O que caracteriza uma 2ª onda de covid-19. E qual o quadro no Brasil

Fiocruz alerta que internações por doenças respiratórias voltaram a crescer em quatro estados onde havia queda. Para especialistas, no entanto, infecção nunca chegou a ser controlada 

    Dados de um boletim da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) apontam que ao menos quatro estados brasileiros que vinham apresentando queda nas internações por síndrome respiratória aguda grave voltaram a registrar aumentos de novos casos no período, o que poderia indicar a formação de uma segunda onda de infecção pelo novo coronavírus nessas regiões.

    Os estados onde essa tendência de alta foi observada são Amapá, Maranhão, Ceará e Rio de Janeiro. Em Alagoas, o número também voltou a crescer, mas ao contrário dos outros quatro estados, não havia ali um processo anterior de queda. O aparecimento de uma segunda onda, porém, não é consenso entre especialistas em saúde.

    Ondas de infecção se formam, inicialmente, a partir de um rápido crescimento de casos de uma doença. Os números chegam a um ponto máximo, chamado de pico, e em seguida caem lentamente. Não existe, porém, uma definição precisa sobre quando uma onda começa e termina.

    Epidemiologistas e autoridades em saúde concordam, porém, que para uma segunda onda se formar, é preciso que a primeira seja controlada. A transmissão cairia a níveis muito baixos, possibilitando a retomada da economia com os cuidados sanitários necessários. Isso representaria o final dessa primeira onda.

    Depois, para que se forme a segunda onda, o vírus reapareceria aumentando o número de casos de infecção, internação e mortes – em razão de erros no controle da infecção. Para muitos especialistas, os aumentos atuais são uma continuação da primeira onda, que nunca foi controlada no Brasil.

    O que diz o boletim da Fiocruz

    Desde junho, as mortes por covid-19 no Brasil estacionaram num patamar considerado muito alto, com mais de mil mortes por dia, em média. O número de casos acompanhou essa tendência de estabilização a partir do início de julho. Mas, por ser um país de dimensões continentais, o Brasil apresenta várias pandemias numa só.

    Com base na média de mortes dos últimos sete dias em comparação com as duas semanas anteriores, cálculo usado por epidemiologistas para acompanhar a evolução da doença, ao menos seis estados, principalmente no Nordeste, apresentavam tendência de queda nas mortes até a quinta-feira (23). Outros 12 estavam em alta, com destaque para as regiões Sul e Centro-Oeste, e nove aparentavam estabilidade, como São Paulo e Rio de Janeiro. Essa classificação, porém, varia diariamente.

    2.287.475

    casos de infecção pelo novo coronavírus foram registrados no Brasil até a quinta-feira (23), segundo o Ministério da Saúde

    84.082

    mortes por covid-19 tinham sido notificadas até a mesma data, de acordo com o órgão

    O boletim da Fiocruz apontou a tendência de uma segunda onda analisando outros dados: os de internação por síndrome respiratória aguda grave, conhecida pela sigla SRAG. O acompanhamento é feito pelo sistema InfoGripe, que monitora as notificações dessas internações em todo o Brasil a partir de um sistema da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde.

    São classificados como SRAG os pacientes que apresentaram sintomas de febre, tosse ou dor de garganta associados a falta de ar, baixa saturação de oxigênio no sangue ou dificuldade de respirar.

    Nem todo caso de SRAG é causado pela covid-19. Podem ser fruto da influenza A ou B, por exemplo. Mas em 2020 eles estão fortemente associados ao novo coronavírus devido à pandemia. Ao site da Fiocruz, o coordenador do InfoGripe, Marcelo Gomes, disse que 96,7% dos casos e 99,1% das mortes por SRAG neste ano acusaram resultado positivo para a covid-19 após passarem por exames.

    As internações por síndrome respiratória aguda grave podem, portanto, ser um bom indicador da pandemia devido à baixa capacidade de testagem do país para os casos do novo coronavírus. Uma pesquisa da Ufpel (Universidade Federal de Pelotas) indicou, em maio, que o Brasil poderia ter até sete vezes mais infectados do que o registrado oficialmente pelas secretarias estaduais de Saúde.

    Coordenador do InfoGripe, Marcelo Gomes afirmou ao jornal O Estado de S. Paulo na quinta-feira (23) que as internações por SRAG atingiram um pico entre 3 e 9 de maio, com uma média dos últimos sete dias de 20.516 casos. A partir de então, começaram a cair. Os estados teriam também alcançado um ponto máximo de internação no mesmo período. Em julho, no entanto, segundo o boletim mais recente, que cobre a semana de 12 a 18, quatro estados aparentaram ter interrompido essa queda e voltaram a ter aumento nas internações.

    Os questionamentos à segunda onda

    A discussão sobre o aparecimento de uma possível segunda onda já ocorreu em outros países, como os Estados Unidos, que teriam chegado a um pico de mortes em abril. Desde então, houve uma queda lenta nos números da doença, mas ela foi revertida no início de julho. No Irã, esse fenômeno também ocorreu: queda lenta nas mortes desde abril, com novo aumento sustentado desde maio. Nos dois países, o número de mortes diárias continuava em alta até a quinta-feira (23).

    Doutor em epidemiologia e professor da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), Paulo Petry discorda que alguns estados brasileiros estejam iniciando uma segunda onda de infecção.

    “Nós não descemos ou reduzimos os números de casos e mortes suficientemente a ponto de dizer que estamos numa segunda onda. Isso aconteceu na Ásia e em alguns países da Europa, porque lá eles tiveram uma subida muito rápida, atingiram o ponto máximo, e depois desceram lentamente. Haveria uma segunda onda se nós tivéssemos descido a um nível bastante baixo, o que não é o caso”, disse ao Nexo.

    Análises da evolução da pandemia em países como a China e a Espanha mostraram que segundas ondas ocorreram de seis a oito semanas depois dos últimos registros da doença que encerraram a primeira onda. Nenhum estado brasileiro registrou casos tão baixos que, na visão de Petry, poderiam significar o fim da primeira onda.

    Para o professor, o Brasil provavelmente ainda está na primeira onda, que pode durar meses. “Ela pode ter eventualmente declinado um pouco aqui ou ali em alguns pontos”, afirma. Na China, de acordo com o professor, a queda na primeira onda foi tão acentuada que o vírus praticamente não circulou mais, até reaparecer novamente com força.

    “A história mostra que as segundas ondas são mais brandas, só que precisamos ainda saber melhor se os níveis de anticorpos [em quem já foi infectado] caem muito. Se isso ocorrer, uma segunda onda poderia ter mais força”, disse.

    Algumas pesquisas mostraram que o nível de anticorpos em quem se curou da doença cai significativamente dois ou três meses após a infecção. Outros estudos apontaram, porém, que as células de defesa do organismo podem ter uma memória contra o vírus que dure anos. Ainda não se sabe qual seria a duração da imunidade adquirida por quem já contraiu o novo coronavírus. Um período curto de proteção poderia propiciar novas ondas da doença.

    Essas segundas ondas também poderiam ocorrer com reaberturas prematuras das atividades econômicas, de acordo com Petry. “A certeza que nós temos é que há uma correlação entre distanciamento e circulação do vírus. Aumentou distanciamento, o vírus cai. Relaxou o distanciamento, o vírus sobe. Todos os países estão mostrando isso, é inequívoco”, afirmou.

    Falar em formação de uma segunda onda no Brasil, para Petry, poderia passar a ideia de que a primeira já teria sido controlada e que a doença caiu a níveis tão baixos que justificariam a reabertura das atividades econômicas e a volta à normalidade. Afrouxar as restrições sem o devido controle da pandemia poderia acarretar um aumento de casos e mortes e nova sobrecarga dos sistemas de saúde.

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