Por que os super-ricos ficaram ainda mais ricos na crise

Levantamento da ONG Oxfam mostra aumento no patrimônio de bilionários da América Latina em meio à pandemia. O ‘Nexo’ conversou com um economista para entender as razões da alta nas fortunas

Períodos de crise geralmente significam aperto para o bolso das famílias. Seja por desemprego, queda no rendimento de investimentos ou reduções de salários, turbulências na economia levam à diminuição na renda para muitos.

Para indivíduos muito ricos, no entanto, não é essa a realidade em meio à crise causada pela pandemia do novo coronavírus. Segundo um relatório da ONG (Organização não governamental) Oxfam publicado na segunda-feira (27), os bilionários do Brasil e da América Latina ficaram consideravelmente mais ricos no período. O relatório se baseou em dados da revista Forbes, coletados entre 18 de março e 12 de julho de 2020.

De acordo com a Oxfam, oito novos bilionários surgiram na América Latina e no Caribe entre março e julho. A fortuna dos super-ricos da região cresceu 17% nesses quatro meses – US$ 48,2 bilhões, ou pouco mais de R$ 250 bilhões, pela cotação de 27 de julho.

No Brasil, o conjunto da riqueza dos 42 bilionários brasileiros aumentou 27,6% no período considerado pelo relatório da Oxfam – acima da média da América Latina. A fortuna total pulou de US$ 123,1 bilhões para US$ 157,1 bilhões. Segundo a Forbes, os três brasileiros mais ricos em 2020 são o banqueiro Joseph Safra, o empresário Jorge Paulo Lemann (sócio de Ambev, Burger King e Kraft Heinz) e Eduardo Saverin, cofundador do Facebook.

US$ 34 bilhões

foi o aumento do patrimônio dos bilionários brasileiros durante a pandemia. Isso equivale a pouco mais de R$ 177 bilhões

Quando se fala em riqueza, não se fala necessariamente de dinheiro no banco. A conta leva em consideração todos os ativos que fazem parte do patrimônio dessas pessoas: dinheiro, participação em empresas de capital fechado, imóveis e, principalmente, ações de empresas de capital aberto, listadas em bolsas de valores, e que passaram por forte oscilação desde o início da pandemia.

Os dados no exterior

O cenário no exterior é similar ao que ocorre no Brasil e na América Latina. Um levantamento do think tank Institute for Policy Studies mostrou que os bilionários dos EUA aumentaram sua fortuna conjunta em US$ 755 bilhões entre 18 de março e 23 de julho. Assim como o relatório da Oxfam, o estudo teve como base os dados da Forbes.

Esse aumento representa um crescimento de 25,6% das fortunas dos super-ricos americanos. Tudo isso em um período em que mais de 50 milhões de americanos entraram com pedidos para receber seguro-desemprego do governo dos EUA.

Outro estudo conduzido pelo banco suíço UBS e divulgado pelo jornal britânico The Guardian mostrou resultados parecidos. O relatório acompanhou os investimentos de 121 famílias bilionárias desde o início da pandemia, e mostrou que 77% delas tiveram ganhos iguais ou superiores aos projetados antes da pandemia. Isso significa, basicamente, que mais de três quartos das famílias bilionárias viram sua fortuna crescer em um momento de forte crise econômica e enorme volatilidade dos mercados financeiros.

Os exemplos de Bezos e Musk

Entre os maiores bilionários do mundo, um deles tem chamado a atenção na pandemia. Jeff Bezos, fundador e CEO da Amazon, viu seu patrimônio crescer em US$ 13 bilhões em um único dia, em 20 de julho de 2020. As três sessões seguintes foram de queda, mas não suficientes para anular os ganhos de 20 de julho.

Bezos, que é o homem mais rico do mundo, tem nas ações da Amazon a principal parcela de sua fortuna. Entre 1° de janeiro e 24 de julho, as ações da Amazon na bolsa de Nova York tiveram alta de 62,8%. Nesse mesmo período, a gigante da internet lidou com denúncias trabalhistas e acusações de práticas de concentração de mercado.

Outro bilionário que esteve no centro das atenções desde o início da pandemia é Elon Musk, CEO da Tesla e da SpaceX, empresas de automóveis e exploração espacial, respectivamente. Além do comportamento marcado por desprezo aos perigos do coronavírus e compartilhamento de fake news, Musk também se destacou por obter ganhos consideráveis na sua riqueza na pandemia.

As ações da Tesla tiveram um momento de forte valorização no início de julho, levando Musk a entrar no top 10 da lista dos mais ricos do mundo da Forbes. Em 10 de julho, quando as ações da Tesla subiram 10,8% em apenas um dia, seu patrimônio se valorizou em mais de US$ 6 bilhões.

A taxação de grandes fortunas

O relatório da Oxfam sobre os bilionários brasileiros e latino-americanos termina com um pedido para que os super-ricos paguem mais impostos. O estudo sugere que a riqueza dos bilionários seja tributada de forma extraordinária, e que seja feita uma reforma do sistema tributário para torná-lo mais progressivo – ou seja, para que os ricos paguem proporcionalmente mais impostos do que pagam agora.

A primeira parte da reforma tributária apresentada em 21 de julho pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, não trata da tributação da riqueza, e sim de mudanças no recolhimento de tributos sobre o consumo. As próximas fases também não preveem taxar as grandes fortunas. No dia seguinte à entrega do projeto ao Congresso Nacional, Guilherme Afif Domingos, assessor especial de Guedes, disse ao portal UOL que um tributo sobre grandes fortunas não é eficaz.

Em meados de julho, um grupo formado por 83 membros da chamada classe super-rica assinou uma carta pedindo a governos que sejam taxados. O grupo, chamado “Milionários pela Humanidade”, exigiu impostos mais altos aos mais ricos para ajudar a cobrir os custos das políticas públicas voltadas ao combate ao coronavírus e à recuperação econômica da pandemia. Assinam a carta nomes como Abigail Disney, herdeira do império Disney, e Jerry Greenfield, fundador da marca de sorvetes Ben and Jerry’s. Nenhum brasileiro assinou o documento.

Uma análise sobre os super-ricos na crise

O Nexo conversou com o professor Henrique Castro, da Escola de Economia de São Paulo da FGV (Fundação Getulio Vargas), para entender esse aumento do patrimônio dos super-ricos na crise.

Por que os super-ricos estão ficando ainda mais ricos nesta crise?

Henrique Castro O levantamento feito pela Oxfam faz uma análise do ranking da Forbes a partir da data de 18 de março de 2020 e compara com relação a julho. Se a gente for lembrar o que estava acontecendo em março aqui no Brasil e em vários outros países, as bolsas de valores estavam na parte mais baixa desse período. Se não no menor ponto, estavam muito próximas desse vale. Aqui no Brasil, 18 de março é alguns poucos dias antes do nosso pior momento da bolsa no ano. Então acho até injusto fazer essa comparação e dizer que os bilionários ficaram mais ricos de 18 de março para cá. Se a gente pegasse o ranking a partir de um mês antes, você encontraria um resultado diferente.

Dito isso, enquanto a população em geral perdeu renda durante a pandemia ou teve dificuldades em manter seu nível de trabalho e de renda, os super-ricos não dependem de salário, mas de fazer render sua riqueza. Por mais que tenha sido afetado pela pandemia, seu padrão de riqueza ainda permite que essas pessoas possam aproveitar as boas oportunidades que cenários com elevação de risco podem proporcionar. Investidores profissionais tendem a aproveitar momentos certos para entrar e sair de investimentos. Investidores não profissionais costumam fazer movimentos atrasados.

Essas pessoas super-ricas têm muita relação com o mercado de ações. E o mercado de ações desse período [meados de março] para cá [final de julho] cresceu – no Brasil e em vários outros lugares do mundo. Nesse período, boa parte das empresas que conseguiram aumentar valor são aquelas que estão ligadas a comércio eletrônico e a mídias sociais.

Se você tomar o caso do Brasil, ainda não recuperamos o nível da bolsa do começo do ano. Nos EUA, esse número já está muito próximo. A China já tem uma recuperação; há muitos meses eles já voltaram para o positivo. Então a recuperação da economia lá está sendo mais rápida do que a nossa. No próprio ranking da Forbes, é fácil identificar que depois dos EUA, são os chineses que têm maior quantidade de bilionários.

Esse movimento é regra para momentos de crise? Ou é algo novo?

Henrique Castro Acho que é específico desta crise, porque ela não nasceu de um problema de dentro do mercado de ações. Você tem um fator externo que, na medida que vai sendo controlado – ou ignorado –, as coisas começam a voltar ao normal.

Esta crise não é uma crise como a crise de 2008, por exemplo, ou algumas outras crises que tivemos na história que são originárias do mercado de capitais. Esta crise vem de um elemento externo. É uma questão de saúde que afetou a forma como as pessoas ganham dinheiro, tanto as empresas como as pessoas. Ela afetou o mercado de trabalho, a circulação de pessoas.

Na medida em que essa pandemia vai sendo controlada (o que ainda não é o caso) ou que as pessoas de alguma forma desistem da severidade do isolamento, o mercado volta a funcionar de uma forma próxima à de antes; a recuperação econômica aparece. Isso dá expectativa de crescimento ou de recuperação para a economia. No mercado de ações, o valor das coisas é [determinado] sempre com base em expectativas sobre o futuro. Se você tem expectativa de que as coisas vão melhorar, os preços começam a subir por antecipação.

Como enxerga a discussão sobre a tributação das grandes riquezas?

Henrique Castro Há vários estudos que ligam a desigualdade à carga tributária que os super-ricos pagam em relação à carga tributária que o restante da população paga, incluindo classe média e os mais pobres. Tem uma frase do Warren Buffett [investidor bilionário, uma das dez pessoas mais ricas do mundo] que diz “eu pago menos imposto do que minha secretária”, proporcionalmente. É a verdade.

Já havia grande desigualdade antes da pandemia. Diversos estudos já apontavam crescimento de desigualdade. A pandemia aumentou o problema. A solução passa por pensar sistemas de forma a minimizar esse problema. Tributação é um caminho. Estamos num momento de pensar uma reforma nessa área. Esse deveria ser um tema sendo debatido. Mas por enquanto as propostas não atacam essa grave injustiça.

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