A Unicamp sem Enem. E os vestibulares em ano de pandemia

Universidade é a primeira entre as estaduais paulistas a excluir as notas do exame na seleção de alunos para 2021, como consequência do adiamento da prova devido à crise sanitária

A Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) anunciou na quarta-feira (22) que o Enem não será aceito como forma de ingresso na universidade em 2021.

A justificativa é a incompatibilidade de calendários: o Ministério da Educação adiou as datas das provas do Exame Nacional do Ensino Médio, por causa da pandemia do novo coronavírus. Originalmente previstos para novembro, os exames presenciais agora vão ocorrer em 17 e 24 de janeiro, e o Enem Digital, em 31 de janeiro e 7 de fevereiro.

Segundo a Unicamp, a mudança “impossibilita que a Comissão [Permanente para os Vestibulares da Unicamp] receba os resultados a tempo das matrículas na Unicamp em 2021” – a primeira fase do vestibular acontece entre 6 e 7 de janeiro e a segunda etapa está marcada para 7 e 8 de fevereiro.

Nas redes sociais, candidatos reclamaram da decisão da universidade e destacaram que a Unicamp havia dado a entender, em um vídeo publicado em junho, que só deixaria de usar as notas do Enem se o exame nacional fosse adiado para maio – uma possibilidade aventada pelo MEC.

A reação de entidades estudantis

O adiamento do Enem foi anunciado em maio pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), órgão do Ministério da Educação responsável pela aplicação do exame, após pressão de gestores estaduais, Congresso, professores e estudantes.

A demanda surgiu pelos efeitos da pandemia do novo coronavírus no ensino. Aulas presenciais foram suspensas em escolas públicas e privadas de todo o país e muitos alunos encontram dificuldades para estudar em casa e para acompanhar o conteúdo pela internet.

O Enem é um dos principais meios de ingresso no ensino superior no país. Segundo o MEC, 500 universidades no país usam de alguma forma o resultado do exame, seja como forma única de ingresso ou como complemento a um vestibular próprio.

A Unicamp foi a primeira universidade do estado de São Paulo a decidir não utilizar as notas do exame nacional. Entidades estudantis veem a seleção sem os resultados do exame nacional como prejudicial aos ingressantes.

Em entrevista à Folha de S.Paulo, o estudante da USP e presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes), Iago Montalvão, afirmou que o exame é considerado mais democrático do que os vestibulares das próprias instituições tanto do ponto de vista pedagógico quanto por facilitar a concorrência de candidatos de outros estados.

A decisão da Unicamp, para ele, resulta da falta de diálogo do MEC com as universidades. Rozana Barrozo, presidente da Ubes (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas), também disse à Folha que o anúncio da universidade é “resultado da política de um governo que desvaloriza a importância do Enem”.

Como ficam as vagas e cotas na Unicamp

Além de normalmente admitir o Enem como forma de ingresso, a Unicamp possui seu próprio vestibular, que é de responsabilidade da Comvest (Comissão Permanente para os Vestibulares da Unicamp).

Segundo a Unicamp, as 639 vagas que eram destinadas à modalidade do Enem serão transferidas para o Vestibular Unicamp 2021, que passará a oferecer um total de 3.234 vagas, distribuídas entre 70 cursos de graduação.

Para garantir os percentuais de reserva de vagas do edital Enem-Unicamp para candidatos de escola pública (10%) e candidatos autodeclarados pretos e pardos (10%), estes também serão somados à reserva já existente no vestibular, estabelecendo um mínimo de 25% de ingressantes autodeclarados pretos ou pardos.

Os vestibulares em outras públicas

Universidades federais que aderem ao Sisu, o Sistema de Seleção Unificada do MEC que usa as notas do Enem para ingresso em cursos superiores, devem se adequar às novas datas do exame para a admissão de novos alunos em 2021.

Em São Paulo, a Unesp deve decidir na última semana de julho sobre o aproveitamento das notas do Enem em seu vestibular. As provas da primeira fase serão aplicadas em 30 e 31 de janeiro e a segunda fase será realizada em 28 de fevereiro.

a USP manteve, mesmo com as novas datas do Enem, o plano de destinar 2.905 vagas (de um total de 11.147) ao ingresso pelo Sisu em 2021.

As adaptações das particulares

Devido às restrições impostas pela pandemia do coronavírus, instituições privadas de ensino superior já vêm fazendo alterações em seus vestibulares de inverno (realizados para ingresso no meio do ano).

Várias delas, em todo o país – entre as quais Insper, Mackenzie, FGV, ESPM e Faap – decidiram pela aplicação de provas online para os candidatos.

No caso do Mackenzie, a prova online foi uma entre três possibilidades de ingresso, que incluíam o uso da nota do Enem de anos anteriores ou de vestibular anterior na instituição. Aplicada em 20 de julho, a avaliação digital foi prejudicada por uma instabilidade no sistema, fazendo com que candidatos não conseguissem concluir a prova.

Uma análise sobre as mudanças nos vestibulares de 2020

O professor da Faculdade de Educação da USP Ocimar Alavarse falou ao Nexo sobre o uso de provas eletrônicas no vestibular e o impacto de excluir o Enem das formas de ingresso.

Qual é o impacto de universidades públicas não usarem o Enem como forma de admissão?

Ocimar Alavarse O grande impacto é realizar os processos seletivos, quaisquer que sejam, com um prazo muito reduzido diante da retomada das aulas. Nós nem sabemos exatamente quando as aulas serão retomadas e como serão ministradas aos alunos. Será uma retomada muito parcial. Esse é o grande problema, porque você não dá condições aos alunos de escola pública – e eu ousaria dizer, inclusive, aos alunos de escolas privadas – de uma preparação mais adequada.

E mais, isso tende a agravar a desigualdade entre esses alunos. Há diferenças de condições de vida, de estudo mesmo entre os alunos de escola pública. Grande parte só tem a escola como fonte de aprendizado, diferente dos que tiveram condições de manter os estudos. Então está se produzindo uma desigualdade, porque não é só a disposição ou, como alguns chamam, o esforço do candidato em se preparar.

Isso é no geral. Em especial, com relação ao Enem, ele permite que um candidato de fora de São Paulo não precise vir fazer, por exemplo, o vestibular da Unicamp. Ele faz no lugar onde escolhesse, porque o Enem é aplicado nacionalmente, e depois utiliza a nota para disputar uma vaga de acordo com as regras das universidades que adotam o Enem. Então, quando a Unicamp decide não utilizá-lo, ela está privando candidatos de fora de São Paulo [de tentarem uma vaga], porque há custos adicionais, problemas de logística para vir fazer o exame aqui no estado de São Paulo. Esse me parece o grande impacto além da discussão inicial em relação ao tempo de preparação entre os candidatos.

A pandemia não criou a desigualdade, apenas — e isso não é pouco — realçou as condições em que os candidatos vivem e estudam. Alguns precisam trabalhar. Não é uma disputa apenas do conhecimento das pessoas, meritocrática, do esforço de cada um. Esse é um discurso que não corresponde à realidade. Embora existam os esforços individuais, eles são desencadeados em determinadas condições. É claro que um aluno que não precisa trabalhar, que não precisa fazer a sua comida, lavar sua roupa, não tem que cuidar dos irmãos, tem à sua disposição muito mais tempo para estudar em relação a outro que precisa fazer essas coisas. As condições pesam e a pandemia agregou o elemento da ausência da escola, que para muitos alunos é a única fonte de organização de seus estudos. É um quadro que acrescenta uma injustiça na disputa por um bem público que são as vagas nas universidades públicas.

Como avalia a realização de vestibulares de forma online?

Ocimar Alavarse Está sendo anunciado também o Enem digital [projeto do MEC que terá aplicação em fase piloto na prova de 2020]. Quando se está disputando vagas, por exemplo, no Enem ou em alguns cursos em escolas privadas, a questão que se coloca é se a prova aplicada por computador fica mais fácil ou mais difícil em relação à prova aplicada em papel. Em situações nas quais estão deixando na mão dos candidatos escolher papel ou prova digital, é preciso ter segurança de que as provas são equivalentes quanto à sua dificuldade. Porque senão, está sendo criado um obstáculo adicional e, o inverso, favorecendo alguém fazendo provas em formatos diferentes. No caso do Enem, até hoje eu desconheço o Inep ter publicado um estudo mostrando que as provas são equivalentes.

Outra coisa é quando se oferece somente a prova online. Ela é igual para todo mundo, sim, porém aqueles alunos que têm alguma familiaridade com a realização de provas em computador serão favorecidos porque se sabe que a mídia em que se apresenta uma prova pode criar uma dificuldade ou facilidade adicional. Mesmo quando se faz uma prova em papel, existe um conjunto de regras que precisam ser obedecidas para não criar obstáculos adicionais, para não criar o que chamamos de “efeito cansaço”. Há cursos em que a disputa é muito acirrada, às vezes um acerto decide pelo sucesso ou fracasso de alguém.

São cuidados que já existiam para preparar provas em papel. E quando [a prova] é para ser realizada no computador? Ler em uma tela de computador não é como ler no papel, inclusive pode cansar mais, por conta da luminosidade, da postura. Essa é uma preocupação que quem organiza provas eletrônicas deve observar. E o mais indicado é publicar um estudo que demonstre que as provas [em papel e digital] são equivalentes, apresentam as mesmas dificuldades. Com os obstáculos adicionais, como o fator da fadiga, é como se as questões passassem a exigir maior domínio, mais conhecimentos do aluno para ser acertadas.

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