Bolhas e protocolos: as estratégias para a volta dos esportes

Em diversos países, modalidades retomam competições com diferentes propostas para tentar impedir o contágio pelo novo coronavírus

    Em 16 de maio de 2020, o campeonato alemão de futebol voltou depois de dois meses parado. Foi o primeiro torneio entre os maiores da modalidade a retornar após a pausa em meio à pandemia do novo coronavírus. Com testagem frequente das equipes, protocolos sanitários para os jogadores e higienização dos ambientes de trabalho, o torneio foi exemplo para outras ligas e mostrou que era possível praticar esportes competitivos em alto nível mesmo em uma pandemia.

    Dois meses e meio depois, o campeonato alemão já chegou ao fim – o Bayern de Munique foi campeão pela oitava vez consecutiva em 16 de junho. Outros torneios esportivos profissionais também voltaram ou preparam seus retornos.

    Um fator comum às principais ligas do mundo no retorno é a ausência de torcedores. A possibilidade de aglomerar pessoas nas arquibancadas é rejeitada para evitar o contágio pelo novo coronavírus. Algumas equipes estão imprimindo imagens de papelão com fotos de seus torcedores para ocuparem as cadeiras dos estádios ou ginásios. Em outros casos, torcidas virtuais estão sendo inseridas nas transmissões de televisão, criando um ambiente semelhante ao de videogames de esporte.

    Nos diferentes lugares e modalidades, divergiram as estratégias para manter as competições e minimizar o risco de contágios entre atletas. Abaixo, o Nexo mostra algumas das abordagens feitas e os resultados alcançados.

    O uso de ‘bolhas’ nos EUA

    Nos Estados Unidos, uma das estratégias usadas por ligas profissionais é a da bolha. A ideia é manter todos os atletas e funcionários em uma mesma cidade sede, isolados em hotéis, sendo testados frequentemente. Isso reduziria o risco de contágio dos jogadores e possibilitaria a retomada de esportes de contato. Atletas com condições pré-existentes ou que não querem se expor aos riscos do contágio foram permitidos a optar por não jogar, conforme acordado com as respectivas ligas.

    A estratégia da bolha foi adotada pela NBA e pela WNBA, as ligas americanas de basquete masculina e feminina, respectivamente. Ambas optaram pela criação de bolhas em cidades da Flórida, estado que enfrenta número alto de casos de covid-19, com mais de 70 mil novas infecções por semana.

    A MLS e a NWSL, ligas masculina e feminina de futebol dos EUA, respectivamente, também criaram bolhas. O torneio masculino acontece na Flórida, enquanto o feminino ocorre no estado de Utah.

    A liga norte-americana de hóquei no gelo, a NHL, também começou a montar sua bolha no final de julho. As cidades escolhidas foram Toronto e Edmonton, ambas no Canadá. A liga é composta de times americanos e canadenses.

    No geral, os resultados das bolhas têm sido positivos. O número de diagnósticos positivos para o vírus foi zerado em boa parte das ligas, e jogos – oficiais ou amistosos preparativos – foram retomados com sucesso.

    A exceção foi o surto de coronavírus que atingiu o Orlando Pride – equipe de futebol feminino onde jogam a brasileira Marta e a americana Alex Morgan – antes do time entrar na bolha em Utah. Por conta do surto, a equipe anunciou que não disputaria o torneio, e nem chegou a viajar ao local.

    Os campeonatos de futebol em sede única

    No futebol, a Champions League – principal competição continental europeia – planeja volta no mesmo formato. Por mais que a Uefa (entidade máxima do futebol europeu) não use explicitamente o termo “bolha”, o torneio deve retornar em agosto em sede única a partir das quartas de final. Alguns jogos das oitavas de final ainda precisam ser feitos antes disso, e ocorrerão nas cidades sedes dos times mandantes.

    A partir das quartas de final, todas as partidas ocorrerão em Lisboa, capital portuguesa. O protocolo envolve manter os jogadores isolados em hotéis, saindo apenas para treinar. Cada time terá um estádio à disposição para os treinos. Os jogos dessa fase começam em 12 de agosto e a final está marcada para o dia 23 do mesmo mês.

    No Brasil, a Copa do Nordeste, torneio regional, também retomou as atividades limitando os locais de jogos. As partidas ocorrem todas em Salvador, na Bahia, ou em cidades próximas, como Feira de Santana e Riachão do Jacuípe. Todas as equipes estão hospedadas em Salvador.

    Os jogadores são testados antes dos jogos e deverão seguir protocolos sanitários dentro de campo. A maioria dos jogos da competição foram realizados nos dez últimos dias de julho. A final em dois jogos está marcada para os primeiros dias de agosto.

    Os protocolos sem bolha

    No futebol, alguns torneios voltaram sem limitações em viagens para jogos – apenas com testagem frequente e protocolos sanitários. Nos campeonatos alemão e inglês, já encerrados houve baixo número de casos registrados. Outros torneios, como o campeonato italiano e o espanhol, seguiram a mesma estratégia, baseada na testagem constante dos atletas.

    No Brasil, os principais campeonatos estaduais também foram retomados com estratégias semelhantes. No entanto, o estágio da pandemia no Brasil – um dos países com mais casos e mortes pela doença no mundo – e a escassez de recursos para realizar testes frequentes dificultam o cumprimento dos protocolos de segurança das competições.

    O primeiro a voltar foi o Carioca, em meados de junho. Ao longo das semanas em que houve jogos, houve diversos casos de coronavírus registrados dentro das equipes. Em um dos episódios, três jogadores do Volta Redonda foram diagnosticados com o novo coronavírus em 28 de junho, na manhã do jogo contra o Fluminense, após uma semana normal de treinos. Os jogadores foram isolados e o jogo foi mantido – a partida ocorreu normalmente. Houve também outros casos de diagnósticos dentro dos times que resultaram em afastamento apenas dos atletas identificados com a doença, sem que outros jogadores que tiveram contato com eles fossem isolados. O torneio acabou em 15 de julho, com título do Flamengo.

    Casos semelhantes de testes positivos dentro de elencos ocorreram nos campeonatos de outros estados, como Minas Gerais, Rio Grande do Sul e São Paulo. Essas competições estão em andamento no final de julho, e seguem a mesma estratégia de confiar em protocolos, com os times viajando entre cidades para as partidas.

    Os surtos registrados

    Dentro da estratégia de não montar bolhas, houve casos mal sucedidos. No Brasil, o Campeonato Catarinense – um dos primeiros a voltar aos gramados – teve de ser interrompido apenas uma rodada após o retorno em julho. O surto atingiu principalmente a equipe da Chapecoense, que registrou 14 casos entre elenco e comissão técnica. Joinville, Criciúma e Figueirense também tiveram testes positivos. A decisão de suspender o torneio por 14 dias foi feita em uma reunião conjunta entre a Secretaria Estadual de Saúde de Santa Catarina e a Federação Catarinense de Futebol.

    Nos EUA, o beisebol também se preparou para voltar sem bolha, confiando nos protocolos sanitários. Os jogos oficiais da MLB – a liga americana de beisebol – retornaram em 23 de julho, após uma série de partidas amistosas preparativas.

    Apenas quatro dias depois do começo da competição, foi registrado o primeiro surto de coronavírus dentro de uma equipe. Os Miami Marlins, da Flórida, registraram 14 casos positivos entre elenco e comissão técnica. O time teve seus próximos jogos suspensos e ficou isolado na Filadélfia, onde jogou suas primeiras partidas da temporada. Jogos dos Phillies, adversários anteriores dos Marlins, também foram adiados.

    O beisebol é um esporte onde há relativamente pouco contato físico, mas a temporada com muitos jogos significa que há viagens e deslocamentos de grandes grupos. Estão previstos 60 jogos por time em 2020 antes da fase mata-mata. O primeiro surto colocou em xeque o restante da temporada. Por ora, as outras partidas acontecem normalmente, mas existe a possibilidade de alteração dos planos da liga para a temporada.

    Nos EUA, o futebol americano também planeja voltar sem bolha. Os protocolos ainda estão sendo finalizados entre a NFL (liga de futebol americano) e o sindicato dos jogadores, mas a ideia é manter o cronograma original, com a temporada começando em setembro. Alguns atletas já anunciaram que não participarão da temporada.

    Enquanto isso, o surto no beisebol levantou preocupações sobre a capacidade da NFL de organizar jogos de forma segura. Apesar da quantidade menor de partidas, o futebol americano é um esporte com mais contato e times maiores que o beisebol. Os EUA são o país com mais casos diários e mortes registradas por covid-19 no mundo. Mais de 400 mil casos de coronavírus estão sendo confirmados a cada sete dias.

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