípios de 21 estados brasileiros

    Depois, os cientistas cruzaram dados dos genomas com informações epidemiológicas e de mobilidade das pessoas. A pandemia foi declarada pela OMS (Organização Mundial de Saúde) em 11 de março. As primeiras ações de fechamento de escolas e do comércio no Brasil começaram nos dois dias seguintes. Em São Paulo, estado que foi um dos primeiros a receber o vírus e que ainda lidera em número de casos de infecção e morte, o fechamento das escolas aconteceu em 16 de março, e do comércio, quatro dias depois.

    Os pesquisadores concluíram que o isolamento foi eficaz em reduzir a propagação do vírus, mas alertam que a transmissão ainda está descontrolada no país e que é preciso ampliar as medidas já preconizadas pela OMS: identificação, testagem, tratamento e isolamento de doentes, além de rastreamento de contatos seguido de quarentenas. Essas estratégias nunca foram colocadas efetivamente em prática no Brasil.

    O país é o segundo com mais casos e mortes da doença no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Na terça-feira (28), a tendência ainda era de alta nas infecções, e o Brasil registrava mais de mil mortes diárias, em média, o que vem ocorrendo desde junho.

    “Este estudo joga luz sobre a transmissão epidêmica e as trajetórias evolutivas das linhagens de Sars-CoV-2 no Brasil e fornece evidência de que as intervenções atuais continuam insuficientes para manter a transmissão do vírus sob controle no país”

    Autores do estudo

    em publicação na revista Science, em 23 de julho

    2.483.191

    era o número de casos registrados de covid-19 no Brasil até a terça-feira (28), segundo o Ministério da Saúde

    88.539

    mortes pela doença foram registradas no país até a mesma data, de acordo com o órgão

    Os resultados do estudo

    A dinâmica da doença

    Com base no sequenciamento genético, os pesquisadores concluíram que o vírus entrou no país mais de cem vezes entre o final de fevereiro e o início de março. Essa introdução da doença no Brasil ocorreu por meio de pessoas vindas em grande parte da Europa e que chegaram em voos internacionais por São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Ceará. Do final de fevereiro até 20 de março, a maior parte da disseminação se deu dentro desses estados. A partir de então, houve uma segunda etapa de circulação do vírus saindo de estados do Sudeste em direção a outras regiões do país. Pode ter contribuído para isso o fato de o Brasil ter suspendido inicialmente apenas voos internacionais, demorando para limitar as rotas nacionais.

    As 3 linhagens

    Os cientistas também identificaram um predomínio de apenas três linhagens — chamadas de “clados” — do novo coronavírus introduzido no Brasil. Elas foram responsáveis por contaminar 76% das amostras analisadas. A diferença entre os subtipos é pouca, o que significa que o grau de mutação do vírus é baixo. Essa informação é relevante porque pode facilitar e acelerar a produção de vacinas, que podem ter boa resposta quando aplicadas em toda a população. Duas dessas linhagens entraram pelo Sudeste: a primeira, mais numerosa, chegou em 28 de fevereiro e se concentrou em São Paulo. A segunda entrou pelo Rio de Janeiro, possivelmente alguns dias antes, em 22 de fevereiro, e se disseminou pelo resto do país. A terceira foi introduzida pelo Ceará, em 11 de março, e se disseminou pelo estado do Nordeste.

    Efeito do isolamento

    Segundo o estudo, quando o país começou a adotar medidas de isolamento e distanciamento social, o vírus já havia se espalhado pelo Brasil. Mas essas restrições serviram para reduzir a taxa de reprodução do vírus. Inicialmente, o índice de contágio era de 3 em São Paulo e no Rio de Janeiro. Isso significa que cada 100 pessoas transmitem o vírus para outras 300, essas 300 passavam para 900 e assim progressivamente. Com as quarentenas, a taxa caiu para algo entre 1,0 e 1,6 (cada 100 infectados transmitem inicialmente para outros 100 e 160, respectivamente). Índices maiores do que 1 significam que a transmissão ainda está fora de controle. Segundo cálculos do centro de controle de epidemias do Imperial College, de Londres, a taxa no Brasil na semana iniciada em 26 de julho era de 1,08. O país completou 14 semanas sem conseguir controlar a doença.

    Vidas salvas

    Outro estudo publicado por pesquisadores da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro mostrou que o isolamento social, mesmo com índices abaixo dos 50%, foi responsável por salvar vidas e impedir uma contaminação maior da população no país.

    Apenas no mês de maio, segundo a estimativa feita com base em modelos matemáticos, as quarentenas pouparam no país 118 mil vidas e evitaram 9,8 milhões de infectados.

    A conclusão dos pesquisadores é que a cada 1% na taxa de isolamento calculada por meio de dados de aparelhos celular, a transmissão do vírus pode apresentar uma queda de 37% no número de novos contaminados.

    Os governos, porém, têm colocado em prática planos de flexibilização dos isolamentos. Na segunda-feira (27), o governador de São Paulo, João Doria, divulgou novas regras do plano de reabertura para facilitar a progressão de regiões para as fases mais brandas.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.