Como o rap do Public Enemy embala os protestos nos EUA

O ‘Nexo’ falou com Chuck D, líder do grupo, sobre a força da música para a transformação e as ondas de manifestações antirracistas que ainda se alastram pelas cidades americanas  

    Pioneiro do rap político, o grupo Public Enemy voltou a ficar em evidência com os protestos contra o racismo e a violência policial nos Estados Unidos em 2020. A música “Fight the Power” (lute contra o poder, em tradução livre) sonorizou muitas das manifestações que tomaram conta de dezenas de cidades americanas a partir de maio.

    Para Chuck D, líder do Public Enemy, “em todo o mundo, jovens adultos estão entendendo que estão juntos, unidos de várias maneiras”. “Eles veem que seus governos precisam ser mais responsáveis na redução da desigualdade”, disse, em entrevista ao Nexo. De acordo com o rapper, o movimento Black Lives Matter, que lidera as manifestações, “está apenas pedindo para que tenhamos o mesmo tratamento” e é uma resposta contra as “atrocidades sofridas por aqueles que têm pele mais escura”.

    Em 7 de julho, uma nova versão de “Fight the Power” foi gravada para a premiação do canal BET (Black Entertainment Television), que destaca afro-americanos na cultura e nos esportes. Com imagens dos protestos de 2020 no clipe, a música teve a letra atualizada com os nomes de George Floyd, Breonna Taylor e Rayshard Brooks, cidadãos negros mortos pela polícia americana no mesmo ano.

    No Spotify, “Fight the Power” está entre os clássicos políticos da música negra que despertaram interesse de usuários. Vários foram incluídos na playlist “Black Lives Matter”, compilada pela plataforma e que se aproxima dos 900 mil seguidores.

    “É um momento muito único e acho que [a música] é uma forma de arte que tem a capacidade de falar com questões maduras”, afirmou Chuck D ao Nexo.

    Em 19 de junho, o grupo lançou uma faixa nova, “State of the Union (STFU)”. O título faz referência ao discurso sobre o estado da União que presidentes americanos fazem anualmente. Na música do Public Enemy, o governo do presidente Donald Trump é comparado à Alemanha nazista. O nome do governante não é citado diretamente, mas a letra diz que é preciso “votar para tirar essa piada” do poder.

    Se uma postura militante, como a do Public Enemy, era menos comum no pop negro americano da década de 1990, os anos 2010 foram marcados por abordagens politizadas e de exaltação da negritude entre alguns dos artistas mais consagrados dos EUA. Em 2020, por exemplo, a música “Black Parade”, da cantora Beyoncé, homenageia sua ancestralidade africana e diz que “eles vão precisar de um exército/balas de borracha ricocheteando em mim”.

    O rapper reconhece a influência de seu grupo no processo de politização da música mainstream americana. “Tem um pouco de Public Enemy em muito do que está aí”.

    As origens do grupo

    O Public Enemy surgiu no fim dos anos 1980 com uma postura agressiva e de confronto. Visualmente, havia referências ao grupo militante Panteras Negras. O discurso exaltava o nacionalista negro muçulmano Malcolm X. Na capa do primeiro álbum, “Yo Bum Rush the Show”, Chuck D aparece com uma vestimenta islâmica típica.

    Além das palavras e imagens fortes, o Public Enemy chamou a atenção por seu uso criativo de samples. As faixas costuram retalhos de ritmos de James Brown, falas de discursos políticos e citações fugazes de músicas dos anos 1960 e 1970.

    O uso do rap como uma ferramenta para veicular ideias de contestação e expressão política negra ainda não era comum na época. Ao Nexo, Chuck D atribui esse olhar do grupo ao fato de “sermos um pouco mais velhos. A gente tinha vindo da década de 1960 e, junto com nossas viagens pelo mundo, foi de onde tiramos muito da nossa inspiração”.

    “Fight the Power” foi lançada em 1989. O diretor Spike Lee a incluiu como a música-tema de seu filme “Faça a Coisa Certa”, do mesmo ano. O Public Enemy depois regravou a faixa para seu terceiro álbum, “Fear of a Black Planet”.

    A primeira e a segunda onda de protestos

    A onda de protestos contra o racismo e a violência policial nos Estados Unidos foi deflagrada com a morte do negro George Floyd por um policial branco, em Minneapolis, em 25 de maio. O agente ajoelhou sobre o pescoço de Floyd até que ele ficou sem ar. “Não consigo respirar” foram as últimas palavras de Floyd, transformadas depois em slogan dos protestos.

    As demonstrações se espalharam por centenas de cidades dos Estados Unidos, marcando a volta às ruas do movimento Black Lives Matter, criado em 2015. Cidadãos ocuparam praças, avenidas e espaços públicos, muitas vezes acampando por dias. A maior parte dos atos transcorreu de forma pacífica, mas também foram registrados quebra-quebras, incêndios e situações de violência. Houve repressão policial dura em algumas cidades e brigas entre manifestantes e militantes de direita.

    A movimentação fomentou discussões sobre reforma da polícia, inicialmente em assembleias populares, mas depois também em câmaras municipais e assembleias estaduais. O presidente Donald Trump, em geral, condenou os manifestantes, classificando-os de “vândalos” e “terroristas”. O discurso linha dura não teve o efeito desejado e a desaprovação ao governante aumentou.

    Em Seattle, maior município do estado de Washington, uma “zona autônoma” foi criada no início de junho pelos manifestantes, abrangendo alguns quarteirões do centro da cidade. Em clima de comunidade alternativa, aconteceram discussões políticas, distribuição de comida e atividades culturais. Com o tempo, o clima se deteriorou, especialmente à noite. Após registros de incidentes com tiros, a polícia dissolveu a ocupação em 1 de julho.

    Em meados de junho, a maior parte das manifestações já tinha definhado. Algumas cidades, no entanto, seguiram com focos de protestos constantes e outras registraram a volta de manifestantes nas ruas em julho.

    Em Portland, no estado de Oregon, os protestos começaram em 29 de maio e nunca terminaram. Em 17 de julho, forças de segurança federais chegaram à cidade sob ordem do presidente Donald Trump, com a justificativa de que prédios federais estavam sendo atacados. O envio de tropas foi condenado pelo prefeito de Portland, Ted Wheeler, e pela governadora de Oregon, Kate Brown, ambos do Partido Democrata, de oposição a Trump.

    As tropas federais aumentaram a tensão e engrossaram os protestos. O prefeito Wheeler chegou a se juntar às manifestações e foi atingido por gás lacrimogêneo. Entre sexta-feira (24) e domingo (26), ocorreram choques envolvendo manifestantes, a polícia local e os agentes federais. A imprensa americana publicou vídeos e relatos de ações violentas das forças enviadas por Trump.

    Ao longo do mesmo fim de semana, protestos e confrontos foram registrados também em Oakland, Los Angeles (ambas na Califórnia), Louisville (Kentucky), Austin (Texas) e Aurora (Colorado).

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante?

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: